
Quando o assunto é educação emocional, o psicólogo, educador e palestrante Rossandro Klinjey surge como um dos nomes de destaque no Brasil. O paraibano, filho de Campina Grande — como gosta de se intitular —, ganhou popularidade nas redes sociais ao tratar de temas ligados ao desenvolvimento humano.
Por meio das plataformas, ele elabora assuntos sensíveis e alimenta reflexões acerca de questões que perpetuam esferas individuais e coletivas. É como um "olho no olho", onde cada pessoa é convidada a olhar para dentro de si e para o outro, lidando com emoções muitas vezes negligenciadas, como o luto, a frustração e o perdão. Também são trazidas à tona questões sobre saúde mental e relacionamentos.
O interesse de Rossandro pela abordagem mais humanista foi despertado quando começou a perceber que "muitas pessoas carregavam sofrimentos por falta de amparo interno", arrastando as próprias dores em meio a cobranças e incertezas e sendo "levadas à exaustão" diante da complexidade da vida.
Desde então, além do trabalho nas redes o psicólogo tem rodado o Brasil realizando palestras sobre desenvolvimento pessoal, se tornando hoje um dos maiores palestrantes do tema no País. Também executa cursos on-line e já escreveu diversos livros ligados ao assunto, entre eles alguns best-sellers.
Em meio as suas obras estão: "Help! Me eduque", "Autoperdão, o aprendizado necessário", "Eu escolho ser feliz", "As 5 Faces do Perdão: Uma viagem rumo ao sentimento mais complexo e libertador da alma humana", "O tempo do autoencontro: Como fortalecer-se em tempos difíceis e vencer os desertos da vida" e "As quatro estações da alma", que escreveu junto ao filósofo brasileiro Mario Sergio Cortella.
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No dia 22 de janeiro, Rossandro realiza no Theatro Via Sul, em Fortaleza, a palestra "As 5 Faces do Perdão", que leva o nome de uma de suas produções. Fazendo uso de exemplos reais, o psicólogo conduzirá o público em uma jornada de cura, fomentando a reflexão sobre os tipos de perdão e como "o ato de desculpar o outro pode transformar vidas e relações, sendo um passo importante na jornada pessoal.
Em entrevista ao O POVO, Klinjey repercute o tema, explica o que é educação emocional, como ela pode ser alcançada, e reflete a importância de cuidar tanto da mente como das relações que mantemos com os outros. O educador traz ainda um olhar realista para o ano que se inicia, coloca na balança as demandas e os desafios que podem chegar junto a ele e joga luz sobre caminhos a serem tomados.

O POVO - Sobre o início de ano, esse período costuma carregar um sentimento de recomeço, de virada de chave. Como podemos fazer desse tempo uma oportunidade realmente transformadora?
Rossandro Klinjey - Todo começo de ano dá uma sensação de “página em branco”, mas transformação não nasce do calendário, nasce de decisões pequenas, repetidas, sustentadas. Em vez de prometer uma “nova versão” de si mesmo, eu prefiro perguntar: o que precisa ser encerrado com honestidade, e o que precisa ser começado com cuidado? Recomeço real é menos euforia e mais compromisso com processo.
OP - É possível construir esse "eu novo"? Como podemos despertar uma nova versão de nós mesmos?
Rossandro - É possível, mas não como uma troca de pele instantânea. O “eu novo” nasce quando o sujeito muda o lugar de onde vive: sai do modo sobrevivência e entra no modo autoria.
Carl Jung [psiquiatra e psicoterapeuta suíço] dizia algo como: a pessoa não se cura por eliminar a sombra, mas por tomar consciência dela. Em outras palavras: não é virar alguém “sem defeitos”, é deixar de ser dirigido pelos próprios pontos cegos.
O novo começa quando eu paro de me confundir com meus impulsos e passo a me comprometer com meus valores. E aqui entra um ponto muito importante: o “eu novo” não é uma versão mais impecável; é uma versão mais verdadeira.
Ele se constrói com pequenas decisões repetidas: escolher limites, refazer rotas, abandonar autoengano, sustentar uma vida compatível com a própria dignidade. A nova versão não aparece quando a gente se cobra mais. Ela aparece quando a gente se respeita mais.
OP - Nesse caso, estabelecer metas é importante para esse momento de transição?
Rossandro - Metas ajudam, desde que não virem um instrumento de punição. Meta boa organiza o caminho, meta ruim vira cobrança para provar valor. Eu gosto de trabalhar com metas que sejam hábitos viáveis, com prazo, e com uma pergunta por trás: isso me aproxima de quem eu quero ser ou só me afasta da culpa?
OP - Sobre a cobrança em relação às metas, algumas pessoas podem estar entrando neste ano com um sentimento de falha por não ter conseguido alcançar o que queria em 2025. O quanto isso pode ser prejudicial e como lidar com essa sensação?
Rossandro - É prejudicial quando a meta vira tribunal e o resultado vira valor pessoal. A pessoa deixa de dizer “não consegui” e passa a dizer “eu não presto”. É aí que mora o estrago: quando o desempenho ocupa o lugar da dignidade.
Para lidar com isso, é preciso resgatar uma diferença simples e decisiva: metas avaliam um percurso; elas não definem uma identidade. Existe um jeito saudável de se cobrar, que se chama responsabilidade. E existe um jeito doentio, que se chama autodesprezo. Responsabilidade organiza. Autodesprezo paralisa.
Muita gente não está frustrada por não ter batido metas; está triste por ter tentado sustentar uma vida que não era compatível com sua humanidade. Às vezes a meta mais urgente é aprender a se tratar com respeito.
OP - Esse sentimento de cobrança passa muito também pela busca pelo sucesso. O que seria ser uma pessoa de sucesso? Como define isso?
Rossandro - Para mim, sucesso é coerência com a própria essência, não apenas conquista externa. É quando aquilo que a pessoa realiza não custa o que ela tem de mais precioso: saúde, presença, vínculos, paz. Há gente que coleciona vitórias e perde o próprio centro. Há gente que ganha o mundo e vai se tornando estranha para si. Isso não é sucesso, é extravio.
Ser bem-sucedido é conseguir crescer sem endurecer, prosperar sem se desumanizar e produzir sem se abandonar. É transformar ambição em construção, e não em fuga.
OP - Sucesso e felicidade andam juntos? O que significa para o senhor ser feliz?
Rossandro - Eles podem andar juntos, mas não são iguais. Sucesso pode ampliar possibilidades, felicidade é a maneira como a pessoa habita a própria existência.
Ser feliz, para mim, é ter um tipo de paz que não depende de estar tudo perfeito. É conseguir respirar dentro da própria vida. É ter vínculos verdadeiros, sentir que há sentido no que faço e não precisar viver me provando o tempo inteiro.
Felicidade não é ausência de dor, é presença de chão. É quando a vida, mesmo com perdas, não perde o gosto de ser vivida.
OP - E nesse processo de alcançar metas, objetivos, como fazer para vencer a procrastinação?
Rossandro - Primeiro, entendendo que procrastinação muitas vezes é medo disfarçado. Medo de falhar, medo de não ser bom o suficiente, medo de ser visto, medo de dar certo e não sustentar. A pessoa adia não porque não quer, mas porque algo dentro dela se protege.
Segundo, diminuindo o tamanho da tarefa até ela caber no presente. Quem espera disposição para começar costuma ficar prisioneiro da espera. A virada acontece quando a gente cria um começo pequeno, repetível e concreto.
Terceiro, tratando o “eu futuro” como parceiro, não como salvador. Procrastinar é terceirizar a coragem. Vencer a procrastinação é aprender a fazer mesmo sem glamour, mesmo sem ânimo, com constância simples.
OP - Muita gente tá iniciando 2026 já enfrentando algum tipo de mudança brusca, seja a saída de um emprego, o fim de relacionamento ou até mesmo um luto. Como lidar com as perdas e com o sentimento de frustração?
Rossandro - Quando a vida quebra de repente, a mente tenta “resolver” rápido o que o coração ainda está vivendo. Perda e frustração pedem luto, e luto pede tempo, acolhimento e sentido. O primeiro passo é validar: doeu porque importava. Depois, reorganizar o básico: rotina, rede de apoio e um plano mínimo de cuidado. E, quando for possível, transformar a pergunta “por que comigo?” em “como eu vou atravessar isso sem me abandonar?”.
OP - De que forma essas experiências dolorosas podem servir de aprendizado?
Rossandro - Dor não vira aprendizado automaticamente. Ela pode virar amargura ou sabedoria. O aprendizado começa quando eu paro de lutar contra o fato e começo a escutar o que aquilo revela sobre meus limites, escolhas, carências e prioridades. A dor, quando bem elaborada, não define quem eu sou, ela amadurece o modo como eu vivo.
OP - Em seus trabalhos, o senhor traz muitos elementos sobre educação sentimental. Essa busca pelo cuidado emocional começa por onde? O que significa "educar sentimentalmente"?
Rossandro - Começa por reconhecer que emoção não é inimiga, é linguagem. Antes de tentar “melhorar” a vida a pessoa precisa aprender a escutar o que a vida está dizendo por dentro. Educar-se sentimentalmente é treinar três competências que quase ninguém aprende na escola: perceber, nomear e elaborar.
Perceber é notar o que se passa no corpo e na mente quando algo acontece. Nomear é dar um contorno para o que está confuso. Elaborar é entender o que aquela emoção está pedindo de forma madura: limite, reparo, luto, coragem, mudança de rota.
No fundo, é sair da ignorância afetiva, que nos faz viver no modo “reação”, e entrar numa alfabetização emocional que nos dá escolha. Não se trata de “controlar” sentimentos, mas de impedir que eles nos controlem por falta de compreensão.
OP - E em que momento lhe veio a percepção de que essa abordagem é importante e de que gostaria de trilhar esse caminho profissionalmente?
Rossandro - Quando comecei a perceber que muitos sofrimentos não eram falta de capacidade, mas falta de amparo interno. Eu via pessoas brilhantes presas numa espécie de pobreza emocional: incapazes de se acolher, incapazes de suportar frustração, dependentes de aprovação, exaustas de tentar merecer existir.
Aí ficou claro que conhecimento sem maturidade afetiva pode virar um instrumento de autoengano sofisticado. A pessoa sabe explicar tudo, mas não sabe viver aquilo que explica.
E, quando alguém não aprende a cuidar do mundo interno, ela tenta compensar fora: com desempenho, com controle, com relações que anestesiam, com metas que funcionam como distração. A educação sentimental, para mim, virou um caminho porque ela devolve eixo, devolve chão e devolve sentido.

OP - Quais as principais barreiras que podem aparecer nesse processo de educar os sentimentos?
Rossandro - A primeira é a pressa: querer resolver o que sente sem atravessar o que sente. A segunda é a vergonha, porque muita gente aprendeu que sentir é fraqueza e que fragilidade é defeito. A terceira é o perfeccionismo, que torna qualquer processo humano uma prova impossível.
E existe uma barreira mais profunda: a fidelidade inconsciente aos velhos modos de sobreviver. Às vezes a pessoa diz que quer mudar, mas o “eu antigo” ainda parece mais seguro, porque já é conhecido, mesmo sendo doloroso. Educar sentimentos significa encarar a perda do conhecido. E toda mudança real tem um preço: deixar de ser quem eu era para poder ser quem eu posso ser.
OP - Os sentimentos também podem, de certa forma, aprisionar? De quais maneiras?
Rossandro - Aprisionam quando viram identidade e deixam de ser experiência. Quando a emoção vira sobrenome: “sou ansioso”, “sou incapaz”, “sou insuficiente”. Aí não é mais um estado interno; é um destino.
Outra prisão é quando o sentimento vira lei. A pessoa passa a viver obedecendo ao que sente no instante, como se emoção fosse bússola única. Só que emoção é sinal, não é sentença. Ela mostra uma verdade do momento, mas nem sempre mostra a melhor escolha.
E há um tipo de aprisionamento muito comum: a ruminação. A mente fica repetindo a dor para tentar “entender”, mas, sem elaboração, repete para se ferir de novo. Nisso, a pessoa perde presente, perde energia e perde futuro.

OP - Você fala em alguns de seus trabalhos sobre a importância de saber manejar as emoções, principalmente diante dos problemas. Como fazer para atingir essa maturidade emocional?
Rossandro - Maturidade emocional não é não sentir. É sentir sem ser sequestrado pelo que se sente. Isso se constrói com três movimentos: nomear a emoção (dar linguagem ao que me incomoda), regular o corpo (respiração, sono, alimentação, presença), e escolher resposta em vez de reação. É treino diário, e muitas vezes com ajuda: terapia, vínculos seguros, espiritualidade, práticas de atenção.
OP - Estamos no Janeiro Branco, mês que traz a importância de cuidar da saúde mental. Se pudesse elencar três principais passos para garantir um bem-estar psicológico, quais seriam?
Rossandro - Três passos simples e decisivos: sono e rotina mínima, sem isso, a mente perde chão. Vínculo: não atravessamos a vida sozinhos; procure gente de confiança e, se necessário, ajuda profissional. Higiene mental: reduzir excessos (telas, álcool, autoexigência), criar pausas de silêncio e uma prática de presença, nem que sejam 10 minutos por dia.
OP - Nesse processo de cuidado mental, enxerga as redes sociais como um desafio?
Rossandro - Sim, pode ser um desafio, porque elas são feitas para capturar atenção e provocar comparação. Não é “demonizar” rede social, é aprender a usar sem ser usado. O problema não é a ferramenta, é quando ela vira medida de valor, fonte de ansiedade e anestesia emocional.
OP - Que tipos de sentimentos podem ser alimentados pelas redes e como podemos lidar com eles?
Rossandro - Redes podem alimentar comparação, inveja, inadequação, fomo [expressão utilizada para expressar o "medo de estar perdendo algo"], irritação constante e até uma tristeza silenciosa. Para lidar: curadoria do que você consome, limites de tempo, dias de “detox” e, principalmente, lembrar que rede é vitrine, não bastidor. Se algo te adoece, isso é um dado: ajuste o ambiente.
OP - Acredita que essa imersão cada vez mais frequente no mundo virtual tem nos distanciado da vida real e provocado uma sociedade adoecida?
Rossandro - Em parte, sim. A vida virtual pode empobrecer o contato com o real quando substitui presença por performance e relação por consumo. Mas eu não acho inevitável: depende do nosso grau de consciência. A tecnologia amplia o que já existe. Se eu estou vazio, eu me perco nela. Se eu estou presente, eu uso com critério.
OP - Você sente que estamos cada vez mais conectados com o mundo virtual do que com o outro? Acha que essa é uma tendência que tende a aumentar?
Rossandro - Eu sinto que há um risco crescente de termos mais conexão e menos encontro. E a tendência pode aumentar, sim, porque tudo está mais rápido, mais digital e mais mediado por telas. Mas a resposta também pode crescer: as pessoas estão com saudade do simples, do olho no olho, do tempo inteiro.
OP - E como podemos alimentar essa conexão com o outro e com nós mesmos?
Rossandro - A conexão com o outro e com nós mesmos se alimenta de presença. Coisas práticas: conversas sem celular na mesa, rituais de família, amizades cuidadas, hobbies fora da tela, espiritualidade ou silêncio, e terapia quando necessário. E uma disciplina afetiva: escutar com calma, pedir desculpa com humildade, dizer “eu preciso de você” sem vergonha.
OP - No livro "As 5 Faces do Perdão" você traz a reflexão de como encontrar o caminho de redenção interior. Por onde passa esse caminho?
Rossandro - O caminho de redenção interior passa por reconhecer a dor sem negar, assumir responsabilidade sem se destruir, e escolher libertação em vez de vingança. Perdoar não é esquecer, nem absolver o injusto: é interromper o ciclo de prisão emocional. É um processo de verdade, limites e recomeço por dentro.
OP - O senhor chegou a falar em algumas entrevistas que perdoar é também não deixar o outro te destruir. O processo de perdão pode então ser encarado como um gesto de auto cuidado?
Rossandro - Sim, e eu diria mais: perdão é um tipo de higiene emocional. Não é absolver o erro, não é negar o dano, não é voltar para o lugar que feriu. É recusar que a ferida vire governo interno. Freud falava do quanto aquilo que não é elaborado retorna como repetição.
Em muitos casos, a mágoa não elaborada mantém o outro vivo dentro da pessoa, como presença íntima e invasiva. Perdoar, nesse sentido, é retirar o agressor do centro da alma.
É um gesto de auto cuidado porque protege a identidade: “o que aconteceu me marcou, mas não me define”. Perdão é reconstrução de fronteiras internas. É parar de sangrar em silêncio por algo que já passou e não precisa comandar o que ainda virá.
OP - Olhando de uma forma geral, em termos de sociedade, qual considera o principal desafio desse ano? O que 2026 pode demandar da gente?
Rossandro - O grande desafio de 2026, para mim, é preservar a humanidade em tempos de pressa, polarização e excesso de estímulo. Vai demandar maturidade emocional, senso crítico e coragem de sustentar vínculos. Menos reatividade, mais consciência. Menos espetáculo, mais verdade. Menos controle do outro, mais cuidado de si.

Vinda a Fortaleza
Colunista da rádio CBN, Rossandro Klinjey vai trazer a palestra "As 5 Faces do Perdão" para Fortaleza no dia 22 deste mês de janeiro. O encontro, promovido pelo Alma Talks, ocorrerá no Theatro Via Sul, às 20 horas.
Livros
Klinjey é autor de diversos livros que abordam temas como perdão, felicidade e educação socioemocional. Uma de suas obras mais recente se chama "As Quatro Estações da Alma: Da Angústia à Esperança", e foi lançada em parceria com o filósofo Mario Sergio Cortella.
Cursos
Além de escritor e palestrante, o psicólogo também ministra cursos online, que buscam auxiliar questões mentais e emocionais. Entre eles estão os treinamentos: "Jornada contra a Autossabotagem" e "Como Conviver com Pessoas Difíceis", que podem ser aderidos por meio de suas plataformas digitais.
Grandes entrevistas