A invasão da Venezuela pelos EUA que estremeceu o mundo há uma semana é mais um exemplo de como os americanos apropriam-se da falsa premissa de que para 'salvar' populações de regimes autoritários podem passar por cima do direito internacional. Foi assim no Afeganistão (2001); no Iraque (2003) e no Panamá (1989), por exemplo.
Embora o presidente Trump tenha um modus operandi único, o modelo visto na Venezuela não é invenção dele. O 'jeitinho americano' de agir sob pretextos em favor próprio foi construído por anos e por diferentes presidentes.
Entretanto, há diferenças no caso mais recente. Uma delas — essa sim, pode ser atribuída a Trump — é a falta de esforço em esconder que a operação foi motivada por interesses econômicos. A palavra petróleo é citada dezenas de vezes pela Casa Branca, enquanto um plano de transição aparece em segundo plano nos discursos do governo.
Outra diferença é geográfica. Esse modelo de ação militar era visto por nós, brasileiros e sul-americanos, como algo distante. Bagdá, por exemplo, fica a cerca de 12.000 quilômetros de Brasília se traçarmos uma linha reta entre as capitais do Iraque e do Brasil. Já a Venezuela faz fronteira conosco e tinha como maior desafio a imigração desenfreada de quem fugia do regime autocrático de Maduro.
Mecanismos internacionais têm se mostrado ineficazes em frear o tal 'jeitinho' americano. Enquanto isso, a Europa observa de orelhas em pé o caso da Groenlândia, território autônomo que pertence à Dinamarca e entrou na mira de Trump. Como impedir que os EUA repitam o modelo em território europeu? É uma pergunta ainda sem resposta na União Europeia.
Os EUA sinalizam a quebra da ordem vigente para ganho próprio e abrem um precedente para outros países que podem se sentir legitimados a praticar ações similares. Como a Rússia, no caso da Ucrânia. Ou a China, que ameaça intervir em Taiwan. A linha do absurdo se apaga quando o direito internacional é reduzido a mero detalhe ou acaso.