Politica

Prisão de Queiroz: os impactos políticos e jurídicos para Bolsonaro

Operação chegou ao paradeiro de Fabrício Queiroz. A prisão do ex-assessor do clã Bolsonaro leva a crise para a vizinhança do Planalto
Edição Impressa
Tipo Notícia Por
QUEIROZ foi preso ontem em Atibaia e levado a uma penitenciária no Rio de Janeiro (Foto: NELSON ALMEIDA / AFP)
Foto: NELSON ALMEIDA / AFP QUEIROZ foi preso ontem em Atibaia e levado a uma penitenciária no Rio de Janeiro

Após quase dois anos da abertura do inquérito que apura possível esquema de "rachadinha" no gabinete do ex-deputado estadual e hoje senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), a pergunta "cadê o Queiroz?" foi finalmente respondida ontem.

Ex-assessor do filho mais velho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido), Fabrício Queiroz foi preso na casa de Frederick Wassef, que advogou para o "01" quando ele ainda integrava a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) e se apresentava como consultor jurídico da família.

Suspeito de coagir servidores e de recolher parte de seus salários, o militar da reserva da PM fluminense estava abrigado na residência de Wassef em Atibaia (SP). De lá, foi levado para o Rio e conduzido até a penitenciária. Sua prisão, explicou o Ministério Público, justifica-se para evitar interferências nas investigações.

Outros mandados também foram cumpridos na Operação Anjo, autorizada pelo juiz Flávio Nicolau, da 27ª Vara Criminal do Rio - o nome faz referência a Wassef, chamado assim pelos Bolsonaro quando obteve vitória no Supremo e conseguiu interromper provisoriamente os trabalhos da Polícia.

Entre as ações expedidas pela Justiça carioca, está a detenção de Márcia Oliveira de Aguiar, esposa de Queiroz, que permanecia foragida até a noite dessa quinta-feira.

O ex-assessor político do senador Flávio Bolsonaro e ex-PM Fabricio Queiroz (de máscara e boné) chega ao Instituto de Medicina Legal (IML) em São Paulo, Brasil, em 18 de junho de 2020, depois de ser preso pela Polícia Civil de São Paulo na cidade de Atibaia (SP) após solicitação da Justiça do Rio de Janeiro.
Foto: NELSON ALMEIDA / AFP
O ex-assessor político do senador Flávio Bolsonaro e ex-PM Fabricio Queiroz (de máscara e boné) chega ao Instituto de Medicina Legal (IML) em São Paulo, Brasil, em 18 de junho de 2020, depois de ser preso pela Polícia Civil de São Paulo na cidade de Atibaia (SP) após solicitação da Justiça do Rio de Janeiro.

Para analistas políticos, parlamentares e pesquisadores, o aparecimento de Queiroz neste momento tem efeito explosivo num cenário de grande instabilidade. Primeiro, deve ampliar a crise política na qual o presidente se vê envolvido, tornando-o ainda mais dependente de partidos do chamado "centrão". Devem aumentar ainda as tensões entre o presidente e o Judiciário, notadamente o Supremo Tribunal Federal (STF).

Doutor em Ciência Política e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Adriano Oliveira avalia que "o momento é delicado para o presidente" e que processos que tramitam devem ganhar celeridade.

"Bolsonaro está sofrendo um cerco no STF e no Congresso", disse. "Não é algo intencional, feito para tirar o presidente do cargo, mas motivado por duas questões", aponta. Segundo ele, "existem fatos que permitem que o Supremo aja", tais como as redes de disseminação de fake news e os atos antidemocráticos, organizados por apoiadores do chefe do Executivo.

Mas há também "o comportamento do presidente", que tem ensejado abertura de conflitos em muitas frentes, a exemplo da guerra que travava no Legislativo. Para ele, "Bolsonaro está encurralado, e vai ter que ceder".

A esses episódios, soma-se uma série de outros que marcaram a semana do presidente, como a prisão da militante extremista Sara Geromini, ainda na segunda-feira, 15.

Depois disso, o Planalto acumulou reveses, como a operação contra deputados bolsonaristas no dia seguinte, com quebra de sigilo fiscal solicitada pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo.

Na quarta-feira, 17, o mesmo STF votou para manter o agora ex-ministro da Educação Abraham Weintraub no inquérito das fake news. E, finalmente, reconheceu a constitucionalidade da investigação, instaurada de ofício pelo presidente da Corte, Dias Toffoli.

A prisão de Queiroz coroa esses dias de pressão sobre o presidente. De acordo com Emanuel Freitas, cientista político da Universidade Estadual do Ceará (Uece), a ação da Polícia Civil e do MP do Rio que chegou ao paradeiro do ex-assessor é mais um desses fantasmas que Bolsonaro carrega desde antes das eleições e cuja aparição volta a assombrá-lo agora.

"Esse evento é mais um dos problemas de dentro do próprio núcleo. Aliás, todos os problemas do Bolsonaro até hoje são elementos da agenda de antes das eleições", destaca, referindo-se a Queiroz como desses "esqueletos no armário".

Questionado sobre as consequências políticas para Bolsonaro, o pesquisador é mais cético. "Pode causar uma certa fissura na base, mas nada que o comprometa", projeta. "Já vi muitas pessoas dizendo até que não votaram no Queiroz, mas no Bolsonaro"

Freitas assinala que há um efeito entre apoiadores e outro no restante da opinião pública e que, "fora da base, a prisão traz mais elementos para robustecer a crítica e as acusações contra o presidente". 

 

Ouça o Podcast Jogo Político:

 

Essa notícia foi relevante pra você?
Logo O POVO Mais