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No espelho,uma imagem distorcida
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Ciência e Saúde

No espelho,uma imagem distorcida

|Transtornos alimentares x Vida sexual| Da perda de libido ao medo de intimidade, psiquiatras explicam como a relação distorcida com o corpo e a comida pode comprometer vínculos, saúde mental e prazer
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Capa (Foto: Gemini)
Foto: Gemini Capa
 

 

Para a psiquiatria, quando o assunto é transtorno alimentar e exposição às redes sociais, as evidências apontam para um efeito dose-resposta: quanto maior o tempo gasto consumindo conteúdos de dieta, corpos idealizados e metas estéticas, maior a probabilidade de desenvolver insatisfação corporal e comportamentos alimentares disfuncionais.

Esse é um terreno fértil para o início de transtornos como bulimia nervosa, anorexia nervosa e compulsão alimentar.

O impacto, no entanto, não se limita à alimentação. Ele atravessa outra dimensão pouco discutida: a da sexualidade.

 

O efeito “dose-resposta” das redes sociais 

 

A jovem Marina (nome fictício para preservar a identidade da fonte) relutou durante meses até buscar ajuda. Com 19 anos, desde os 18 observava seu humor deprimido, mas tinha receio de procurar um psicólogo ou médico. O motivo? Tinha medo de engordar caso precisasse tomar alguma medicação.

A questão com o peso que desencadeava essa ansiedade passou a lhe acompanhar há cerca de um ano, desde que engordou cinco quilos após passar por mudanças na rotina. Marina, que até então levava uma vida ativa, equilibrada e orgulhosa com o próprio corpo, resolveu seguir perfis nas redes sociais voltados para temas de alimentação e dietas na tentativa de emagrecer.

Mas o que era para ser uma motivação acabou virando obsessão — e, por fim, sofrimento. Ao consumir cada vez mais conteúdos com esse foco, a insatisfação com a autoimagem se intensificou ainda mais: “Eu tinha a sensação constante de nunca estar suficientemente magra”.

“Passei a contabilizar cada caloria que eu ingeria, a restringir alimentos e me comparar constantemente com os corpos perfeitos que eu via na internet, sentindo uma necessidade muito forte de alcançar esse padrão ideal ou fazer o possível e impossível para chegar ao menos perto”, conta.

A restrição severa levou à perda de peso tão almejada e lhe trouxe satisfação — sensação que era “bastante reforçada pela validação dos outros”. Não demorou muito, porém, para que Marina tivesse episódios de compulsão alimentar e não só recuperasse o peso perdido, como ultrapassasse.

“Eu sentia muita culpa e vergonha, principalmente quando via postagens que mostravam as calorias dos alimentos e quanto de exercício era necessário para compensar cada ingestão. Era meu principal gatilho. Então eu tentava compensar não só com excesso de atividade física, mas também usava diuréticos, laxativos e induzia vômitos”, narra.

 

Sinais de transtornos alimentares 

 

A espiral, que começou com a busca por “saúde”, terminou comprometendo sono, humor, autoestima, sexualidade e vida social.

Com medicação receitada por um médico psiquiatra, acompanhamento psicoterápico e nutricional, a estudante teve uma melhora no quadro de humor e também nos episódios de compulsão e purgação.

Mas seu relato ilustra dramaticamente como o uso intensivo de redes sociais pode desencadear transtornos diversos.

O risco é maior para o público adolescente, onipresente em redes como Instagram e TikTok e exposto a imagens, mensagens e influenciadores que incentivam ideais de beleza inatingíveis.

Como um estágio de desenvolvimento crítico, a adolescência fica vulnerável à normalização de comportamentos não saudáveis e inseguranças.

É o que demonstra a pesquisa Social media effects regarding eating disorders and body image in young adolescents (Efeitos das mídias sociais sobre transtornos alimentares e imagem corporal em jovens adolescentes).

O conteúdo é intensificado pelos algoritmos dessas plataformas, que direcionam material personalizado para os usuários — frequentemente de forma menos regulada e deliberada. 

 

 

Quando comer, desejar e sentir prazer se confundem

A experiência de Marina revela um sensível ponto de encontro entre corpo, desejo e sofrimento emocional: ao oscilar entre compulsão e comportamentos compensatórios, o que está em jogo é a liberação de dopamina — o neurotransmissor do prazer e da recompensa.

A psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo explica que a bulimia nervosa é caracterizada por essa dualidade: “Estamos falando de episódios recorrentes de compulsão que têm necessariamente reflexos físicos e comportamentos compensatórios. Esses comportamentos podem ser purgativos, como vômitos autoinduzidos, mas também podem ser não purgativos, como jejum prolongado, por exemplo”.

A médica alerta que a prevalência do transtorno é “subestimada”, pois “as pessoas sentem que resolveram através de mecanismos a questão central para elas, que é o peso, e não vão buscar ajuda”.

Dra. Carmita Abdo é médica psiquiatra e sexóloga, doutora e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP), conhecida por sua atuação no campo da sexualidade humana. É fundadora e coordenadora do ProSex no Hospital das Clínicas da USP e autora de livros como "Descobrimento Sexual do Brasil"(Foto: Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP))
Foto: Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) Dra. Carmita Abdo é médica psiquiatra e sexóloga, doutora e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP), conhecida por sua atuação no campo da sexualidade humana. É fundadora e coordenadora do ProSex no Hospital das Clínicas da USP e autora de livros como "Descobrimento Sexual do Brasil"

Baseada na experiência clínica, a psiquiatra analisa que a obsessão com supostas falhas na aparência e sentimentos como nojo e vergonha são fatores que aproximam transtornos alimentares do transtorno dismórfico corporal (TDC) "O Transtorno Dismórfico Corporal (TDC) é um transtorno mental caracterizado por uma preocupação excessiva e obsessiva com falhas percebidas na aparência física, que geralmente não são notadas por outras pessoas ou são consideradas muito discretas. Essa percepção distorcida da imagem corporal causa angústia significativa e interfere gravemente nas atividades diárias, sociais e profissionais do indivíduo." — condição que, segundo Abdo, “coexiste em até 60% da população com transtornos de alimentação”.

E quando o sofrimento com o corpo cresce, cresce também o impacto sobre relações e sexualidade.

A psiquiatra Carmita Abdo observa que, em muitos casos, a vergonha profunda associada à bulimia se estende para o campo da intimidade.

Isso ajuda a entender por que “parte das mulheres com bulimia tem experiências sexuais marcadas por impulsividade, baixa proteção, maior número de parceiros e iniciação precoce” — padrões que não são moralmente julgados pela ciência, mas analisados como resultados de sofrimento psíquico.

Por trás desses comportamentos, revela a médica, há frequentemente histórias de insegurança, rupturas afetivas, início tardio da sexualidade presencial e, nos últimos anos, um fenômeno crescente: a iniciação sexual exclusivamente virtual.

Para muitas pessoas que começaram a vida sexual durante a pandemia de Covid-19, “a iniciação sexual virtual pode ser a única forma de sexo por décadas na vida de algumas pessoas”, aponta.

A facilidade de acesso e a privacidade permitem que essa atividade seja praticada “por vezes de forma compulsiva. 5, 6, 10, 20 atos sexuais por dia diante de um celular ou da tela de um computador”.

Isso ocorre porque o circuito de recompensa é acionado de forma muito mais intensa, previsível e rápida pelas telas do que pelos encontros reais, que exigem vínculo, comunicação, tempo e exposição emocional.

As relações sociais mudaram durante a pandemia, inclusive quando se fala em sexo virtual(Foto: Freepik)
Foto: Freepik As relações sociais mudaram durante a pandemia, inclusive quando se fala em sexo virtual

O comportamento surge como tentativa de regulação emocional, e não necessariamente como busca de prazer sexual propriamente dito.

O psiquiatra Arnaldo Barbieri, psicoterapeuta pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), amplia o quadro ao falar do transtorno do comportamento sexual compulsivo — reconhecido na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um transtorno de controle de impulsos.

Ele descreve que muitos comportamentos humanos funcionam como uma espécie de “alta natural” (natural high), como é o caso de exercícios e sexo. Há também highs químicas (como drogas) e highs comportamentais (como compras, jogos, internet e comida).

Nesse ponto de prazer intenso, explica, existe liberação de dopamina, o neurotransmissor ligado à recompensa — e é justamente isso que, em excesso, pode “se tornar uma confusão”. Segundo Barbieri, a fronteira entre o hábito e a compulsão é a perda de controle.

É uma perspectiva que coloca diferentes expressões humanas dentro de um mesmo espectro impulsivo-compulsivo: quando a busca por alívio se transforma em urgência.

A fala do psiquiatra também costura um tema difícil, mas necessário: a relação entre transtornos alimentares e a formação de disfunções sexuais. Ele afirma que a dismorfia corporal “pode preceder a alimentação” e alerta que deve ser investigada com cuidado para evitar a progressão de quadros alimentares e sexuais simultaneamente.

O fio que une essas duas áreas é a autoimagem: quanto mais distorcida, maior a probabilidade de a pessoa evitar vínculos, expor menos o corpo, sentir vergonha da sexualidade e buscar formas virtuais ou compulsivas de satisfação.

 

 

Anorexia nervosa: a doença psiquiátrica com maior taxa de mortalidade

Se a bulimia nervosa frequentemente se conecta à impulsividade, a anorexia nervosa revela outra face do sofrimento.

O psiquiatra Diego Fraga lembra que, desde o século XIX, o transtorno é entendido como um distúrbio de origem psicológica — e altamente letal.

“A morbidade apresenta uma das mais altas taxas de mortalidade entre os transtornos psiquiátricos, perde apenas para overdoses por uso de opioides”, destaca.

A anorexia nervosa é um transtorno alimentar grave caracterizado pela recusa em manter um peso corporal mínimo e adequado para a idade e altura, um medo intenso de ganhar peso e uma percepção distorcida da própria imagem corporal(Foto: alexkich/AdobeStock)
Foto: alexkich/AdobeStock A anorexia nervosa é um transtorno alimentar grave caracterizado pela recusa em manter um peso corporal mínimo e adequado para a idade e altura, um medo intenso de ganhar peso e uma percepção distorcida da própria imagem corporal

Em parte dos casos, o risco envolve complicações clínicas graves; em outra parte, suicídio. “Alarmantemente, estima-se que cerca de 20% das mortes em anorexia nervosa são atribuídas ao suicídio.

O impacto na sexualidade, afirma, depende do subtipo. No padrão restritivo, marcado por rigidez, perfeccionismo e retraimento emocional, o desejo sexual tende a desaparecer. A ausência de fantasias e de motivação para intimidade é frequente.

No subtipo purgativo, mais associado à impulsividade, o envolvimento sexual pode ser maior, mas muitas vezes acompanhado de culpa intensa, experiências negativas e traços emocionais desorganizados.

Os dois grupos têm algo em comum: um corpo submetido à fome e desequilíbrios hormonais. A disfunção do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal "O eixo hipotálamo-hipófise-gonadal é um sistema endócrino fundamental para o controle da reprodução e do desenvolvimento sexual em mamíferos, incluindo humanos. Ele controla a reprodução e começa com o hipotálamo produzindo GnRH, que estimula a hipófise a liberar os hormônios LH e FSH. Essas, por sua vez, agem nas gônadas (ovários nas mulheres e testículos nos homens) para produzir hormônios sexuais e gametas." reduz estrogênio e testosterona, que são responsáveis por modular o desejo sexual e a resposta fisiológica ao estímulo erótico.

Ideia de fracasso na perda de peso, questionamentos, insatisfação corporal levam aos transtornos alimentares(Foto: terovesalainen/AdobeStock)
Foto: terovesalainen/AdobeStock Ideia de fracasso na perda de peso, questionamentos, insatisfação corporal levam aos transtornos alimentares

Como resultado, essas alterações hormonais “comprometem diretamente o desejo sexual, a lubrificação, a excitação e a capacidade de atingir o orgasmo”.

Esse vazio afetivo-hormonal ecoa na clínica. “Pacientes com AN-R frequentemente relatam retraimento íntimo, baixa motivação para contato físico e percepção da sexualidade como ameaça à imagem de controle”, descreve.

A disfunção sexual não é uma consequência isolada, mas sim “um reflexo da complexidade clínica da anorexia”.

Por isso o Diego Fraga ressalta a importância de desenvolver “estratégias terapêuticas mais eficazes e mais organizadas”, que sejam integradas e humanizadas, para lidar com o impacto profundo e multifatorial que a anorexia nervosa exerce sobre a vivência afetivo-sexual.

 

 

Imagem corporal: o fio que costura todos os sintomas

O que conecta todos esses transtornos — anorexia, bulimia e compulsão alimentar — com a esfera sexual é a percepção distorcida e a insatisfação com a própria imagem corporal.

Essa autoimagem, como define o psiquiatra Claudio Meneghello Martins, é “a percepção subjetiva que temos do nosso próprio corpo”.

“Como é que você se enxerga quando fecha os olhos?”, questiona. A resposta é uma figura composta por quatro componentes: cognitivo (pensamentos e crenças), emocional (sentimentos sobre a aparência), perceptivo (como nos vemos) e comportamental (como agimos com base nessa autopercepção).

A distorção corporal e os transtornos alimentares (TAs) têm uma relação bidirecional e interligada: a distorção corporal é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de TAs e um sintoma comum em transtornos como a anorexia e a bulimia nervosa (Foto: Freepik)
Foto: Freepik A distorção corporal e os transtornos alimentares (TAs) têm uma relação bidirecional e interligada: a distorção corporal é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de TAs e um sintoma comum em transtornos como a anorexia e a bulimia nervosa

Para a sexualidade, a insatisfação gera um fenômeno chamado “distração cognitiva”.

Durante o sexo ou outros tipos de exposição, a pessoa se sente invadida por “questionamentos invasivos” de que algo no seu corpo não está bom, o que prejudica a capacidade de ter uma experiência satisfatória.

Consequentemente, pode desenvolver a “evitação da intimidade”, esquivando-se de situações que exponham o corpo.

A insatisfação corporal, acrescenta o médico, também se nutre de padrões culturais irreais, agora potencializados pelas redes sociais.

Essa busca por correção da autoimagem negativa, salienta ele, leva milhares de indivíduos a consultórios de dermatologistas e cirurgiões plásticos todos os dias.

Entre pacientes já fragilizados por transtornos alimentares como bulimia e anorexia, essa distorção pode atingir níveis incapacitantes.

“A percepção do próprio corpo é componente essencial da sexualidade saudável”, frisa.

A experiência clínica mostra que nenhum sofrimento ligado ao corpo ou à sexualidade existe de forma isolada.

Compulsão, insatisfação corporal, medo de intimidade e descontrole alimentar costumam ser manifestações diferentes de uma mesma dor.

Por isso, buscar avaliação médica é essencial. Uma escuta qualificada permite identificar o que está na raiz de cada comportamento, distinguir o que é emocional, fisiológico ou social e orientar um plano de cuidado ajustado às necessidades de cada paciente.

O tratamento pode combinar psicoterapia, apoio psiquiátrico, intervenções nutricionais e fortalecimento de vínculos afetivos, sempre respeitando o ritmo e a história de cada pessoa.

 

Transtornos alimentares: o que melhora o prognóstico?

 

No fim, todos esses temas — autoimagem, prazer, impulsos e vergonha — se encontram em um ponto central: a relação que cada indivíduo constrói com o próprio corpo.

Quando essa relação é marcada por rigidez e sofrimento, tanto a alimentação quanto a vida sexual perdem espontaneidade.

Mas quando a pessoa recebe acolhimento, informações corretas e tratamento adequado, é possível reorganizar esse vínculo e recuperar a sensação de segurança interna.

Procurar ajuda, longe de ser sinal de fraqueza, é o gesto que inicia o processo de reconciliação com o corpo e com a própria capacidade de viver o prazer de forma plena.

 


O tratamento funciona como a jardinagem cuidadosa: removendo o que prejudica e nutrindo o que é essencial para que o jardim floresça novamente.

Caso você se identifique com algum transtorno descrito nesta reportagem, procure ajuda. E lembre-se: somente médicos devidamente habilitados podem diagnosticar, indicar tratamentos e receitar remédios.','nm_citno':'#e68948 -- #ffffff','width':'180','height':'120','cd_tetag':'103100','align':'Left','js-changed':'1','id_tetag_tipo':7}">

Pense na saúde mental e sexual como um jardim. Quando a terra (sua autoimagem e estado emocional) está cheia de ervas daninhas (impulsividade, comparações digitais, descontrole), é quase impossível que flores (o desejo, a intimidade e o prazer) possam crescer de forma plena e natural.

O tratamento funciona como a jardinagem cuidadosa: removendo o que prejudica e nutrindo o que é essencial para que o jardim floresça novamente.

Caso você se identifique com algum transtorno descrito nesta reportagem, procure ajuda. E lembre-se: somente médicos devidamente habilitados podem diagnosticar, indicar tratamentos e receitar remédios.

 

"Oi :) Aqui é Karyne Lane, repórter do OP+. Te convido a deixar sua opinião sobre esse conteúdo lá embaixo, nos comentários. Se preferir, me escreva um e-mail (karyne.lane@opovo.com.br). Ficarei feliz de te ler. Até mais!"

Quando comer, desejar e sentir prazer se confundem

A experiência de Marina revela um sensível ponto de encontro entre corpo, desejo e sofrimento emocional: ao oscilar entre compulsão e comportamentos compensatórios, o que está em jogo é a liberação de dopamina — o neurotransmissor do prazer e da recompensa.

A psiquiatra e sexóloga Carmita Abdo explica que a bulimia nervosa é caracterizada por essa dualidade: "Estamos falando de episódios recorrentes de compulsão que têm necessariamente reflexos físicos e comportamentos compensatórios. Esses comportamentos podem ser purgativos, como vômitos autoinduzidos, mas também podem ser não purgativos, como jejum prolongado, por exemplo".

A médica alerta que a prevalência do transtorno é "subestimada", pois "as pessoas sentem que resolveram através de mecanismos a questão central para elas, que é o peso, e não vão buscar ajuda".

Baseada na experiência clínica, a psiquiatra analisa que a obsessão com supostas falhas na aparência e sentimentos como nojo e vergonha são fatores que aproximam transtornos alimentares da condição que, segundo Abdo, "coexiste em até 60% da população com transtornos de alimentação".

E quando o sofrimento com o corpo cresce, aumenta também o impacto sobre relações e sexualidade.

A psiquiatra Carmita Abdo observa que, em muitos casos, a vergonha profunda associada à bulimia se estende para o campo da intimidade. Isso ajuda a entender por que "parte das mulheres com bulimia tem experiências sexuais marcadas por impulsividade, baixa proteção, maior número de parceiros e iniciação precoce".

Por trás desses comportamentos, revela a médica, há frequentemente histórias de insegurança, rupturas afetivas, início tardio da sexualidade presencial e, nos últimos anos, um fenômeno crescente: a iniciação sexual exclusivamente virtual.

A facilidade de acesso e a privacidade permitem que essa atividade seja praticada "por vezes de forma compulsiva. 5, 6, 10, 20 atos sexuais por dia diante de um celular ou da tela de um computador".

Isso ocorre porque o circuito de recompensa é acionado de forma muito mais intensa, previsível e rápida pelas telas do que pelos encontros reais, que exigem vínculo, comunicação, tempo e exposição emocional.

O comportamento surge como tentativa de regulação emocional, e não necessariamente como busca de prazer sexual propriamente dito.

O psiquiatra Arnaldo Barbieri, psicoterapeuta pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), amplia o quadro ao falar do transtorno do comportamento sexual compulsivo — reconhecido na Classificação Internacional de Doenças (CID-11) como um transtorno de controle de impulsos.

Ele descreve que muitos comportamentos humanos funcionam como uma espécie de "alta natural" (natural high), como é o caso de exercícios e sexo. Há também highs químicas (como drogas) e highs comportamentais (como compras, jogos, internet e comida).

Nesse ponto de prazer intenso, explica, existe liberação de dopamina, o neurotransmissor ligado à recompensa — e é justamente isso que, em excesso, pode "se tornar uma confusão". Segundo Barbieri, a fronteira entre o hábito e a compulsão é a perda de controle.

É uma perspectiva que coloca diferentes expressões humanas dentro de um mesmo espectro impulsivo-compulsivo: quando a busca por alívio se transforma em urgência.

A fala do psiquiatra também costura um tema difícil, mas necessário: a relação entre transtornos alimentares e a formação de disfunções sexuais. Ele afirma que a dismorfia corporal "pode preceder a alimentação" e alerta que deve ser investigada com cuidado para evitar a progressão de quadros alimentares e sexuais simultaneamente.

O fio que une essas duas áreas é a autoimagem: quanto mais distorcida, maior a probabilidade de a pessoa evitar vínculos, expor menos o corpo, sentir vergonha da sexualidade e buscar formas virtuais ou compulsivas de satisfação.

Doença psiquiátrica apresenta maior taxa de mortalidade

Se a bulimia nervosa frequentemente se conecta à impulsividade, a anorexia nervosa revela outra face do sofrimento.

O psiquiatra Diego Fraga lembra que, desde o século XIX, o transtorno é entendido como um distúrbio de origem psicológica — e altamente letal.

"A morbidade apresenta uma das mais altas taxas de mortalidade entre os transtornos psiquiátricos, perde apenas para overdoses por uso de opioides", destaca.

Em parte dos casos, o risco envolve complicações clínicas graves; em outra parte, suicídio. "Alarmantemente, estima-se que cerca de 20% das mortes em anorexia nervosa são atribuídas ao suicídio."

O impacto na sexualidade, afirma, depende do subtipo. No padrão restritivo, marcado por rigidez, perfeccionismo e retraimento emocional, o desejo sexual tende a desaparecer. A ausência de fantasias e de motivação para intimidade é frequente.

No subtipo purgativo, mais associado à impulsividade, o envolvimento sexual pode ser maior, mas muitas vezes acompanhado de culpa intensa, experiências negativas e traços emocionais desorganizados.

Os dois grupos têm algo em comum: um corpo submetido à fome e desequilíbrios hormonais. A disfunção do reduz estrogênio e testosterona, que são responsáveis por modular o desejo sexual e a resposta fisiológica ao estímulo erótico.

Como resultado, essas alterações hormonais "comprometem diretamente o desejo sexual, a lubrificação, a excitação e a capacidade de atingir o orgasmo".

Esse vazio afetivo-hormonal ecoa na clínica. "Pacientes com AN-R frequentemente relatam retraimento íntimo, baixa motivação para contato físico e percepção da sexualidade como ameaça à imagem de controle", descreve.

A disfunção sexual não é uma consequência isolada, mas sim "um reflexo da complexidade clínica da anorexia".

Por isso o Diego Fraga ressalta a importância de desenvolver "estratégias terapêuticas mais eficazes e mais organizadas", que sejam integradas e humanizadas, para lidar com o impacto profundo e multifatorial que a anorexia nervosa exerce sobre a vivência afetivo-sexual.

Imagem corporal: o fio que costura todos os sintomas

O que conecta todos esses transtornos — anorexia, bulimia e compulsão alimentar — com a esfera sexual é a percepção distorcida e a insatisfação com a própria imagem corporal.

Essa autoimagem, como define o psiquiatra Claudio Meneghello Martins, é "a percepção subjetiva que temos do nosso próprio corpo".

"Como é que você se enxerga quando fecha os olhos?", questiona. A resposta é uma figura composta por quatro componentes: cognitivo (pensamentos e crenças), emocional (sentimentos sobre a aparência),

Para a sexualidade, a insatisfação gera um fenômeno chamado "distração cognitiva".

Durante o sexo ou outros tipos de exposição, a pessoa se sente invadida por "questionamentos invasivos" de que algo no seu corpo não está bom, o que prejudica a capacidade de ter uma experiência satisfatória.

Consequentemente, pode desenvolver a "evitação da intimidade", esquivando-se de situações que exponham o corpo.

A insatisfação corporal, acrescenta o médico, também se nutre de padrões culturais irreais, agora potencializados pelas redes sociais.

Essa busca por correção da autoimagem negativa, salienta ele, leva milhares de indivíduos a consultórios de dermatologistas e cirurgiões plásticos todos os dias.

Entre pacientes já fragilizados por transtornos alimentares como bulimia e anorexia, essa distorção pode atingir níveis incapacitantes.

"A percepção do próprio corpo é componente essencial da sexualidade saudável", frisa.

A experiência clínica mostra que nenhum sofrimento ligado ao corpo ou à sexualidade existe de forma isolada.

Compulsão, insatisfação corporal, medo de intimidade e descontrole alimentar costumam ser manifestações diferentes de uma mesma dor.

Por isso, buscar avaliação médica é essencial. Uma escuta qualificada permite identificar o que está na raiz de cada comportamento, distinguir o que é emocional, fisiológico ou social e orientar um plano de cuidado ajustado às necessidades de cada paciente.

O tratamento pode combinar psicoterapia, apoio psiquiátrico, intervenções nutricionais e fortalecimento de vínculos afetivos, sempre respeitando o ritmo e a história de cada pessoa.

Sinais de transtornos alimentares - quadro

Preocupação excessiva com o corpo

Isolamento social por sentir-se acima do peso

Praticar muita atividade física

Perda rápida de peso

Fazer dieta constantemente

Preocupa-se com tudo que vai ingerir

Alimenta-se longe de familiares e amigos

Sentimento de culpa após as refeições

Procurar motivos para não se alimentar

Estimular o vômito após as refeições

 

Fonte: Hospital de Saúde Mental Professor Frota Pinto (HSM)

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