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Polarização insiste nas urnas e nas ruas sul-americanas

Eleições apertadas no Peru, protestos há dois meses na Colômbia e desgaste da imagem do presidente da Argentina fazem parte do conturbado contexto da região
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PROTESTOS na Colômbia contra o governo continuam após três meses e simbolizam nível de acirramento político na região (Foto: Juan BARRETO / AFP)
Foto: Juan BARRETO / AFP PROTESTOS na Colômbia contra o governo continuam após três meses e simbolizam nível de acirramento político na região

A recente disputa presidencial no Peru entre o candidato da esquerda Pedro Castillo e a populista de direita Keiko Fujimori foi apenas mais um dos episódios do acirrado contexto político na América do Sul que já se crescia antes mesmo da pandemia do coronavírus. Sem perspectiva de mudanças nesse cenário e com picos de tensão, diversos países da região registram protestos, desde de 2019, contra governantes e projetos políticos.

No Peru, Pedro Castillo, do partido de esquerda Peru Livre, foi declarado presidente semanas após a votação do segundo turno. A diferença entre ele e a candidata da extrema-direita Keiko Fujimori foi inferior a 45 mil votos, fator que levou autoridades eleitorais a demorarem a decretar o resultado, dando brecha para alegações de fraude - por parte de Keiko - e evidenciando a polarização no País que é reflexo de todo o continente.

Os chilenos vivem o momento institucional mais importante desde o fim da ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990). Remando rumo a uma nova Constituição, o país instalou oficialmente, no dia 4 de julho, a Assembleia Constituinte que redigirá as novas leis nacionais. A primeira constituinte do mundo com paridade de gênero será presidida por uma indígena, da etnia mapuche, de 58 anos; a acadêmica Elisa Loncón.

A Constituinte foi uma resposta às manifestações registradas desde 2019, que começaram contra o aumento de tarifas de metrô e se transformaram em atos contra o presidente Sebastián Piñera, de centro-direita, e contra o sistema político e social. Piñera resistiu aos protestos, mas teve popularidade em queda e ainda hoje segue questionado como gestor e criticado pela intensa e violenta repressão policial registrada à época dos atos.

A repressão policial também foi responsável pelo desgaste da imagem do presidente colombiano Iván Duque, de centro-direita, que enfrentará novas eleições no ano que vem. Em 2021, Duque enfrenta os maiores protestos populares registrados no país desde o início de sua gestão, há três anos. O catalisador inicial dos atos foi uma proposta de reforma da Previdência enviada ao Congresso que afetava os mais pobres e a classe média colombiana.

A população segue indo às ruas desde abril. No último dia 28, uma estátua de Cristóvão Colombo foi derrubada na cidade de Barranquilla. Segundo ONGs locais e internacionais, pelo menos 74 pessoas já morreram durante os atos; o governo contabiliza 48 óbitos. Nem a reforma policial anunciada por Duque para tentar acalmar os ânimos foi suficiente para frear os atos que já duram dois meses.

Paula Vieira, cientista política vinculada ao Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem-UFC), aponta que a polarização é um “lugar comum” quando se fala em posicionamentos. “Na vida política, normalmente, temos duas forças políticas predominantes. Uma ideia de situação e oposição. Como a gente sempre leva para essa relação dicotômica, então a polarização torna-se algo comum ao falarmos de política”.

Apesar disso, a pesquisadora prega cautela na hora de atribuir responsabilidades a essa ideia. “Para além do que entendemos como pólos, existe toda uma massa que não tem essa marcação de estar de um lado ou de outro. São pessoas que acompanham mais aspectos conjunturais e se movimentam, ocasionalmente, rumo a um desses pólos”, explica.

Segundo Vieira, a população, de modo geral, vai se posicionar em relação a temas que seguem um "aspecto conjuntural" a partir da agenda de governo. "Quando uma discussão sobre um tema chega à população, esta vai se posicionar de maneira fluida. A pessoa pode não estar em nenhum dos pólos, mas concordar ou discordar do tema, ou seja, entender a agenda de governo de uma forma pontual”, conclui.

Os argentinos fizeram um caminho inverso ao de outros países, mas que acabou no mesmo destino: o desgaste da imagem do governante no poder. O presidente de esquerda Alberto Fernández, elogiado no início da pandemia pela rigidez com a qual lidou com a Covid-19, vive hoje o cenário oposto. O governo registrou o nível mais baixo de aprovação desde que assumiu, em 2019.

Em junho deste ano, apenas 26% disseram aprovar Fernandéz de acordo com pesquisa da Universidade de San Andrés. A oposição cresceu em cima e tenta colher frutos na eleição legislativa prevista para novembro próximo. A expectativa é de que candidatos apoiados pelo governo, hoje com a maior bancada na Câmara e maioria no Senado, percam espaço.

A Argentina é um exemplo do aspecto conjuntural citado por Vieira. Eleito em 2019, Fernández substituiu Mauricio Macri, muito criticado por sua política econômica e promessas não cumpridas.

À época, a conjuntura fez com que argentinos que não tinham ligação com a esquerda optassem por uma mudança. Mas atualmente, a desaprovação de Fernández sugere que a conjuntura pode estar começando a tomar o rumo oposto e favorecer a oposição.

 

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