Demitri Túlio é editor-adjunto do Núcleo de Audiovisual do O POVO, além de ser cronista da Casa. É vencedor de mais de 40 prêmios de jornalsimo, entre eles Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), Embratel, Vladimir Herzog e seis prêmios Esso. Também é autor de teatro e de literatura infantil, com mais de 10 publicações
Foto: Aurélio Alves
Macaco que nasceu no Zoológico Sargento Prata, no bairro Passaré, um filhote de guariba-da-caatinga, nativo do Nordeste brasileiro criticamente ameaçado de extinção
Ainda era um prefeito "progressista", estava no PDT e nunca imaginei a possibilidade que se bandeasse para o bolsonarismo; nem houvesse o perigo de se filiar ao União Brasil.
Chamou-me para um almoço informal. No começo relutei, não por indelicadeza. Fosse uma entrevista, estaria dentro de uma lógica de Redação. Roberto Cláudio nunca foi uma fonte particular, então provavelmente, não me daria informação além da factualidade.
"Foi quando perguntei por que o equipamento permanecia com a lógica ultrapassada de exibição de seres vivos não-humanos"
Na época, no Zoológico Sargento Prata, estavam finalizando uma reforma estrutural e faltava pouco para reabrir. E, por acaso, a repaginada no zoo entrou na pauta. Foi quando perguntei por que o equipamento permanecia com a lógica ultrapassada de exibição de seres vivos não-humanos para bichos humanos.
Ele não soube responder, falei de uma "novo olhar" para os zoos no mundo. Deixar de ser um "circo de bichos" e virar um centro de acolhimento e recuperação da fauna silvestre oriunda do tráfico de animais e de cativeiros domésticos. E, a partir dessa lida e quando possível, repovoar biomas.
"Mais uma vez fiz a sugestão de transformar o zoo em um Cetas"
Ele nem sabia do que eu estava falando. Chamou um secretário que estava no momento e pediu para verificar a viabilidade legal dessa transformação. O tempo passou, o zoo reabriu, fechou novamente e não houve nem estudo.
Pulo para 2025, com Evandro Leitão (PT) no poder e José Sarto tendo sido derrotado numa tentativa de reeleição para o Palácio do Bispo. O Sargento Prata volta à pauta dentro da lógica de reabrir para visitação de humanos a "apreciarem" animais não-humanos enjaulados.
"Existe a Lei Complementar 140/2011 que estabelece as competências e cooperação dos entes na gestão ambiental"
O Sargento Prata continuaria recebendo animais oriundos do tráfico de animais, a maioria deles maltratados e adoecidos. Os que tivessem condição de retornar à natureza receberiam outra chance de uma existência livre.
Da assessoria de imprensa da Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza (UrbFor) recebi uma nota sobre a coluna da semana passada. Informando que o Zoológico Sargento Prata não está em situação de ilegalidade desde 2020.
Não está nem escrevi isso. Afirmei que desde 2020, na verdade desde 2019, com o fechamento do Cetas/Ibama, o Município e Governo do Ceará deveriam ter aberto um Cetas por recomendação do Ministério Público.
"Os humanos, filhotes e adultos, poderiam se alfabetizar para a Natureza"
Existe a Lei Complementar 140/2011 que estabelece as competências e cooperação dos entes na gestão ambiental. No caso do Ceará, depois de conversas com Ministério Público, o Estado assinou um Acordo de Cooperação Técnica com o Ibama para gestão compartilhada do Cetas-Fortaleza.
E, atualmente, segundo Deodato Ramalho, superintendente do Ibama no Ceará, o Governo do Estado está construindo um Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres, no Cariri (Crato). Ótimo.
Mais uma vez a sugestão. A Prefeitura de Fortaleza poderia transformar o Sargento Prata num Cetas. E deixar de mão a história de ter de abrir o zoo para o deleite de humanos. Os humanos, filhotes e adultos, poderiam estudar numa Escola do Meio Ambiente e se alfabetizar para a Natureza.
"Todos os animais do Zoológico Sargento Prata são oriundos de situações de vulnerabilidade"
Há no Sargento Prata um trabalho técnico apurado de veterinários, biólogos e tratadores no manejo, na conservação e, quando possível, na reprodução de animais que, por diferentes razões, não podem ser reinseridos na natureza.
No mês passado, no zoo, houve o nascimento precioso de um filhote de guariba-da-caatinga (Alouatta ululata). Um macaco nativo do Nordeste brasileiro criticamente ameaçado de extinção.
E, também, entre 2024 e 2025, foi realizada no Sargento Prata a reprodução e a reintrodução à natureza de 12 cachorros-do-mato, em parceria com a Semace e o Ibama.
A história é esta! Feliz 2026 para os seres vivos não-humanos e humanos.
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