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PT e Ferreira Gomes: como inimigos viraram aliados, e agora podem brigar de novo
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PT e Ferreira Gomes: como inimigos viraram aliados, e agora podem brigar de novo

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Ciro Gomes, Cid Gomes, Francisco Pinheiro e Luizianne Lins na eleição de 2006
 (Foto: MAURI MELO)
Foto: MAURI MELO Ciro Gomes, Cid Gomes, Francisco Pinheiro e Luizianne Lins na eleição de 2006

A aliança entre PT e a família Ferreira Gomes governa o Ceará há uma década e meia e pode chegar ao fim na semana que vem. Uma aliança duradoura, poderosa, mas que sempre enfrentou turbulências. Mas, nunca os conflitos foram encampados, como agora, pelos principais líderes de um lado e outro.

Entretanto, os dois grupos serem adversários não é novidade. Estiveram por mais de duas décadas em lados opostos da política estadual. Nesse período houve atritos duros, ataques frequentes e declarações mutuamente agressivas. Praticamente não era feita distinção pela esquerda entre Ciro e Tasso Jereissati (PSDB), visto como arqui-inimigo pelos petistas em meados dos anos 1990. Aliás, Ciro era tido como político mais tradicional, talvez conservador, que Tasso. Um era a política antiga, outro, a modernidade empresarial.

O mesmo não valia para Cid Gomes, que, no PSDB, conseguiu apoio do PT em Sobral, o laboratório político da coalizão estadual. Fosse com Ciro no comando — como está agora na eleição estadual — provavelmente a aliança nem teria começado.

Os embates duraram desde que o PT estava sendo fundado até a chegada de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ao poder. O entendimento nacional criou as condições para o acerto estadual. Uma conjuntura que deixou de existir há seis anos.

Olhando para a história, estranho não é PT e os Ferreira Gomes romperem. Inusitado é estarem juntos.

A relação entre os Ferreira Gomes e o PT

Fim da ditadura

Quando movimentos de oposição à ditadura militar começavam a formar o PT, o pai de Ciro Gomes, Cid e Ivo era prefeito de Sobral. José Euclides Ferreira Gomes Júnior era filiado à Arena, a Aliança Renovadora Nacional, o partido da ditadura militar. Governou Sobral de 1977 a 1982.

Movimento estudantil

Em 1979, Ciro Gomes integrou a chapa Maioria no XXXI Congresso da UNE. Foi candidato a vice-presidente na chapa considerada de direita, e que saiu derrotada. O PT estava sendo fundado. Quem dava as cartas na esquerda, e no movimento estudantil, era o PCdoB.

Santinho da campanha de Ciro Gomes a deputado estadual pelo PDS, em 1982(Foto: Reprodução)
Foto: Reprodução Santinho da campanha de Ciro Gomes a deputado estadual pelo PDS, em 1982

Ciro deputado

Ciro Gomes disputou a primeira eleição em 1982, pelo Partido Democrático Social (PDS), criado no fim da ditadura para substituir a Arena, ao final do bipartidarismo. Ficou na segunda suplência do partido, mas exerceu quase todo o mandato. O PT disputou a primeira eleição naquele ano, mas não elegeu ninguém no Ceará.

Líder de Tasso

Em 1986, Ciro se elegeu deputado estadual pelo PMDB. Naquele ano, Tasso Jereissati foi eleito governador, numa aliança que teve apoio de partidos de esquerda, como PCdoB e PCB, contra os coronéis — exceções foram PT e PSB. Foi uma surpresa quando Tasso escolheu o jovem Ciro para líder do governo na Assembleia Legislativa.

Prefeito de Fortaleza

Em ascensão meteórica, Ciro Gomes foi escolhido para concorrer à Prefeitura de Fortaleza e venceu uma das eleições mais acirradas da história. Derrotou a candidatura de centro-esquerda de Edson Silva, do PDT, apoiada por forças progressistas. O PT tinha candidato próprio: Mário Mamede. O partido estava saindo da prefeitura, a única capital que governava, com Maria Luiza Fontenele. Ela foi expulsa do partido no início daquele ano, por desavenças nas decisões internas. A gestão Maria Luiza era forte alvo das críticas de Ciro.

Eleição de 1989

A primeira eleição presidencial direta após o fim da ditadura foi conturbada para o grupo de Tasso e Ciro. Eles estavam no PMDB, mas não apoiaram o candidato do partido, Ulysses Guimarães. Tasso esteve perto de apoiar Fernando Collor de Mello, mas teria ficado insatisfeito com o vazamento da adesão. Aderiu, então, a Mário Covas, do PSDB. No começo de 1990, Tasso e Ciro migraram para o partido. O PT tinha Luiz Inácio Lula da Silva na disputa. Foi ao segundo turno contra Collor e perdeu.

Ciro Gomes desfila em carro aberto ao tomar posse como governador(Foto: Jorge Henrique, em 15 de março de 1991)
Foto: Jorge Henrique, em 15 de março de 1991 Ciro Gomes desfila em carro aberto ao tomar posse como governador

Governador

Ciro renunciou à Prefeitura em março para concorrer a governador. Foi eleito com facilidade. O PT lançou João Alfredo, que ficou em terceiro lugar. Os petistas fizeram dura oposição a Ciro, com conflitos de sindicatos em áreas como educação e saúde.

Aproximação

Nas eleições municipais de 1992, houve a primeira aproximação entre PT e PSDB, no governo Ciro. Os tucanos apoiaram Ilário Marques (PT) na Prefeitura de Quixadá.

Ciro Gomes, o filho Cirinho e Patrícia Saboya, no anúncio de que Ciro aceitou convite para ser ministro e renunciaria ao governo do Ceará(Foto: Evilázio Bezerra, em 4/9/1994)
Foto: Evilázio Bezerra, em 4/9/1994 Ciro Gomes, o filho Cirinho e Patrícia Saboya, no anúncio de que Ciro aceitou convite para ser ministro e renunciaria ao governo do Ceará

Ministro

Em 1994, Ciro renunciou ao Governo do Estado para assumir o Ministério da Fazenda. Era período de implantação do Plano Real e de eleição presidencial. Os petistas criticavam o plano, enquanto o ministro Ciro brigava com o empresariado, contrário à redução de barreiras às exportações.

Fator Cid

Em 1995, Cid Gomes, pelo PSDB, foi eleito presidente da Assembleia Legislativa por unanimidade. Com votos, portanto, inclusive do PT.

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Sobral

Em 1996, o PT apoiou a eleição de Cid, ainda no PSDB, como prefeito de Sobral.

Candidato a presidente

Brigado com o governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Ciro trocou o PSDB pelo PPS e concorreu a presidente da República em 1998. FHC venceu no primeiro turno e Ciro foi terceiro.

Capital

Patrícia Saboya, que havia sido casada com Ciro, foi candidata a prefeita de Fortaleza e largou na frente nas pesquisas. Teve engajamento direto de Ciro. O PT apoiou Inácio Arruda (PCdoB). Mas Juraci Magalhães (PMDB) foi reeleito.

Segunda tentativa

Ciro concorreu a presidente pela segunda vez. Chegou a subir muito nas pesquisas, mas não sustentou e terminou em quarto lugar. Naquele ano, o PT elegeu Lula presidente. Ciro o apoiou no segundo turno. Porém, no Ceará, fez campanha decidida por Lúcio Alcântara (PSDB) e contra José Airton Cirilo (PT). A uma semana do primeiro turno, O POVO publicou entrevista em que ele bateu duro no candidato petista, José Airton Cirilo. Ciro afirmou que, por não acreditar nas chances, o PT não escolheu seus melhores quadros para concorrer a governador, mas Cirilo foi empurrado pela "onda Lula" nacional. "Às vezes — e estou sendo sincero com vocês — se não fosse o povo, por quem eu tenho grande e definitiva gratidão e responsabilidade, minha vontade era de ver José Airton governador. Porque, em três meses, ele iria destruir o Estado do Ceará. E o povo do Ceará, de Fortaleza, iria ver quem era o Tasso", afirmou. Sobre a escolha de José Airton como candidato, Ciro disse: "O PT não respeitou o povo do Ceará." Lúcio venceu uma das eleições mais apertadas da história.

Ministro

Com Lula presidente, Ciro virou ministro da Integração Nacional. Isso iniciou uma reviravolta na política estadual. Os dois grupos estavam aliados nacionalmente. Mas, o PSDB era oposição a Lula e Ciro apoiava o PSDB no Ceará, a quem o PT fazia oposição.

Aproximação em Fortaleza

Na eleição municipal de 2004, o PT rachou e decidiu lançar Luizianne Lins para prefeita. Não era a vontade da direção nacional, que decidiu apoiar Inácio Arruda (PCdoB). Em acordo feito a partir de Brasília, o PPS, então partido dos Ferreira Gomes, apoiou Inácio. Mas, Luizianne foi eleita. No segundo turno, teve apoio de PCdoB e PPS.

Cid Gomes com dirigentes petistas, no dia em que o PT decidiu apoiá-lo ao Governo do Estado(Foto: Natinho Rodrigues, em 21/4/2006)
Foto: Natinho Rodrigues, em 21/4/2006 Cid Gomes com dirigentes petistas, no dia em que o PT decidiu apoiá-lo ao Governo do Estado

A aliança estadual

Em 2006, Cid Gomes foi candidato a governador pelo PSB. Costurou aliança com PMDB e PT, reproduzindo o arranjo nacional. Ciro dizia que ainda tentava conter insatisfações e manter a aliança com Lúcio Alcântara. Até que Tasso rompeu com Lúcio. O governador concorreu à reeleição, mas, com o partido rachado, perdeu no primeiro turno para a nova aliança.

Ciro Gomes e Tasso Jereissati se cumprimentam diante de Patrícia Saboya e dirigentes do PDT, na convenção que a lançou candidata a prefeita(Foto: Dário Gabriel, em 22/6/2008)
Foto: Dário Gabriel, em 22/6/2008 Ciro Gomes e Tasso Jereissati se cumprimentam diante de Patrícia Saboya e dirigentes do PDT, na convenção que a lançou candidata a prefeita

Família dividida

Em 2008, Cid Gomes apoiou a reeleição de Luizianne Lins. Ciro, porém, apoiou Patrícia Saboya, então no PDT. Foi uma campanha dura, na qual Ciro afirmou que Luizianne transformou Fortaleza em "puteiro a céu aberto". A disputa causou muita divisão na família. Luizianne foi reeleita no primeiro turno.

Estaleiro

Cid Gomes articulou a instalação de um estaleiro da Transpetro em Fortaleza, na Praia do Titanzinho. O empreendimento sofreu muitas críticas. Luizianne, prefeita da Capital, resistiu e o equipamento não foi instalado. Foi um dos problemas administrativos entre os dois. Outro foi com a Cagece, a quem Luizianne responsabilizava por buracos nas vias de Fortaleza. Ameaçou até cassar a concessão de água e esgoto.

Reeleição de Cid

Em 2010, a composição eleitoral foi complicada. Cid queria acordo com Tasso. Uma das vagas no Senado era prometida a Eunício Oliveira (PMDB) e a outra ficaria com o tucano. Mas, o PT bateu o pé pela indicação de José Pimentel. Cid relatou que estava costurando. Tasso cansou de esperar e rompeu com os Ferreira Gomes. Cid foi reeleito e Eunício e Pimentel foram vitoriosos para o Senado, derrotando Tasso de forma surpreendente.

Roberto Cláudio carregado nos ombros por Ferruccio Feitosa na festa após ser eleito prefeito de Fortaleza(Foto: Igor de Melo, em 28/10/2012)
Foto: Igor de Melo, em 28/10/2012 Roberto Cláudio carregado nos ombros por Ferruccio Feitosa na festa após ser eleito prefeito de Fortaleza

Briga em Fortaleza

Num dos maiores rachas da aliança PT-Ferreira Gomes até hoje, e ainda não cicatrizado, o grupo então no PSB não chegou a acordo com Luizianne para a sucessão. Ela lançou o ex-secretário Elmano de Freitas. Os Ferreira Gomes decidiram lançar Roberto Cláudio à Prefeitura de Fortaleza. RC venceu uma disputa acirradíssima.

Roberto Cláudio, Camilo Santana e Cid Gomes, na eleição de Camilo para governador, em 2014(Foto: Fabio Lima)
Foto: Fabio Lima Roberto Cláudio, Camilo Santana e Cid Gomes, na eleição de Camilo para governador, em 2014

PT no governo

Eunício rompeu com os Ferreira Gomes e se lançou ao governo. A família estava no Pros e tinha cinco pré-candidatos ao governo. Porém, com temor do acordo nacional do PT com o PMDB, Cid decidiu lançar um petista a governador: Camilo Santana. Desse modo, barrou a eventual entrada de Lula no palanque pró-Eunício. E Camilo foi eleito.

Reeleição de RC

Camilo até tentou acordo para apoiar RC, mas o PT lançou Luizianne à Prefeitura de Fortaleza. Porém, Roberto Cláudio foi reeleito.

Fator nacional

Camilo Santana foi reeleito com apoio dos Ferreira Gomes, mas o fator de tensão na aliança foi o atrito nacional entre Ciro Gomes (PDT), mais uma vez candidato a presidente, e o PT. Camilo se equilibrou e fez campanha tanto para o pedetista quanto para o petista Fernando Haddad.

Sarto

Mais uma vez, Camilo tentou e não conseguiu fazer o PT apoiar os Ferreira Gomes em Fortaleza. Luizianne foi candidata e perdeu. Os petistas aderiram no segundo turno a José Sarto (PDT) contra Capitão Wagner (Pros). Deu Sarto, numa disputa muito apertada.

Cenário atual

Camilo Santana renunciou, deixou no cargo a vice, Izolda Cela (PDT), e tenta convencer o PDT a apoiá-la à reeleição. Não vem tendo sucesso. As críticas de Ciro ao PT e a Lula se amplificaram e não poupam mais o Ceará. Os petistas não aceitam uma candidatura governista que não a de Izolda. Por isso, a aliança iniciada em 2006 pode rachar.

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