Logo O POVO+
Do Pix ao bitcoin: a transformação não é digital, é civilizacional
Foto de Vladimir Nunan
clique para exibir bio do colunista

Vladimir Nunan é CEO da Eduvem, uma startup premiada com mais de 20 reconhecimentos nacionais e internacionais. Fora do mundo corporativo, é um apaixonado por esportes e desafios, dedicando-se ao triatlo e à busca contínua pela superação. Nesta coluna, escreve sobre tecnologia e suas diversidades

Vladimir Nunan tecnologia

Do Pix ao bitcoin: a transformação não é digital, é civilizacional

Esta não é uma história sobre tecnologia. É uma história sobre poder, confiança e a maior reorganização social desde a invenção da escrita
Script usado: close-up of a city of the future, people walking, future, technopunk, futuristic cars, robots, Photography, Shot on 70mm, Depth of Field, --ar 16:9 --v 6.0 (Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial (script próprio): Midjourney)
Foto: Imagem gerada por Inteligência Artificial (script próprio): Midjourney Script usado: close-up of a city of the future, people walking, future, technopunk, futuristic cars, robots, Photography, Shot on 70mm, Depth of Field, --ar 16:9 --v 6.0

Imagine que você está assistindo a um filme de ação. Na tela, vê explosões, perseguições e efeitos especiais impressionantes. Mas se você fosse um crítico de cinema experiente, saberia que o verdadeiro drama está acontecendo nos bastidores: nas mudanças de roteiro, nas decisões do diretor, na evolução da própria linguagem cinematográfica.

É exatamente isso que está acontecendo com nossa sociedade hoje. Todos nós vemos as "explosões" da transformação digital: aplicativos mais rápidos, pagamentos instantâneos, inteligência artificial em todo lugar. Mas poucos percebem o verdadeiro drama que se desenrola nos bastidores: uma mudança fundamental na forma como os seres humanos cooperam entre si.

Esta não é uma história sobre tecnologia. É uma história sobre poder, confiança e a maior reorganização social desde a invenção da escrita. E para entendê-la, precisamos olhar além das telas dos nossos celulares.

Por que grandes mentes às vezes não enxergam o óbvio

Paul Krugman é um dos economistas mais respeitados do mundo. Prêmio Nobel, professor de Princeton, colunista do New York Times.

Recentemente, ele escreveu um artigo elogiando o Pix brasileiro como "o futuro do dinheiro". E ele não está errado: o Pix é realmente impressionante. Transferências instantâneas, gratuitas, funcionando 24 horas por dia. Uma revolução comparado aos antigos DOCs e TEDs.

Mas aqui está o problema: Krugman está olhando para a árvore e perdendo a floresta. Ele vê uma inovação tecnológica brilhante, mas não percebe a transformação civilizacional que está acontecendo ao nosso redor.

É como se ele estivesse admirando a qualidade de uma nova televisão sem perceber que a própria televisão está sendo substituída pela internet.

O pensador brasileiro Carlos Nepomuceno chama isso de "visão tecnologicista": quando focamos tanto nas ferramentas que perdemos de vista as mudanças estruturais que elas representam.

É a diferença entre quem vê um smartphone e pensa "que telefone incrível!" e quem vê um smartphone e pensa "isso vai mudar completamente como as pessoas se relacionam".

Para entender a diferença, precisamos desenvolver a "inteligência abstrata": a capacidade de dar um passo para trás e questionar nossas próprias certezas. É como subir em um prédio alto para ver a cidade inteira, em vez de ficar no nível da rua olhando apenas para a loja da esquina.

Pix vs Bitcoin: a diferença entre reformar a casa e construir uma nova

Vamos usar uma analogia simples. Imagine que você mora em uma casa antiga que está com problemas. Você tem duas opções: reformar a casa existente ou construir uma casa completamente nova.

O Pix é como uma reforma espetacular. Pegou o sistema bancário brasileiro (uma casa velha, lenta e cara) e fez uma reforma incrível. Agora as transferências são instantâneas, gratuitas e funcionam a qualquer hora. É a mesma casa, mas muito melhor.

Os mesmos bancos continuam lá, o Banco Central continua controlando tudo, mas agora o sistema funciona de forma muito mais eficiente.

O Bitcoin é como construir uma casa completamente nova. Não é uma melhoria do sistema bancário tradicional: é um sistema totalmente diferente.

Não tem Banco Central, não tem bancos intermediários, não tem governo controlando. É uma rede de pessoas que confiam umas nas outras através de matemática e código, não através de instituições.

A diferença é fundamental. O Pix melhorou o jogo existente. O Bitcoin criou um jogo completamente novo, com regras completamente diferentes.

Como disse Andreas Antonopoulos, um dos maiores especialistas em Bitcoin: "O Bitcoin não é apenas uma moeda digital. É uma revolução na forma como confiamos". E confiança, como veremos, é a base de toda civilização.

O segredo por trás de tudo: como funciona a confiança humana

Para entender por que isso é uma revolução civilizacional, precisamos falar sobre algo que raramente paramos para pensar: como funciona a confiança entre seres humanos.

Pense em qualquer transação que você faz no dia a dia. Quando você compra um café, você confia que o dinheiro que está dando tem valor.

Quando você deposita dinheiro no banco, você confia que ele estará lá amanhã. Quando você usa o Pix, você confia que o Banco Central e os bancos vão processar sua transferência corretamente.

Toda essa confiança é "centralizada": ela depende de instituições específicas (bancos, governos, empresas) que funcionam como intermediários. É como se toda vez que você quisesse falar com seu vizinho, tivesse que ligar para uma central telefônica que conecta a ligação.

Agora imagine um mundo onde você pode confiar diretamente no seu vizinho, sem precisar da central telefônica. Isso é o que a tecnologia blockchain faz: ela permite que pessoas confiem umas nas outras diretamente, sem intermediários.

Pesquisas científicas mostram que estamos vivendo uma mudança histórica. O estudo "Blockchain for decentralization of internet", publicado em uma das principais revistas científicas da área, explica que a blockchain permite criar uma "teia de confiança" entre pessoas que nem se conhecem. É como se cada pessoa pudesse ser sua própria central telefônica.

Por que isso importa: o problema dos 8 bilhões

Aqui está o ponto crucial que muita gente não percebe: o modelo atual de confiança centralizada está chegando ao seu limite. E a razão é simples: somos muitos.

Quando éramos milhões de pessoas no planeta, fazia sentido ter algumas instituições centrais controlando tudo. Era mais simples, mais eficiente. Mas agora somos 8 bilhões de pessoas, todas conectadas pela internet, todas querendo participar da economia global.

É como a diferença entre organizar uma festa para 20 pessoas e organizar uma festa para 8 mil pessoas. Na festa pequena, uma pessoa pode coordenar tudo. Na festa gigante, você precisa de um sistema onde as pessoas se organizam sozinhas, em grupos menores, de forma distribuída.

O modelo centralizado funcionou muito bem até agora. Na verdade, funcionou tão bem que nos trouxe até aqui: 8 bilhões de pessoas vivendo no mesmo planeta. Mas agora, ironicamente, é o próprio sucesso desse modelo que está criando a necessidade de um novo modelo.

Como diz Nepomuceno: "Foi o mérito do atual sistema que nos permitiu chegar a oito bilhões de pessoas. É o mérito do atual sistema ter chegado a oito bilhões que causou o atual problema".

A nova arquitetura da cooperação humana

O que está emergindo é uma nova forma de organização social. Em vez de dependermos de grandes instituições centralizadas, estamos aprendendo a cooperar de forma distribuída, em redes.

Pense no Uber. Antes, se você quisesse um táxi, tinha que ligar para uma central que controlava todos os motoristas. Agora, através do aplicativo, você se conecta diretamente com motoristas independentes. A plataforma facilita a conexão, mas não controla os carros nem emprega os motoristas.

Pense no Airbnb. Antes, se você quisesse se hospedar em uma cidade, tinha que usar hotéis: empresas centralizadas que controlam quartos. Agora você pode se hospedar na casa de pessoas comuns, conectando-se diretamente com elas através da plataforma.

O Bitcoin leva isso um passo adiante. Ele elimina até mesmo a necessidade da plataforma central. É como se o Uber funcionasse sem a empresa Uber: apenas motoristas e passageiros se conectando diretamente através de um protocolo aberto que ninguém controla.

Chamamos isso de "Uberização" e "Blockchainização": duas forças que estão criando as bases de uma nova civilização. Uma civilização onde a cooperação acontece de forma mais distribuída, mais resiliente e mais adaptável.

O que isso significa para você

Talvez você esteja pensando: "Tudo bem, mas o que isso tem a ver comigo? Eu só quero que meu dinheiro seja transferido rapidamente e sem taxa".

A resposta é que essa transformação vai afetar muito mais do que apenas pagamentos. Ela vai mudar a forma como trabalhamos, como nos organizamos, como tomamos decisões coletivas, como criamos valor.

Imagine um mundo onde você pode trabalhar para qualquer empresa do mundo sem precisar de bancos para receber pagamentos.

Onde você pode investir diretamente em projetos que considera importantes, sem intermediários financeiros. Onde você pode participar de decisões coletivas de forma transparente e verificável. Onde você pode ter controle total sobre seus dados pessoais, sem depender de grandes empresas de tecnologia.

Esse mundo não é ficção científica. Ele já está sendo construído, tijolo por tijolo, através de tecnologias descentralizadas.

A inteligência para navegar na mudança

Mas para participar conscientemente dessa transformação, precisamos desenvolver a "inteligência abstrata". Não é suficiente ser um especialista em sua área: você precisa ser capaz de enxergar os padrões maiores, questionar suas próprias premissas e adaptar-se a mudanças de paradigma.

É a diferença entre um motorista que conhece muito bem as ruas da sua cidade e um motorista que entende como funcionam os mapas. Quando as ruas mudam, o primeiro fica perdido. O segundo se adapta rapidamente.

A inteligência abstrata nos ajuda a ver conexões onde outros veem apenas eventos isolados. Em vez de ver o Uber, o Airbnb e o Bitcoin como três coisas diferentes, conseguimos ver que são manifestações do mesmo movimento de descentralização.

Ela nos ensina a questionar o que parece óbvio. Por que precisamos de bancos? Por que a confiança precisa ser centralizada? Por que as coisas sempre foram feitas assim? Essas perguntas simples levam a descobertas revolucionárias.

E nos permite abraçar a transição sem descartar o passado. O modelo centralizado não é "ruim": ele nos trouxe até aqui. Mas agora precisamos de algo novo. É como aprender a dirigir sem esquecer como andar a pé.

O futuro já começou

A transformação que estamos vivendo não é sobre tecnologia: é sobre evolução social. Estamos aprendendo novas formas de cooperar, de confiar, de criar valor juntos. E isso é muito mais profundo do que qualquer aplicativo ou sistema de pagamento.

O Pix é impressionante, mas é o ápice do modelo antigo. O Bitcoin é apenas o começo do novo modelo. E entre esses dois extremos, estamos construindo o futuro da civilização humana.

A pergunta não é se essa transformação vai acontecer: ela já está acontecendo. A pergunta é: você vai participar conscientemente dela, ou vai apenas ser levado pela corrente?

A descentralização não é opção: é caminho obrigatório. O futuro não será apenas digital. Ele será, fundamentalmente, descentralizado.

E a construção desse futuro já começou.

Referências:

Antonopoulos, A. (2014). Mastering Bitcoin: Unlocking Digital Cryptocurrencies. O'Reilly Media.

Zarrin, J., Phang, H. W., Saheer, L. B., & Zarrin, B. (2021). Blockchain for decentralization of internet: prospects, trends, and challenges. Cluster Computing.

Hilbert, M. (2020). Digital technology and social change: the digital transformation of society from a historical perspective. Dialogues in clinical neuroscience

Foto do Vladimir Nunan

Ôpa! Tenho mais informações pra você. Acesse minha página e clique no sino para receber notificações.

O que você achou desse conteúdo?