Reportagem

Domínio de facções impede acesso a escolas e hospitais

População é impedida de acessar equipamentos públicos localizados em locais dominados por facções rivais daquelas onde residem
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Pichações sinalizam demarcação de territórios, moradores são postos para fora de casas e outros têm cerceado direito de ir e vir (Foto: JÚLIO CAESAR)
Foto: JÚLIO CAESAR Pichações sinalizam demarcação de territórios, moradores são postos para fora de casas e outros têm cerceado direito de ir e vir

O loteamento dos territórios por parte de facções atrapalha até mesmo a utilização de serviços públicos por parte de moradores. Ao buscar equipamentos em regiões dominadas pelos criminosos, cidadãos se veem constrangidos e mesmo proibidos de irem aos locais, por virem de territórios com atuação de facção rival.

Um dos bairros que enfrenta essa situação é o Vila Velha. Conforme relatório de investigação feito pelo 17º Distrito Policial, ao qual O POVO teve acesso, o confronto entre as gangues 3V (ligada à facção Comando Vermelho) e Gafanhotos (ligado a Guardiões do Estado) chega a impedir acesso a escolas e hospitais, "devido ao medo dos moradores de morrerem apenas por residirem em área inimiga". "Já foi relatado por moradores que residem na área dos gafanhotos, por exemplo, que eles não têm coragem de consultarem na UPA, pois integrantes do 3V não permitem, sendo assim, eles se consultam apenas no Gonzaguinha que fica localizado na área dominada pelos gafanhotos". Conforme denúncias de moradores, os criminosos chegam a até mesmo cobrar "pedágio".

O relatório foi elaborado quando viralizou nas redes sociais vídeo daquela que ficou conhecido como "Rua Fantasma", a rua Galvão. Após ter casas desapropriadas para obra de revitalização, a área virou alvo de disputas entre as gangues, que passaram a expulsar moradores que ainda esperavam a indenização. Com medo, outros foram embora. A área é tratada como estratégica, conforme o relatório, por ficar às margens do mangue do Rio Ceará, permitindo rotas de fugas, esconderijo de armas e drogas e até mesmo como local para assassinatos, nos chamados "tribunais do tráfico".

O grande Jangurussu é outra área com registros dessa atuação. Conforme um morador da região, que terá a identidade preservada, também lá há impactos na saúde e na educação. Ele narra casos de evasão escolar de jovens que moravam e estudavam em
territórios "rivais".

Outro serviço impactado é a mobilidade. Motoristas de transporte por aplicativo costumam cancelar quando descobrem o endereço do chamado, reclama. Em relação ao transporte público, o morador cita dois problemas. Primeiro, a pouca quantidade de veículos circulando. Segundo, o risco de que ao atravessar um território "inimigo" os passageiros sejam atacados pela facção local. Ele lembra também que o serviço de frete é prejudicado. Por fazer a mudança de uma pessoa expulsa pela facção, os trabalhadores foram proibidos de voltar ao local. "Parece que você tá no período ditatorial, mas é uma ditadura de outra forma, de não poder estar ali por ser de outro território. Você é cerceado no direito de ir e vir", denuncia
o morador.

Durante sua trajetória de mediação de conflitos em territórios vulneráveis, Jamieson Simões relata ter visto vários usuários de serviços públicos serem prejudicados pelo conflito entre facções, sobretudo jovens. Não só deixam de ir a aulas, como também têm dificuldade para ir a um Cras ou a um Cuca.

Ele também cita que o cumprimento de medidas socioeducativas é impactado. "O fazer, o gerir a cidade também passa pelo conhecimento desses territórios, da questão da territorialidade, que o poder público ignora". Para Simões, o poder público não pode se ausentar dos territórios, sob pena de ampliar o poder da facções. "O número de equipamentos de assistência em Fortaleza é muito defasado", afirma, citando o número de Cras e Conselhos Tutelares existentes. Ele também defende descentralização
dos serviços.

 

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