Resumo
A automedicação e a busca por soluções imediatas nas redes sociais ignoram a avaliação clínica necessária para diagnósticos precisos.
Especialistas alertam que a romantização de sintomas e a simplificação de transtornos mentais nas redes sociais podem minimizar os prejuízos reais.
A busca por ajuda profissional qualificada, como psiquiatras e psicólogos, é o caminho seguro para a avaliação e tratamento de transtornos mentais.

"Como você faz pra descobrir se tem bipolaridade?”
A pergunta pegou Laura (nome fictício) de surpresa. Sua avó, Socorro, de 73 anos, estava passando por um momento delicado, mas os sintomas não eram novos. Desânimo, angústia e uma dificuldade gigantesca de sair da cama a acompanhavam desde a juventude.
Por décadas, a família chamou Socorro de "preguiçosa" ou "lesada". Somente na velhice, com os conselhos da neta, ela percebeu que esses comportamentos, que ela sempre viu como traços de personalidade, poderiam ser sintomas de um transtorno.
Começou, então, a pesquisar incansavelmente sobre o assunto na internet. O Google apontou uma série de possibilidades: estresse, ansiedade, burnout, TDAH, bipolaridade, falta de vitaminas e autismo. Socorro ficou confusa e buscou as redes sociais. Ao abrir o aplicativo, foi pega de surpresa: sua página inicial havia sido bombardeada de vídeos sobre o assunto.
A confusão inicial (estresse, ansiedade, autismo, bipolaridade) deu lugar a uma certeza: Socorro supostamente tinha Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Na urgência de resolver uma vida inteira de sofrimento, ela se lembrou da medicação que a neta tomava: a ritalina.
O pedido veio com naturalidade: “Laura, tem como você me dar um pouco desse seu remédio para eu experimentar?”.
O pedido de automedicação, impulsionado por um diagnóstico feito no feed, assustou Laura, que não fazia ideia nem que a avó tinha acesso a redes sociais. Alarmada, marcou uma consulta com um psiquiatra para a avó. Ali, 73 anos de vida poderiam ser, de fato, avaliados com seriedade.
A história de Socorro não é um caso isolado. Em um contexto em que o sofrimento psíquico é onipresente — mundialmente, o suicídio já é a quarta maior causa de morte entre os jovens de 15 a 29 anos, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) —,o tempo de tela vira agravante. O brasileiro gasta, em média, 9 horas e 32 minutos por dia conectado, a segunda maior média mundial.
Nesse meio tempo, tem-se contato com diversos conteúdos que podem estimular o autodiagnóstico, prática que ignora o rito de avaliação feita por médicos psiquiatras.
Afinal, transtornos como o TDAH, o autismo, o pânico e o transtorno bipolar não são detectados por um exame taxativo ou marcador biológico definitivo — como o exame de sangue ou o raio-x, por exemplo.
Luísa Bisol, médica especializada em psiquiatria e professora de Medicina da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que o diagnóstico desses transtornos é feito por uma avaliação essencialmente clínica, baseada em fatores multidisciplinares, como:
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"Devemos ter cautela para não enxergar como doença (patologia) o que são apenas respostas normais (fisiológicas) do organismo a determinadas situações", alerta Matias Carvalho, psiquiatra e professor da Universidade de Fortaleza (Unifor).
"Por exemplo, as vezes o paciente ansioso, em um momento de sobrecarga emocional, sofre com falta de concentração, o que pode ser confundido com TDAH", comenta. “Se ele, nesse momento de ansiedade, for fazer um checklist para TDAH, pode pontuar aquela lista de sintomas e falsamente confirmar o transtorno".

Quando a pessoa estabelece um rótulo para si mesma a partir das redes, ela cria uma zona de conforto em que justifica suas atitudes, dificuldades e vulnerabilidades com base nessa crença.
Matias alerta que esse rótulo acaba virando uma muleta para o paciente, que demora mais tempo para pedir ajuda. “Um paciente que estabelece um diagnóstico para si e o entende como verdadeiro, adia o acompanhamento profissional qualificado por meses e às vezes até anos”, pontua.
A consequência de adiar o tratamento é que os sintomas se agravam: o que era ansiedade leve pode se tornar uma crise de pânico, e a depressão se torna mais profunda e perigosa.
Ao mesmo tempo, a psicóloga e especialista em psicologia social, Kamila Nobre, aponta que as orientações generalistas que circulam na rede tendem a causar muita frustração nos sujeitos, que, ao perceberem a insuficiência das estratégias apontadas, sentem-se impotentes.
“Mesmo quando não se trata de um sofrimento tão grave, essas orientações generalistas dificilmente são suficientes. Isso porque o cuidado psicológico, o olhar especializado da psicologia, parte sempre da singularidade do sujeito, o que vai completamente na contramão da lógica das redes sociais, onde a solução que serve para um é apresentado como válida para todos”.
E destaca, também, o caminho adotado no tratamento terapêutico: “Na psicoterapia, o caminho é outro: o sujeito é convidado a construir suas próprias respostas, de acordo com sua história e com o sentido que ele atribui às suas vivências.”
Além do atraso, a busca por soluções imediatas na internet leva à adoção de tratamentos caseiros ou, o mais grave, à automedicação. A psiquiatra Luísa percebe o uso de fitoterápicos, óleos essenciais e até mesmo medicação psiquiátrica prescrita por pessoas não habilitadas como um comportamento de risco para a saúde do paciente.
“Se a medicação foi útil para meu vizinho não quer dizer que será útil para todos. O tratamento deve ser personalizado”, reforça.
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O comportamento de buscar excessivamente por informações médicas e diagnósticas nas redes sociais e na internet também pode virar uma cibercondria.
"É um quadro de ansiedade que geralmente tende a cenários catastróficos. Essa prática pode levar a quadros ansiosos que podem até cursar com sintomas físicos, como taquicardia, hipervigilância, respiração mais ofegante, ou sintomas cognitivos, como desconcentração e preocupações excessivas."

A psicoterapia é um caminho que vai na contramão da lógica das redes sociais: é um processo gradual, reflexivo e transformador. Para o paciente acostumado à urgência do feed, essa lentidão pode causar uma descrença inicial, pois os resultados mais profundos não vêm da pressa, mas da elaboração.
Segundo a psicóloga Kamila, se reconhecer não é algo que possa ser entregue em uma dose rápida: “O processo terapêutico vai na contramão dessa lógica fast food, pois se reconhecer não é algo que o outro possa fazer por nós. Na psicoterapia, o papel do psicoterapeuta não é dizer quem o sujeito é, nem o que ele deve fazer com a vida que tem.”
“O psicoterapeuta atua como suporte, como alguém que ajuda o sujeito a se perceber, a reconhecer suas necessidades, vulnerabilidades e desejos, e a se responsabilizar por suas próprias escolhas. É um espaço de construção, não de respostas prontas”, descreve.
O psiquiatra Matias também destaca que a cultura das redes vende uma noção de realidade que não existe. “A gente vive um modelo de idealização que não corresponde ao modelo real. E, muitas vezes, esse padrão leva a uma intolerância aos sofrimentos cotidianos, que todos nós estamos sujeitos a ter", afirma.
Para Kamila, a crença na felicidade contínua cria a expectativa de que o sofrimento é algo que precisa ser eliminado, e não vivido, compreendido e elaborado. Acontece que a dor nem sempre é sinal de doença: ela é, na maioria das vezes, uma expressão legítima da condição humana de existir.
Cabe ao psicoterapeuta o desafio de diferenciar o sofrimento existencial intrínseco à existência humana do sofrimento patológico. “O sofrimento patológico tende a paralisar, a impedir o sujeito de viver e investir no mundo. Já o sofrimento existencial, ainda que doloroso, pode ser vivido como experiência intrínseca à vida”, define a psicóloga.
A psicoterapia, nesse sentido, funcionaria como um espaço de humanização, em que o sofrimento dos sujeitos passa a ser algo não só compreendido, como também convertido em crescimento.

A lógica do feed também distorce a gravidade dos sintomas, trocando o sofrimento real pela validação superficial. Kamila destaca o empobrecimento da linguagem: "O que se observa é uma aplicação indiscriminada desses termos (como narcisismo ou trauma) a situações muito diversas, muitas vezes distantes de seus significados reais.”
“Isso faz com que o sujeito, em vez de se aproximar de uma reflexão mais profunda, acabe recorrendo a explicações simplistas demais para experiências bem complexas."
Luísa Bisol complementa apontando a romantização de sintomas, como o "hiperfoco" (associado ao TDAH), celebrado como um "superpoder" que minimiza os prejuízos funcionais reais do transtorno.
"Um exemplo de hiperfoco é quando uma criança fica tão absorta em um videogame que não ouve os pais chamando seu nome. Pessoas em estado de hiperfoco negligenciam tudo o que não esteja relacionado à atividade em que estão concentradas”, pontua.
E complementa: “ A característica de inflexibilidade, em que a atenção é dirigida a um interesse específico, pode acarretar prejuízos. Isso ocorre porque a capacidade de alternância na atenção é necessária para uma melhor adaptação aos diferentes contextos que enfrentamos”.

Nas redes sociais, usuários que se mantêm em alta são aqueles que se adaptam à lógica algorítmica das empresas. Essa lógica tem como objetivo privilegiar e impulsionar conteúdos imediatistas, urgentes e que geram grande identificação emocional, tudo em um curto período de tempo.
Por isso, os vídeos que viralizam sobre saúde mental são frequentemente superficiais e produzidos por pessoas que não têm qualquer formação profissional. É o que conclui o mestre em Psicologia Horácio Goes Amici, na dissertação "Discursos sobre diagnósticos psiquiátricos em redes sociais virtuais: o incomensurável de si em tempos de positividade".
A autoridade não é dada pelo diploma ou experiência na área, mas pela capacidade de gerar visualizações.
O POVO+ analisou o conteúdo de topo ao buscar por “TDAH” no TikTok e no Instagram.
Os considerados “Especialistas” são psiquiatras, psicólogos, psicopedagogos e outros profissionais de saúde. Os “Não-Especialistas” dividiram-se em influenciadores, coaches, pessoas que convivem com o transtorno e até mesmo páginas de humor, que apenas replicam vídeos de outros criadores de conteúdo.
É importante notar que essa é uma constatação pontual desta reportagem, realizada em um período e contexto específicos, e não um estudo científico com validade estatística. No entanto, a observação reflete a tendência de cada plataforma em priorizar determinado tipo de autoridade sobre o tema.
Para a apuração dos dados, a reportagem realizou uma amostragem exploratória nas plataformas TikTok e Instagram no dia 17 de novembro de 2025, por volta das 11 horas, na cidade de Fortaleza. A busca foi feita com o termo exato 'TDAH'. Em ambas as redes, foram analisados os 15 primeiros vídeos exibidos nas respectivas abas de busca por relevância/destaque. O ranqueamento apresentado reflete a filosofia algorítmica de cada plataforma.
A preocupação que existe em relação aos conteúdos gerados por não-especialistas é que, diferente dos profissionais de saúde, esses influenciadores não precisam seguir um Código de Ética ou alguma regulamentação.
Enquanto o Conselho Federal de Medicina, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) impõem regras rigorosas para proteger o paciente, o criador de conteúdo sem formação pode promover irresponsabilidade e desinformação.
Quando um médico, psicólogo ou psiquiatra não segue esses regimentos, eles estão sujeitos a um processo ético-profissional.
Dentre as punições previstas por esses Conselhos, estão inclusas, a depender da gravidade: advertência confidencial; censura confidencial ou pública; suspensão do exercício profissional por até 30 dias; cassação do registro profissional (pena máxima).

Diante dos riscos, o conselho unânime dos especialistas é claro: não confie no diagnóstico do feed. A busca por ajuda qualificada é o único caminho seguro. No mapa abaixo, veja onde procurar ajuda em Fortaleza.
Série especial trata dos dilemas da saúde mental no Brasil, desde diagnósticos, passando pela medicalização, até a busca por qualidade de vida