Arthur Gadelha é crítico de cinema do O POVO, ex-presidente da Aceccine e membro da Abraccine. Acompanha as estreias nacionais e os passos do cinema cearense, cobrindo eventos internacionais como Cannes, Gramado, Globo de Ouro e Oscar. Nessa coluna, propõe uma escrita mais imersiva com análises e reflexões pessoais, trazendo também bastidores de filmes, festivais e premiações, além de refletir sobre o papel da crítica de arte no mundo
Vitória do Brasil no Critics Choice é marcada por desrespeito ao cinema "estrangeiro"
Apesar de surpreendente, a vitória de "O Agente Secreto" no 31º Critics Choice Awards foi menosprezada pela própria premiação ao entregá-lo fora da cerimônia
Foto: Kevin Winter/Getty Images para Critics Choice Association/AFP
Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho discursam no palco durante a 31ª edição anual do Critics Choice Awards
“Ou como chamamos no Brasil, Melhor Filme Estrangeiro”, brincou Wagner Moura no palco do 31º Critics Choice neste domingo, 4, para anunciar o principal prêmio da noite, de Melhor Filme. Gerando uma reação bem-humorada da plateia, o comentário ácido soou improvisado já que a presença de Wagner e Kleber Mendonça Filho na cerimônia televisionada não parecia estar no roteiro da premiação.
O prêmio de Melhor Filme em Língua Estrangeira foi anunciado ao ‘O Agente Secreto’ antes mesmo da premiação, enquanto Kleber e Emilie Lesclaux chegavam ao evento, no meio de uma entrevista ainda no tapete vermelho.
Após responderem às perguntas cordialmente, a repórter simplesmente anunciou a vitória, entregou o troféu e chamou os comerciais. Kleber e Emilie se olhavam constrangidos, sem terem direito a qualquer discurso de agradecimento, muito longes dos holofotes e dos aplausos.
Em premiações que são transmitidas na TV americana, é comum que alguns prêmios sejam entregues fora do palco, principalmente algumas categorias técnicas, por uma questão arbitrária de tempo. Há um espaço pré-determinado na grade da televisão e, assim como o Globo de Ouro, o Critics Choice premia tanto filmes quanto séries, resultando numa lista imensa de categorias.
A categoria estrangeira, porém, não costuma ser escanteada assim. Em 2025, o francês ‘Emilia Perez’ venceu o brasileiro ‘Ainda Estou Aqui’ na mesma premiação e o diretor Jacques Audiard subiu ao palco na cerimônia para fazer um discurso de agradecimento. Nas redes sociais, a reação negativa ao trato com o filme brasileiro foi imediata por parte da imprensa americana — antes mesmo dos próprios brasileiros, já conhecidos por uma presença online avassaladora.
É preciso reconhecer, no entanto, que a organização do evento pelo menos reagiu muito rapidamente. De última hora, Kleber e Wagner foram chamados para entregar o prêmio mais esperado da noite, sozinhos ao centro do palco.
Ao invés de apresentar a categoria, Kleber usou o tempo para agradecer a premiação e para celebrar os filmes estrangeiros que concorriam com o Brasil — como o iraniano ‘Foi Apenas um Acidente’, que até ontem parecia ser o favorito.
Foto: IMDB/Reprodução
O diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso ganhou o Critics Choice Awards de melhor fotografia pelo filme "Sonhos de Trem" neste domingo, 4
Mas o momento da noite ficou mesmo com Wagner ao brincar dizendo que, para o Brasil, essa categoria de Melhor Filme é que era a de Melhor Filme Estrangeiro. O uso da palavra “estrangeiro” foi certeiro na conversa, não porque é a usada oficialmente no nome do prêmio, mas porque reforça o tratamento da comunidade norte-americana com o que vem de fora. Quando venceu o Oscar em 2020, o sul-coreano Bong Joon-Ho destacou humilde e francamente como o público dos EUA se libertaria caso se dispusesse a ler legendas.
Essa vitória de “O Agente Secreto” chegou como uma bênção para a equipe brasileira, e também para a “estrangeira” que está cuidando da estratégia de premiação, porque abre o calendário de 2026 com um favoritismo inesperado da comunidade crítica no país.
Há poucos dias, o filme se tornou o primeiro brasileiro a vencer a chamada “Trifecta da Crítica” ao ser celebrado como o Melhor Filme Internacional pelas três principais associações críticas dos EUA: New York Film Critics Circle (NYFCC), Los Angeles Film Critics Association (LAFCA) e National Society of Film Critics (NSFC). Para fechar a quadra, venceu ontem o prêmio do Critics Choice, a única entidade de críticos a ter uma cerimônia televisionada.
Foto: DIVULGAÇÃO/VITRINE FILMES
FILME brasileiro 'O Agente Secreto' é estrelado por Wagner Moura
A vitória, porém, acontece num contexto muito específico. Neste ano, o Critics Choice inseriu uma regra: se o filme internacional for indicado a Melhor Filme, ele se torna inelegível ao prêmio de Filme em Língua Estrangeira. O norueguês ‘Valor Sentimental’, que está em cartaz no Brasil, teria uma vantagem absurda se tivesse concorrido com o Brasil, porque estava indicado ao impressionante número de sete categorias, incluindo Direção e Roteiro. Acabou que o filme saiu sem nenhum prêmio.
Não dá para projetar que essa vitória influencie diretamente a campanha de ‘O Agente Secreto’ na direção do Oscar, porque os votantes são muito diferentes em quantidade e opinião. No entanto, essa vitória surpreendente faz o filme ser discutido e bagunça a vaga ideia de que existe um favorito isolado na disputa.
A confusão que fez Kleber e Wagner subirem ao palco na noite de ontem, ironicamente, deu uma visibilidade inesperada, crítica e bem humorada. Agora é aguardar pelas cenas dos próximos capítulos.
Esse conteúdo é de acesso exclusivo aos assinantes do OP+
Filmes, documentários, clube de descontos, reportagens, colunistas, jornal e muito mais
Conteúdo exclusivo para assinantes do OPOVO+. Já é assinante?
Entrar.
Estamos disponibilizando gratuitamente um conteúdo de acesso exclusivo de assinantes. Para mais colunas, vídeos e reportagens especiais como essas assine OPOVO +.