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Comunidade perto do aeroporto sofre inundação após desmate da floresta: "Isso nunca aconteceu"
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Guilherme Gonsalves escreve sobre política cearense com foco nas atuações Assembleia Legislativa do Estado do Ceará (Alece) e Câmara Municipal de Fortaleza (CMFor), mostrando os seus bastidores desdobramentos no jogo político e da vida do cidadão. Repórter de Política do O POVO, setorista do Poder Legislativo, comentarista e analista. Participou do programa Novos Talentos passando pelas editorias de Audiência e Distribuição e Economia, além de Política. Também escreve sobre cinema para o Vida&Arte

Comunidade perto do aeroporto sofre inundação após desmate da floresta: "Isso nunca aconteceu"

Cerca de 50 hectares de mata atlântica sofreram supressão vegetal em obra da empresa Fraport em setembro de 2025. Consequências foram alertadas
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Inundação em comunidade do entorno de onde existia floresta do Aeroporto de Fortaleza, desmatada em 2025 (Foto: Reprodução/Instagram: @jamyle21)
Foto: Reprodução/Instagram: @jamyle21 Inundação em comunidade do entorno de onde existia floresta do Aeroporto de Fortaleza, desmatada em 2025

Moradores da comunidade do entorno do Aeroporto Internacional de Fortaleza - Pinto Martins, sofreram com alagamentos nas casas e ruas em meio a primeira grande chuva de 2026. É a área do entorno onde existia a floresta, contendo mata atlântica, de mais cerca de 50 hectares, desmatada no ano passado.

"A obrazinha aí do aeroporto, quem se lasca é os moradores. Isso aqui nunca aconteceu na nossa rua, nunca. Olha aí o absurdo. Devastaram a floresta, acabaram com a casa dos animais e agora inundando tudo nosso aqui”, diz uma moradora da comunidade Vila Gomes, do bairro Aerolândia, em vídeos publicados nas redes sociais.

Ao mostrar correntes de água percorrendo pelas ruas e um interior de uma casa alagada, a moradora atribui a inundação ao desmate recente afirmando que, em 50 anos, nunca houve uma situação assim na comunidade.

Conforme relato dos moradores e imagens que circulam, a água escorreu para o muro que separa a área da antiga floresta para a comunidade juntamente com areia e terra da obra, formando lama, que invadiu ruas, casas e comércios.

Veja o vídeo da inundação na comunidade:

“50 anos de Vila Gomes e isso aqui nunca tinha acontecido na nossa rua. Tudo resultado de uma obra inconsequente. E agora no momento, os engenheiros, operários estão todos em cima do morro. Quem é que vai pagar o prejuízo do cidadão?”, fala mostrando ruas e casas alagadas do lado de onde era a floresta.

O vereador Gabriel Aguiar (Psol) se manifestou afirmando que as consequências do desmatamento de dezenas de mata atlântica estão ocorrendo. Ele foi um dos principais críticos à obra e lutou pela inclusão de mais áreas verdes no Plano Diretor de Fortaleza.

"Está ocorrendo o que eu sempre falei que ocorreria. Á água que antes era uma benção pra mata atlântica ataca violentamente a comunidade destruindo cama, armário, guarda-roupa, eletrodomésticos e a vida de dezenas de famílias junto com suas casas estando debaixo da água", declarou.

Prosseguiu: "Antes, quando chovia na área, a água era retida pelas centenas de árvores, descia pelas raízes delas e penetrava no solo extremamente permeável da floresta. Agora, o solo compactado apenas de areia, a água corre violentamente pela superfície, diretamente para as casa das famílias da comunidade do entorno".

Biólogo explica inundações após desmatamento

Outra consequência sentida pelo entorno já quase imediatamente após a ação foi o aumento da temperatura de até 6°C na área, de acordo com estudo da Universidade Federal do Ceará (UFC).

O biólogo Thieres Pinto, consultor da Sertões Consultoria Ambiental e especialista em conservação de biodiversidade, explicou que já era esperado que a comunidade do entorno sofresse com inundações, algo alertado por cientistas da área após a supressão vegetal, obra da empresa Fraport para construir galpões, autorizada pela Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace).

"Uma floresta com folhiço, toda estruturada infiltra dois mil metros quadrados por minuto. Enquanto uma área de solo exposto é a que menos infiltra, solo exposto e compactado. E aí acaba que o solo totalmente compactado se torna uma barreira para a água", explica.

"50 hectares é muita área, são muitos litros de água que não infiltram. Essa água não vai ter pra onde correr, a cidade já é impermeabilizada. Então se a gente não tem áreas de floresta, vai causar inundações. Infelizmente a gente tá sofrendo com isso, a comunidade do aeroporto tá sofrendo com isso. No fim das contas também é dinheiro, porque vai precisar de obras para solucionar", afirmou.

Thieres também declarou que no fim das contas, o desmatamento acabou sendo "didático", pois em poucos meses depois da obra os efeitos práticos das consequências já foram sentidos de forma visível e clara.

"Por esse lado foi interessante pra gente poder discutir melhor o Plano Diretor, debater melhor áreas verdes e deixar entender que a população tem que ver que o direito não é só da especulação imobiliária é da população como um todo", completou.

Foto do Guilherme Gonsalves

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