O vazio do calendário no início do ano sugere uma folha em branco. Ano a ano, uma promessa de recomeço surge acompanhada pelo frescor de um reinício. Contudo, para milhares de cearenses, o passar de página à volta ao trabalho após as festas de fim de ano não soa como renovação. Segue o mesmo peso da segunda-feira, que muitas vezes é a sequência direta de um domingo de folga solitário entre os outros cinco ou seis dias de trabalho. Mais parece um cronômetro.
A campanha Janeiro Branco, que promove a reflexão sobre o bem-estar mental e emocional, chega a 2026 com um desafio que não é anual ou específico do primeiro mês do ano, mas diário. Se trata de encarar a rasura de uma sociedade que adoece entre planilhas, notificações fora de hora e a pressão por uma produtividade que, por vezes, ignora o limite do corpo e da mente.
No Ceará, os números apurados pelo O POVO com o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Ministério Público do Trabalho do Ceará (MPT-CE) acentuam traços de um desenho que já estava denso e alarmante: os afastamentos por transtornos mentais e comportamentais mais do que duplicaram nos últimos cinco anos no Estado.
Segundo o INSS, o número de benefícios por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) concedidos sob o Capítulo V da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), que se refere ao problema citado, saltou de 5.754, em 2021, para 13.170 contabilizados em 2024 — marcando um aumento de 128%. De todos os casos, 647 são acidentários, ou seja, atribuídos diretamente a acidentes de trabalho.
Em 2025, tendo sido registrado apenas o primeiro semestre até então, já foram 6.819 afastamentos, com 126 oficializados como acidentes, sinalizando que a tendência de crescimento permanece inalterada.
Entre estes números, destaca-se uma disparidade de gênero persistente: as mulheres representam cerca de 60% dos casos desde 2021. Em 2024, por exemplo, foram 8.080 mulheres afastadas e 5.090 homens. Em meio aos casos, o que se sobressai são os episódios depressivos e “outros transtornos ansiosos”, que não se encaixam na listagem fixa. Somando as duas categorias, são 18.931 entre janeiro de 2021 e junho de 2025.
O aumento dos diagnósticos reflete-se diretamente nas denúncias que chegam ao MPT-CE. Em 2025, houve um crescimento de 23% nas queixas relacionadas com violência ou assédio psicológico nas empresas em comparação com o ano anterior. Segundo o órgão, foram autuados 488 procedimentos desta natureza no último ano. Isto sem contar a subnotificação, uma vez que muitas pessoas deixam de denunciar por falta de conhecimento ou orientação sobre os canais disponíveis.
"Quando identificamos um quadro sistêmico de adoecimento, com vários trabalhadores apresentando Burnout ou depressão, não estamos mais olhando para a saúde individual, mas para um meio ambiente de trabalho que está doente", afirma o MPT-CE. Para tentar corrigir estas distorções, eles utilizam o Termo de Ajuste de Conduta (TAC), um instrumento extrajudicial que obriga as empresas a reestruturarem a sua cultura interna.
No Ceará, as obrigações mais comuns impostas às empresas giram em torno do diagnóstico de riscos psicossociais, implementação de canais de denúncia efetivos, letramento da liderança e, crucialmente, o fim das metas abusivas.
Quanto aos setores econômicos que apresentaram mais afastamentos no período de 2020 a 2024, segundo informações do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho (Smartlab), com cerca de 80% do total de concessões de benefícios previdenciários acidentários sendo associados à saúde mental, o setor bancário do Ceará aparece com 232 ocorrências.
Um dos principais obstáculos enfrentados nas investigações tem sido a natureza "invisível" do dano psicológico. Diferente de um acidente de trabalho físico, onde a prova é imediata, o inquérito sobre saúde mental exige transformar relatos subjetivos em provas objetivas de que a gestão é adoecedora.
O Janeiro Branco surge, assim, como uma janela de oportunidade para as organizações revisarem as suas práticas de gestão antes da intervenção estatal. A nova Norma Regulamentadora (NR-1) já exige esse gerenciamento de riscos, tornando a saúde mental não apenas uma questão ética, mas uma obrigação legal e rigorosa.
Estruturas sociais que desestruturam a mente
Se os dados revelam a "febre" do adoecimento mental no Ceará, as análises clínicas das especialistas ajudam a entender a "infecção". Para as psicólogas ouvidas pela reportagem, o aumento dos afastamentos é resultado de uma colisão entre estruturas sociais desiguais e ambientes de trabalho que, muitas vezes, ignoram a subjetividade humana.
A linha que separa o cansaço produtivo do colapso psíquico é, por exemplo, é tênue. Carola Riffel, especialista em neuropsicodiagnóstico e psicóloga da Unimed Fortaleza, explica que o stress pontual — aquele causado por um prazo apertado ou um dia corrido — é uma reação natural de adaptação. O problema reside na cronicidade. "O stress torna-se um problema de saúde quando é diário. Quando ele deixa de ser uma agitação passageira para se tornar um estado depressivo", afirma.
Sayonara de Freitas, psicóloga especialista em saúde mental da população negra e de grupos minorizados, complementa que o sinal de alerta máximo é o impacto na rotina fora do escritório. Ela destaca a "angústia do domingo" como um sintoma clássico: uma ansiedade intensa, com aperto no peito e irritabilidade, que surge à medida que o fim de semana termina.
"Quando o trabalho afeta o sono, a alimentação e as relações sociais, ele deixou de ser apenas uma fonte de stress e tornou-se um fator de adoecimento", alerta.
Como visto, as mulheres representam uma fatia maior dos afastamentos. Para Carola, a explicação passa pela "jornada tripla". "A mulher não é apenas a colaboradora; ela é a mãe, a esposa e a cuidadora. Existe uma pressão cultural para que ela sustente o lar física e emocionalmente, muitas vezes lidando com salários menores que os dos homens e o risco constante de assédio", pontua.
Já Sayonara traz uma perspectiva sobre o "silêncio masculino". Segundo ela, o machismo estrutural impõe aos homens um papel de "impenetrabilidade emocional", o que retarda a busca por ajuda.
"O machismo coloca muitos homens em um lugar de suposta força. Muitos adoecem, mas não acessam serviços, por isso não são registrados. As mulheres buscam mais ajuda e estão submetidas a desigualdades, assédio e menor reconhecimento", observa.
Além do gênero, um dos pontos mais sensíveis do debate sobre saúde mental nas empresas é o racismo estrutural, ainda que a pesquisa do INSS não revele em números — solicitados pela reportagem.
Sayonara enfatiza que os ambientes corporativos não são neutros e reproduzem frequentemente o que a pesquisadora Cida Bento chama de "pacto da branquitude", como ela lembra, que descreve estes acordos silenciosos que garantem privilégios a pessoas brancas enquanto isolam trabalhadores negros.
"Esse racismo aparece por meio da necessidade constante de provar competência, microagressões, silenciamento e isolamento. Autores como Frantz Fanon já apontavam que viver em uma sociedade racialmente hierarquizada impõe uma tensão psíquica contínua às pessoas negras", explica Sayonara.
As especialistas concordam que o Janeiro Branco nas empresas precisa ir além do discurso do "autocuidado individual". Para Sayonara, é impossível falar de bem-estar sem discutir a jornada exaustiva, como a escala 6x1, e a garantia de renda digna.
"A saúde mental na periferia é um direito ligado às condições de vida. Não adianta oferecer meditação se a jornada impede o lazer e o convívio familiar", critica. A solução, portanto, exige que as empresas assumam uma responsabilidade institucional: políticas de diversidade efetivas, canais de escuta que protejam e a compreensão de que a saúde mental é uma construção coletiva.
"As professoras desejavam adoecer para não ter que ir trabalhar"
Se a campanha de janeiro propõe uma página em branco para preencher de autocuidado, a professora aposentada Adriana Lucas Lima, 54, conseguiu finalmente deixar sua lousa sem rabiscos. No dia 30 de dezembro, ela encerrou um ciclo de 25 anos na educação, atuando como docente, coordenadora e supervisora, mas foi uma dessas pessoas que precisaram solicitar afastamentos por conta da saúde mental.
O ambiente escolar, lugar de ensino, transformou-se em um cenário de esgotamento físico e emocional crônico para ela. "Não fazemos apenas o papel de professor; temos que ser psicólogos, pais e mães. Vi professoras dando banho em alunos que chegavam sujos. E isso em escolas particulares, não estou nem falando das públicas", conta.
Essa transferência de responsabilidade sobrecarrega quem está na linha de frente, gerando um ambiente de tensão constante onde a autoridade do professor é frequentemente violada por alunos e pais. Na mesma linha, o relato de Adriana também toca em feridas expostas pelas psicólogas desta reportagem.
Ela recorda o caso de uma professora que foi alvo de uma campanha difamatória e racista por parte de uma mãe pelo simples fato de não ser branca. "A professora não podia reagir. Tinha que ficar calada porque, se agisse, poderia ser colocada no meio da rua", conta.
Essa vulnerabilidade se estende até mesmo à violência física. Adriana descreve um cotidiano onde alunos xingam, cospem e agridem professores, enquanto gestores ignoravam o sofrimento do corpo docente. "É muito lindo nas propagandas de escolas eles falarem de emocional, mas a realidade é cruel. Quando uma gestão tenta ser humanizada, ela é maltratada pela gestão maior. A ordem é explorar", desabafa.
O nível de desespero emocional relatado pela educadora atinge um ápice alarmante quando a doença física passa a ser vista como um refúgio à mental. "Quando chega a época da dengue, da chikungunya, essas doenças comuns no começo do ano, no começo do ano, viu? As professoras desejavam adoecer para não ter que ir trabalhar. Você acha que isso é normal?", questiona Adriana.
A pressão é tamanha que o medo de perder o emprego supera a recomendação médica. Adriana confessa que, em seu primeiro afastamento por razões psíquicas, o médico prescreveu 45 dias de repouso. "Fiquei desesperada. Pensei em rasurar o atestado e colocar apenas 13 dias para não ser demitida. Quando tirei o tempo que ele pediu e voltei, um mês depois eu estava no olho da rua". O resultado de décadas sob esse regime foi uma hipertensão arterial, desenvolvida em meio a picos de estresse que a levaram a urgências hospitalares.
Hoje, aposentada, Adriana não sente falta da rotina que lhe tirava o sono nas noites de domingo, independente de qualquer amor pela profissão. Para ela, a liberdade é poder ler um livro com calma, cuidar do pai e assistir a uma série sem a "angústia do juízo" causada pelo trabalho.
O relato da ex-professora é a prova de que as campanhas de Janeiro Branco não podem ser apenas um marcador no calendário ou um alento ao cliente, aluno ou beneficiado. Precisam ser bem estruturadas e atingir a organização da empresa, em qualquer profissão. Ensina assim quem, por anos, tentou escrever o futuro de outros enquanto via a própria saúde se apagar.