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Mainha: quem matou o matador?
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Reportagem Seriada

Mainha: quem matou o matador?

Inquérito que investiga a morte do pistoleiro Idelfonso Maia da Cunha segue em aberto após 15 anos sem que nenhum suspeito tenha sido acusado pelo crime
Episódio 5

Mainha: quem matou o matador?

Inquérito que investiga a morte do pistoleiro Idelfonso Maia da Cunha segue em aberto após 15 anos sem que nenhum suspeito tenha sido acusado pelo crime
Episódio 5
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Ele já chegou a ser apontado como o maior pistoleiro do Nordeste, embora rejeitasse a pecha, afirmando nunca ter matado por dinheiro. Idelfonso Maia da Cunha, o Mainha, ganhou fama nacional e internacional após autoridades policiais atribuírem a ele dezenas de homicídios, crimes que teriam ocorrido não só no Ceará, mas também em estados como Paraíba, Rio Grande do Norte e Pará.

Mainha, porém, costumava salientar que as acusações formais não chegaram nem perto dos números aventados e que ele até foi absolvido por alguns dos crimes pelos quais efetivamente sentou no banco dos réus.

Tanto é que, em 2011, Mainha, aos 55 anos, estava em liberdade. No dia 4 de janeiro daquele ano, ele foi atingido por nove disparos no bairro Outra Banda, localizado no município de Maranguape (Região Metropolitana de Fortaleza).

Cartaz da série documental Mainha: Com a Morte nos Olhos, original O POVO+ lançada em 2022(Foto: Reprodução O POVO )
Foto: Reprodução O POVO Cartaz da série documental Mainha: Com a Morte nos Olhos, original O POVO+ lançada em 2022

Da mesma forma que muitas das mortes atribuídas a Mainha permaneceram envoltas em mistérios, também o assassinato de Idelfonso não foi elucidado. Ninguém foi acusado oficialmente e o caso sequer chegou à Justiça.

A Polícia Civil do Ceará (PC-CE) informou que o inquérito foi concluído em novembro de 2013, mas o Ministério Público Estadual (MPCE) determinou o retorno da peça para que mais diligências fossem realizadas.

Em setembro passado, o promotor André Zech Sylvestre enviou novamente a investigação à Delegacia Metropolitana de Maranguape, estipulando um prazo de 60 dias para a conclusão do inquérito. Mais uma entre as inúmeras prorrogações já realizadas ao longo desses 15 anos.

 

Assista ao trailer da série documental Mainha: Com a Morte nos Olhos, disponível no O POVO+


No inquérito, ao qual O POVO teve acesso, diversos nomes surgiram como possíveis suspeitos do assassinato de Mainha, o que reforça a multiplicidade de inimigos que o pistoleiro inconfesso teria contraído ao longo de, pelo menos, duas décadas de atividade.

Quando de sua morte, Mainha — que, ao que tudo consta, estava “aposentado” do “mundo da pistola” — relatava estar sendo ameaçado. Ele chegou a denunciar à Polícia uma perseguição de carro, ocorrida dias antes de ser morto, em que teria escapado por pouco dos executores.

No quinto episódio da série Crimes insolúveis no Ceará, O POVO destrincha a investigação da morte de Mainha e conta quem poderia ter interesse na morte de um dos mais afamados personagens da crônica policial do Estado. Antes, porém, será traçada uma breve recapitulação da trajetória de Idelfonso.

 

Ouça o podcast que conta os bastidores da série original do O POVO+ "Mainha: Com a Morte nos Olhos". Os diretores Demitri Túlio, Luana Sampaio e Arthur Gadelha revelam todo o caminho percorrido para a conclusão do projeto

 

 

 

Como o mito foi formado?

Responder quem era Mainha é um desafio que esbarra em lacunas de informação e histórias desencontradas. Para as autoridades da segurança pública, ele foi um pistoleiro frio, integrante do braço armado de grupos políticos e latifundiários.

Retrato que, certamente, iria de encontro às convicções das centenas de pessoas que compareceram ao seu enterro em Jaguaribara (município do Vale do Jaguaribe). “Olha, menina, eu na minha região, não tenho intrigado”, disse Mainha, em 1999, a uma das entrevistadoras da revista Entrevista, produzida pelos estudantes do curso de Comunicação Social, da Universidade Federal do Ceará (UFC).

“Vocês podem caçar de Jaguaribe a Limoeiro (do Norte), tanto pela BR-116 como pela ribeira do rio Jaguaribe, que eu não tenho um intrigado, um intrigado, um!” Essa ausência de “intrigados”, aliás, ajuda a explicar como Mainha ficou tanto tempo em fuga.

Multidão acompanha enterro do pistoleiro Mainha, em Nova Jaguaribara (Foto: IGOR DE MELO / O POVO em 05/1/2010)
Foto: IGOR DE MELO / O POVO em 05/1/2010 Multidão acompanha enterro do pistoleiro Mainha, em Nova Jaguaribara

Quando não estava escondido “nos matos”, Mainha dizia que era “ajudado por pessoas que gostavam dele”, o que o levava até mesmo a fazendas do Norte do País. Outro esconderijo, diziam os rumores, eram as delegacias de Polícia dos municípios do Vale do Jaguaribe.

Na autoimagem surgida nas diversas entrevistas concedidas por Mainha — seja a jornalistas, pesquisadores ou mesmo a policiais — sobressai-se alguém que sabia não ser santo, mas que insistia que não era o monstro das inverdades que teriam sido produzidas sobre ele ao longo dos anos.

Um de seus desafetos nesse sentido era o ocupante do cargo de secretário da Segurança Pública no auge da caça a Mainha: Moroni Torgan. Para Mainha, Moroni teria se aproveitado eleitoralmente da construção da figura do pistoleiro voraz.

Moroni Torgan, então vice-governador secretário da Segurança do Ceará, no governo Tasso Jereissati, empreendeu uma perseguição para prender Mainha(Foto: TATIANA FORTES em 19/8/2016)
Foto: TATIANA FORTES em 19/8/2016 Moroni Torgan, então vice-governador secretário da Segurança do Ceará, no governo Tasso Jereissati, empreendeu uma perseguição para prender Mainha

“Ele diz que eu pratiquei 89 homicídios. Então, eu lhe pergunto: onde estão esses 89 homicídios? Só respondo a quatro processos e nunca chegou outra família para me acusar”, desabafou em entrevista ao jornalista Fernando Ribeiro, do O POVO, em 1991.

Quando Mainha foi preso pela primeira vez, em 1988, ele era o rosto público de uma campanha fomentada pelo Governo do Estado, então sob comando de Tasso Jereissati (PSDB), contra aquilo que era tratado como o principal problema da segurança pública do Ceará: a pistolagem.

 

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>> Para ler mais sobre segurança pública, acesse a coluna do jornalista Lucas Barbosa

A prisão de Mainha, aliás, alimentou uma grande esperança — no Governo, na Polícia na opinião pública, etc —, que ele confessaria seus crimes e, principalmente, delatasse os mandantes. Mainha, porém, não delatou nem comparsas, nem mandantes. Ele sempre negou ter matado por dinheiro. Gostava de dizer, inclusive, que se fosse mesmo matador de aluguel, estaria rico.

Idelfonso Maia Cunha (Foto: Everton Lemos, em 7/11/1991)
Foto: Everton Lemos, em 7/11/1991 Idelfonso Maia Cunha

Quem se debruçou sobre a vida de Mainha, porém, questionava como Mainha conseguia manter-se. À época de sua primeira prisão, Mainha tinha 150 cabeças de gado, uma caminhonete, duas motos, entre outros bens, conforme afirmou à Entrevista. Tudo proveniente, porém, ele dizia, de seu trabalho como vaqueiro, criando gado, além de vitórias em vaquejadas — uma de suas paixões, diga-se.

Se não era o dinheiro, quais eram então as causas das mortes praticadas por Mainha? Conforme ele próprio, vingança ou legítima defesa — seja da vida ou da honra, sua ou de terceiros. Foi o caso, por exemplo, daquele que ele dizia ter sido o primeiro assassinato no qual se envolveu, ainda em 1976, em São João do Jaguaribe.

Conforme afirmou à Entrevista, o episódio se deu enquanto Mainha bebia em um bar com amigos. Pistoleiros apareceram para matar um amigo dele e, no tiroteio que se instaurou, Mainha, em determinado momento, pegou a arma de um de seus amigos e disparou contra os agressores. Na produção de Entrevista, Mainha afirmou que dois dos três pistoleiros morreram, enquanto, na entrevista em si, ele contou que uma pessoa morreu e outras duas ficaram feridas.

A violência, porém, já havia marcado presença na vida de Mainha mesmo antes de seu nascimento, ocorrido em 28 de outubro de 1955 no município de Alto Santo. “Ele nem tinha nascido quando seu pai foi golpeado com facadas por causa de conflitos de terra”, descreveu matéria do O POVO de 2000.

“Aos seis meses de idade, em outro atentado, o pai (Cândido Maia Cunha) levou seis tiros enquanto dormia. O pai sobreviveu, mas as armas passaram a ser uma presença comum na vida dos dez filhos”. O homem que tentou matar o pai de Mainha viria a ser morto em Goiás, afirmou o próprio Idelfonso em entrevista a O POVO de 1991. “Mainha demonstrou não querer se aprofundar nesse assunto”, assinalou o jornalista Fernando Ribeiro.

Mainha ainda veria a sua irmã predileta, Maria Irene, ser morta a tiros aos 20 anos. Conforme afirmou à Entrevista, um “genro” da família foi o autor do crime. “Cachaça mesmo, embriaguez, numa festa nas propriedades do esposo dela”, afirmou sobre a motivação da morte. “Lá, ela chamou ele de irresponsável, porque estava só fazendo bagunça. Aí, ele foi, deu um tiro nela e matou”.

Pistoleiro Mainha viveu entre crimes, acusações, perseguições, prisões, condenações e liberdade(Foto: oão Carlos Moura, em 6/3/1992)
Foto: oão Carlos Moura, em 6/3/1992 Pistoleiro Mainha viveu entre crimes, acusações, perseguições, prisões, condenações e liberdade

Mainha ainda afirmou à Entrevista que, em 1976, matou um homem chamado Valdenísio, que teria beijado à força uma prima dele. “Ele ficou dizendo que a nossa família não valia nada, sabe?”, acrescentou Mainha. “E ele pra vir com ódio da família pegou uma prima minha à força”, disse Mainha em outra ocasião, uma entrevista à historiadora Reginalda de Sousa, autora da monografia Jaguaribara na mira da pistolagem: 1970-1988.

“Beijou na boca dela à força no meio de todo mundo. E minha prima saiu chorando e ele bateu nas nádegas dela e eu fui e matei por causa disso”, complementou. “Mas você acha que isso é motivo pra matar uma pessoa?”, quis saber a pesquisadora. “Eu acho que é”, respondeu Mainha.

Sociólogo César Barreira(Foto: DORA MOREIRA)
Foto: DORA MOREIRA Sociólogo César Barreira

Ao sociólogo César Barreira, fundador do Laboratório de Estudos da Violência (LEV), da Universidade Federal do Ceará (UFC), Mainha afirmou que a ineficácia da Justiça alimenta a criminalidade. No livro Crimes por encomenda: violência e pistolagem no cenário brasileiro, lançado em 1998, Mainha — sob o pseudônimo “Miranda” — listou vários casos de parentes e amigos seus que foram mortos e cujos autores nunca foram responsabilizados.

“Se existisse a pena de morte, os que mataram meu pai e minha irmã teriam morrido e eu não estaria aqui e hoje seria um doutor”, afirmou. Em outros trecho da entrevista, Mainha também reforçou que não aceitava ter sua honra maculada.

“Se me chamarem de ladrão, eu mato, pois não sou ladrão. O promotor de justiça disse que isso não é motivo. E eu retruquei dizendo que é motivo demais e falei se ele era ladrão eu não era”.

Delegado Luiz Carlos Dantas(Foto: JULIO CAESAR)
Foto: JULIO CAESAR Delegado Luiz Carlos Dantas

Um dos crimes cuja autoria foi confessada por Mainha teria ocorrido, justamente, porque ele foi chamado de ladrão. Em 1982, ele matou Orismildo Rodrigues da Silva, o “Caboclo Bárbaro”, em Quixadá, no Sertão Central do Estado. “Matei porque ele me chamou de ladrão. E não sou ladrão”, afirmou ao O POVO em 1991.

Entretanto, existia nas investigações policiais uma outra versão indicando que Orismildo foi morto a mando de Francisco Telsângenses Diógenes, o Chiquinho Diógenes, patrão de Mainha.

Ao documentário do O POVO Mainha: Com a Morte nos Olhos, o delegado Luiz Carlos Dantas, um dos responsáveis pela prisão de Mainha, afirmou que ele só confessou os homicídios nos quais a Polícia já tinha provas contra eles. “Ele não confessou outros crimes que ele achava que nós não tínhamos como provar”.

 

 

Rosário de mortes

Foi em 1977 que ocorreu o crime que começou a dar a Mainha a fama de pistoleiro. O então prefeito de Iracema, município do Vale do Jaguaribe, Expedito Leite, foi morto com um único tiro no Centro de Fortaleza.

O crime teria sido uma retaliação pela morte de Astreu Diógenes, ocorrida três dias antes do homicídio que vitimou Expedito. Astreu era primo de Mainha, homem responsável por pagar por seus estudos. Expedito ainda era adversário político do primo em segundo grau da mãe de Mainha, Francisco Nogueira Diógenes, o “Doutor” Diógenes.

Quando preso em 1988, Mainha confessou ter matado Expedito, confirmando, inclusive, que foi mesmo vingança a motivação do assassinato. Mainha, porém, nunca foi condenado por esse crime, já que a ação penal instaurada prescreveu. Em seu livro, César Barreira afirmou que o processo referente ao caso “sumiu do Cartório do Júri”.



Após a morte de Expedito, Mainha ver-se-ia em uma espiral de assassinatos e vinganças. Em 1980, o fazendeiro Raul Nunes de Brito foi morto a tiros no bairro Parangaba, em Fortaleza. Mainha chegou a ser apontado como um dos suspeitos do crime, mas ele negava envolvimento na execução e também nunca foi acusado formalmente.

Matéria do O POVO de maio de 1985 narrou que Raul havia sido procurado pela família de um engenheiro paraibano que havia sido morto por Chiquinho Diógenes. Para vingar o crime, Raul teria procurado Mainha, mas este não quis matar o seu patrão e protetor. Pelo contrário, ele teria matado Raul a mando de Chiquinho.

Os filhos de Raul prometeram vingança e, em 1983, Chiquinho foi assassinado a tiros em plena avenida Pontes Vieira, em Fortaleza. A morte devastou Mainha. Em 1999, à revista Entrevista, Mainha afirmou que a última vez que havia chorado foi quando Chiquinho morreu.

 

Fragmentos da história de Mainha pelas páginas do OPOVO (I)

 

“Ele era meu primo e bem dizer meu pai”, depôs Mainha em 1988 ao O POVO. “Há anos que eu morava com ele, era gerente de 14 fazendas dele. Éramos muito amigos. Senti muito a morte dele. Quebrou minhas pernas. Depois disso, deixei até de andar no que era dele. Não me sinto bem andando por aquelas terras, começo a lembrar dele”. 

Ganhou notoriedade um pacto que Mainha teria feito com Chiquinho Diógenes, em que cada um prometia matar quem matasse o amigo. A promessa foi cumprida por Mainha: o assassinato de Iran Nunes de Brito, filho de Raul Nunes de Brito, foi um dos poucos confessados por Idelfonso.

Teria sido Iran um dos responsáveis pela morte de Chiquinho. No mesmo ano de 1983, Mainha surpreendeu-o no cruzamento das avenidas Desembargador Moreira e Santos Dumont e atirou várias vezes contra o rival. Mainha, porém, sustentou ter agido sozinho.


O irmão de Chiquinho Diógenes, Mardônio Diógenes, então prefeito de Pereiro, chegou a ser denunciado como mandante da execução, assim como outros três homens que teriam auxiliado Mainha. Nenhum deles foi condenado após Mainha dizer que não recebeu ordem de ninguém para praticar o crime e que, ainda, havia se deparado com Iran por acaso. 

No ano de 1983 ainda ocorreria um outro crime de grande repercussão que Mainha foi acusado: a Chacina de Alto Santo. Na ocasião, foi assassinado João Terceiro de Sousa, ex-prefeito de Pereiro e inimigo político dos Diógenes. Também foram vitimados: a mulher dele, Raimunda Nilda Campos; o motorista do casal, Francisco de Assis Aquino; e o policial militar João Leonor de Araújo.

Túmulo de João Terceiro de Sousa, ex-prefeito de Pereiro, e da mulher dele, Raimunda Nilda Campos, vítima da chacina de Alto Santo, que deixou mortos o motorista do casal, Francisco de Assis Aquino; e o policial militar João Leonor de Araújo(Foto: Demitri Túlio)
Foto: Demitri Túlio Túmulo de João Terceiro de Sousa, ex-prefeito de Pereiro, e da mulher dele, Raimunda Nilda Campos, vítima da chacina de Alto Santo, que deixou mortos o motorista do casal, Francisco de Assis Aquino; e o policial militar João Leonor de Araújo

Mainha chegou a confessar à Polícia Civil ter sido o autor da chacina (de novo, dizendo que havia agido só), mas, em juízo, negou. Ele foi condenado a 64 anos de prisão no primeiro júri popular do caso, realizado em 1997, mas teve direito a uma segunda sessão e foi absolvido em 1999.

Por ocasião dessa absolvição, uma festa foi promovida por Mainha no antigo Instituto Penal Professor Olavo Oliveira (IPPOO). Com direito, inclusive, de receber convidados para um almoço, que foi embalado a forró.

Fontes que não quiseram se identificar afirmaram à época ao O POVO que cerca de 50 pessoas, incluindo “empresários, autoridades e pessoas que atuam na área jurídica”, participaram da festa. A lista de visitas a que Mainha teve direito naquele ano foi solicitada pelo O POVO à direção do presídio e à antiga Secretaria de Justiça (Sejus), mas negada.

 

 

Anos 1990: condenações, absolvições e atentados

Mainha foi preso em 1988 em Quiterianópolis, no Sertão dos Inhamuns. À época, ele disse estar trabalhando na Secretaria de Ação Social do município, onde usava o nome falso de Paulo Pereira de Morais. Foi preso em um restaurante, surpreendido pelos disfarçados delegados Francisco Crisóstomo e Luís Carlos Dantas.

Em agosto de 1988, o então secretário Moroni Torgan exonerou os delegados de Jaguaribara, Jaguaretama e Pereiro. A suspeita era de que eles tinham conhecimento da presença de Mainha naquela região do Vale do Jaguaribe e nada fizeram para prendê-lo.

Ao ser preso após 11 anos de busca, Mainha confessou ainda ter matado dois homens em Alto Santo, no ano de 1982. Nesse caso, porém, ele alegava legítima defesa: Altamiro Vieira Leite e Altevir Fernandes de Sousa seriam dois pistoleiros que teriam como missão matá-lo.

 

Fragmentos da história de Mainha pelas páginas do OPOVO (II)

 

A Justiça acolheu o argumento e Mainha foi novamente absolvido. Mainha também obteve absolvições em 1996 na Justiça do Rio Grande do Norte, onde era acusado de dois duplos homicídios ocorridos no município de São Miguel.

Nos anos 1990, Mainha não foi só notícia pelos resultados de seus julgamentos. Ainda na condição de preso preventivo, ele denunciou ter sido ameaçado de morte por um policial militar, um soldado que seria filho adotivo de Raul Nunes.

Mainha ainda seria alvo de ataques por parte de seus colegas de prisão. Em 1992, um grupo de presos munidos de facas e barras de ferro tentou invadir a cela onde ele estava recolhido no no antigo Instituto Penal Paulo Sarasate (IPPS). Na ocasião, o primo dele, Alcides Oliveira Maia, também foi alvo das investidas. Policiais militares conseguiram conter os detentos e Mainha não saiu ferido.

Em 1993, porém Mainha foi lesionado com uma tesourada no pescoço por Elcir Fernandes, um outro preso do IPPS. Socorrido ao Instituto Dr. José Frota (IJF), Mainha foi medicado e recuperou-se. Em 1996, o mesmo Elcir Fernandes voltou a ferir Mainha com uma tesoura.

Enquanto na primeira vez que fora alvo de um atentado Mainha tenha afirmado que o crime era motivado pela “inveja” que os presos tinham devido ao seu “bom comportamento”, em 1996, ele afirmou que “alguém de fora” estava oferecendo dinheiro a Elcir para matá-lo.

Não haveria uma rivalidade entre os dois, que sequer teriam tido uma discussão anterior. Se, realmente, havia alguém interessado em financiar a morte de Mainha, o nome desse suposto mandante nunca veio a público.

Sequestro do dom Aloísio Lorscheider, durante visita ao IPPS, em 1994(Foto: João Carlos Moura, em 15/3/1994)
Foto: João Carlos Moura, em 15/3/1994 Sequestro do dom Aloísio Lorscheider, durante visita ao IPPS, em 1994

Mainha também foi personagem coadjuvante na rebelião ocorrida em 1994 no IPPS. Na ocasião, ele abrigou na própria cela jornalistas e outras pessoas que fugiam do motim que culminou com o sequestro do arcebispo de Fortaleza, dom Aloísio Lorscheider.

Já em 2000, Mainha teve direito ao regime semi-aberto pela primeira vez. Após arranjar um emprego em uma fazenda de Maranguape, ele ficou precisando apenas apresentar-se diariamente à Coordenadoria do Sistema Penal. Em 2002, porém, Mainha voltou para trás das grades.

A prisão ocorreu em Caridade, município do Sertão de Canindé, após um tiroteio em que se estimou que mais de 200 disparos foram efetuados. O objetivo era cumprir uma ordem judicial expedida na ação penal em que Mainha era acusado de praticar um duplo homicídio no Rio Grande do Norte em 1978.

No Diário Oficial do Estado, o general Cândido Vargas, então secretário da Segurança Pública, elogiou o delegado e os inspetores envolvidos na ação “CONSIDERANDO a repercussão a nível Estadual e Regional, demonstrando a Coragem e a Capacidade Operacional da Polícia Cearense por ocasião da prisão do pistoleiro IDELFONSO MAIA DA CUNHA agnominado ‘Mainha’, mostrando que o Estado está acima dos mitos, e que enquanto houver homens destinados à impunidade não vencerá o Estado de Direito”.

 

 

A morte do pistoleiro

Nas idas e vindas de absolvições, recursos em instâncias superiores, progressões de regime e etc, Mainha chegou a 2011 como um homem livre. Estabelecido em Maranguape, Mainha ocupava seus dias cuidando do gado e de um terreno do qual era o dono. Nunca veio a público que ele havia voltado ao mundo da pistolagem.

Na tarde daquele dia 4 de janeiro de 2011, por volta das 13h30min, Mainha, montado em um burro, deslocava-se de seu terreno até um cercado onde estava o seu gado. Interromperam o trajeto, pelo menos, dois criminosos.

Uma mulher que disse ter testemunhado o homicídio relatou à Polícia que os assassinos estavam em um carro azul escuro. Os dois homens que saíram desse veículo usavam roupas pretas e mantinham a “cara limpa”, sem máscaras ou qualquer adereço que escondesse o rosto.

Eles teriam se aproximado de Mainha já com a arma de em punho e efetuado os disparos sem nenhum prenúncio. “Pelo amor de Deus, não me mate”, disse Mainha, colocando o braço sobre a testa, conforme a testemunha.



Depois de atingi-lo com nove tiros, os criminosos ainda chutaram o corpo de Mainha para constatar a morte. Em seguida, fugiram no mesmo carro no qual haviam chegado. Chegaram a quase bater em um motoqueiro e nunca mais foram vistos.

Como já mostrado, Mainha havia denunciado, inclusive em boletins de ocorrência (B.Os), que estava sendo ameaçado por pessoas que ele não identificou. Desde que Mainha havia saído da cadeia, cerca de dois anos antes de sua morte, ele não teve mais paz, afirmou uma testemunha ouvida no inquérito que investiga o assassinato.

De acordo com o que Mainha relatou em um B.O, em 21 de dezembro de 2010, um vizinho dele havia sido abordado, em frente à própria casa, por dois homens em um carro. Ouvida posteriormente no inquérito, esse vizinho afirmou que os estranhos perguntaram “onde morava o pistoleiro”. A testemunha disse não ter respondido e adveio o complemento por parte da dupla: “É o Mainha”. Também não houve resposta e os homens foram embora.

Em 28 de dezembro, Mainha dirigia o próprio carro quando passou a ser seguido por homens em um Volkswagen Polo Sedan. Mainha conseguiu despistar os prováveis desafetos, tendo, para isso, chegado a trafegar a 160 km/h, conforme descreveu em B.O. Findada a perseguição, quando Mainha finalmente chegou em casa, ele observou o momento em que o Sedan passou vagarosamente diante de sua residência.

Notícia da morte de Mainha nas páginas do jornal O POVO(Foto: Reprodução O POVO)
Foto: Reprodução O POVO Notícia da morte de Mainha nas páginas do jornal O POVO

Também houve ameaças por meio de telefonemas. “Recados” eram deixados, como em uma ocasião em que, conforme um parente de Mainha, um homem não identificado disse que “o irmão de Mainha já morreu, e o próximo seria ele (Mainha)”.

A morte citada era a de Samuel Maia da Cunha, ocorrida em 2004 em Alto Santo. Uma testemunha que prestou depoimento no inquérito da morte de Mainha afirmou que ele havia chegado a comentar que os responsáveis pela morte de Samuel eram de Tabuleiro do Norte — quem seriam especificamente, porém, ele não disse.

Mainha conversando com advogado durante julgamento(Foto: Cláudio Lima, em 6/5/1993 )
Foto: Cláudio Lima, em 6/5/1993 Mainha conversando com advogado durante julgamento

À época desse crime, relatou a testemunha, Mainha também estava sendo ameaçado. O alvo dos matadores, aliás, não seria Samuel, mas sim o próprio Mainha. Samuel só teria sido a vítima porque o irmão não teria sido encontrado. Mainha foi preso por porte ilegal de arma de fogo logo após a morte do irmão, o que pode ter “adiado” a vingança, disse a testemunha. O inquérito que investigava a morte de Samuel foi arquivado em 2010 sem suspeitos indiciados.

Outros candidatos a suspeito pela morte de Mainha também foram citados, porém. Nove dias após o assassinato de Mainha, um PM reformado foi preso em Senador Pompeu (Sertão Central do Estado) portando várias armas de fogo. Entre elas estava uma pistola .40, o mesmo calibre da arma utilizada para matar Mainha. O exame balístico, porém, não comprovou que os projéteis encontrados na cena do crime haviam partido da pistola apreendida.

Página do jornal O POVO conta sobre o enterro de Mainha em Jaguaribara(Foto: Reprodução O POVO)
Foto: Reprodução O POVO Página do jornal O POVO conta sobre o enterro de Mainha em Jaguaribara

O PM reformado teria matado dois amigos de Mainha, mas uma testemunha ouvida disse que Idelfonso não havia “jurado” o sargento de morte. Entretanto, essa testemunha disse que familiares das vítimas poderiam ter vindo a usar o nome de Mainha em uma promessa de vingança.

Um homem que seria ligado a esse PM também apareceu como investigado. Manoel Carneiro Neto, o “Manoel Preto”, foi assassinado em 16 de dezembro de 2013 no Parque de Vaquejada de Tabuleiro do Norte.

Assim como a suposta participação dele na morte de Mainha não foi confirmada, a Polícia não conseguiu chegar à autoria do crime que vitimou Manoel. No inquérito que investigou a morte de Manoel, chegou a ser mencionado que ele era suspeito de ter matado Mainha, mas que não havia nenhuma prova que reforçasse a tese.

Túmulo de Mainha em Jaguaribara,  na região do Vale do Jaguaribe, a cerca de 220 km de Fortaleza(Foto: Demitri Túlio)
Foto: Demitri Túlio Túmulo de Mainha em Jaguaribara, na região do Vale do Jaguaribe, a cerca de 220 km de Fortaleza

Outro que chegou a constar como suspeito de ter matado Mainha foi José Delano Diógenes, mas também sem provas evidentes. José Delano foi morto em confronto com a Polícia Militar do Rio Grande do Norte em 2017.

Ainda foi descartada pelo delegado que presidiu o caso uma versão que sustentava que o assassinato ocorreu após inimigos de Mainha se juntarem e fazerem um “rateio” para levantar o dinheiro necessário para a execução.

Um funcionário público de Maranguape, que também atuaria como traficante de drogas, também surgiu entre os depoimentos colhidos pela Polícia Civil. Ele teria criado uma rixa com Mainha após os dois discutirem durante uma festa. Para o assassinato, teria sido recrutado um homem que tinha uma dívida de drogas com esse traficante.

 

 

Investigação parou na falta de efetivo da Polícia Civil

Não houve como, porém, robustecer todos esses relatos. O principal fio puxado pelos investigadores nas primeiras diligências do inquérito acabou também não resultando em suspeitos. Dois dias após o assassinato de Mainha, o carro utilizado pelos autores do assassinato foi encontrado carbonizado em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza.

O automóvel havia sido comprado por uma pessoa que utilizou documentação de um homem assassinado em outubro de 2010. O veículo sequer havia saído do nome da antiga proprietária.

Entre os motivos pelos quais o inquérito não obteve sucesso está a carência de pessoal. O inquérito, inicialmente instaurado pela então Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), foi encaminhado para a Delegacia Metropolitana de Maranguape, mas, em setembro de 2011, o titular da unidade à época, o delegado Harley Filho, afirmava não ter condições materiais de tocar a investigação.

 

Fragmentos da história de Mainha pelas páginas do OPOVO (III)

 

Eram apenas três inspetores na Delegacia, descrevia Harley Filho. O inquérito retornou à DHPP, mas voltou a esbarrar na falta de investigadores. Em outubro de 2012, o delegado Márcio Gutiérrez também pediu para que o caso fosse encaminhado a uma outra unidade.

“Em sua exposição de motivos, o Delegado de Maranguape frisou bem que se tratava de ‘[...]crime de grande repercussão nesse Estado, bem como nacionalmente, de difícil elucidação dada a alta complexidade da investigação, pois, tratava-se de pessoa marcada para morrer por seus diversos crimes de pistolagem[...]’. Ao final, concluiu que não dispunha de pessoal para dar andamento nas investigações”, escreveu Gutiérrez em ofício dirigido à administração da Polícia Civil do Ceará.

Mainha de barba e boné, durante entrevista (Foto: Alcebíades Silva, em 6/8/1992)
Foto: Alcebíades Silva, em 6/8/1992 Mainha de barba e boné, durante entrevista

“Ora, senhor Diretor, o procedimento em apreço está sob minha presidência desde então e ainda não pude dar seguimento às investigações, principalmente por falta de pessoal, como dito, apenas três policiais compõe a equipe desta Delegacia, mas também por ser responsável por exatas 424 (QUATROCENTOS E VINTE E QUATRO) complexas investigações em andamento que demandam todos nossos esforços que precisamos direcionar nossos trabalhos para diminuir os indices de homicidio que assolam nossa Capital”.

Entretanto, também na unidade para onde o inquérito foi enviado — a 8ª Delegacia do, agora, Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa — foi registrada falta de braços. Assim escreveu, em maio de 2018, a delegada Cláudia Guia:

“O cartório desta 8º Delegacia da DHPP apresenta um excessivo número de procedimentos policiais, porém, o quadro de policiais atual é irrisório e flagrantemente desproporcional com a demanda crescente, tendo em vista que atualmente encontra-se lotados apenas 3 (três) inspetores, sendo que um dos inspetores, desde a data de janeiro de 2018, está integrando a equipe para investigar a chacina do Bairro das Cajazeiras”.

Dessa forma, o caso voltou à Delegacia Metropolitana de Maranguape, onde está até hoje, sem grandes sinais de que fugirá do destino de ser arquivado. O portal e-SAJ, do Tribunal de Justiça do Estado (TJCE), indica que a última movimentação processual registrada ocorreu em 29 de setembro de 2025.

O POVO pediu para que a SSPDS comentasse esse déficit, mas a pasta não mencionou na nota enviada. Confira:

A Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) informa que o inquérito que investigava um crime de homicídio, registrado em janeiro de 2011, em Maranguape, na Área Integrada de Segurança 24 (AIS 24) do Ceará, foi concluído e remetido à Justiça em novembro de 2013. Na época, a vítima, que tinha 56 anos, foi morta por disparos de arma de fogo.

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