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Os potenciais e os desafios para a economia em 2026
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Os potenciais e os desafios para a economia em 2026

| Análise | Eleições surgem como oportunidade de pautar temas importantes para o desenvolvimento econômico do Ceará e do Brasil no próximo ano, quando os setores produtivos projetam crescimento nas atividades
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Folhas salariais de novembro e dezembro, junto da segunda parcela do 13º salário, injetarão R$ 1,375 bilhão na economia fortalezense, diz Evandro (Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil)
Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil Folhas salariais de novembro e dezembro, junto da segunda parcela do 13º salário, injetarão R$ 1,375 bilhão na economia fortalezense, diz Evandro

Surpresa para muitos analistas ao longo de 2025, a economia brasileira - e também a cearense - tem em 2026 mais um ano decisivo, onde medidas estruturais e políticas públicas precisam estar alinhadas para que seja mais um período de expansão sólida e sustentável. As eleições, cravam os analistas ouvidos pelo O POVO, surgem como principal acontecimento e como espaço crucial de debate sobre temas caros para o bom desempenho da atividade econômica.

Já no primeiro trimestre do ano, o Brasil vai saber o tom da política de juros do Banco Central (BC). A manutenção da Selic em dois dígitos como forma de conter a inflação foi alvo de críticas severas do setor produtivo e lamentos do governo federal.

“A estimativa é de que a inflação vai fechar o ano de 2025 abaixo de 4,5%. Então, acredito que na primeira reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em janeiro, ou, na pior das hipóteses, em março, deve começar a iniciar um ciclo de redução dessa taxa de juros. Porque os efeitos já estão sendo sentidos na economia”, avalia João Mário de França, professor do mestrado em economia da Universidade Federal do Ceará (Caen/UFC) e pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Ele, assim como Wandemberg Almeida, presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará (Corecon-CE), acreditam que o patamar de 3% com centro da meta da inflação e 4,5% como teto não são adequados para o ritmo do País, mas “o problema já foi criado e rediscutir a meta pode causar um sobressalto maior ainda na economia”.

O temor quanto a manutenção dos dois dígitos da Selic mesmo com a queda da inflação tem explicação no efeito conjunto de juros e inflação é amplo e atinge os setores produtivos tanto no âmbito nacional quanto no estadual, fazendo com que setores-chave para o crescimento, como construção civil e comércio/serviços, tenham um freio se o consumo for inibido.

As pautas econômicas das eleições

“Outra coisa comum nos dois cenários, estadual e nacional, são as eleições. Quando é as eleições para prefeitos e vereadores, tem menos impacto. Mas a de presidente, governadores e deputados movimenta muito o País”, observa João Mário.

Cada vez mais dividindo holofotes e responsabilidades sobre as políticas públicas, Executivo e Legislativo terão os cargos em disputa neste ano e as propostas de candidatos a presidente, deputado e senador vão merecer muito mais atenção da população.

Entre os assuntos de maior relevância e com severa influência sobre a economia, como ressalta o presidente do Corecon-CE, está a segurança pública. “Mas não adianta promessas de mais policiais, de colocar mais pessoas dentro de um cercado. Não é pessoal de que estamos precisando, é de inteligência”, alerta sobre as promessas mais comuns feitas pelos candidatos.

Wandemberg observa que o tema precisa ser criteriosamente avaliado, pois tem ação direta sobre o consumo, o turismo e o funcionamento de comércios, inibindo os consumidores e gerando reflexo sobre todos os negócios. “A criminalidade acaba atrasando o desenvolvimento”, resume.

Mais uma pauta de apelo popular e que deve ser motivo de debate vigoroso nas eleições, segundo ele, é o fim da escala 6x1. As preocupações com a saúde mental dos trabalhadores e a redução da precarização do trabalho devem estar na esteira do tema que foi abraçado pelo governo federal e enfrenta resistência por alas do Congresso e associações do setor produtivo.

“Esse debate era pra ontem. O mundo está mudando, a economia está se diversificando e as pessoas não são máquinas. É importante ter uma escala diferenciada para tirar o melhor do funcionário”, defende.

Já João Mário pondera que, mesmo tendo espaço de debate, a redução da escala enfrenta resistência porque “a produtividade está estagnada na economia brasileira há muito tempo.” “A produtividade do trabalho não aumenta. Teve uma pequena melhora pós-pandemia de covid-19, mas depois essa melhora já foi anulada”, aponta.

Para o professor do Caen/UFC e pesquisador do Ibre/FGV, o debate das eleições de 2026 precisa envolver o controle de gastos pelos governos, a reforma administrativa e uma nova reformulação do arcabouço fiscal.

“Do jeito que foi construído, o arcabouço não dá a certeza, não dá uma tranquilidade de que o Brasil vai ter no médio e longo prazo a sustentabilidade da dívida pública. Pelo contrário, vai crescendo e já está chegando a um patamar de quase 80% de proporção do PIB. Então, o Brasil vai ter que ter uma outra regra fiscal. Eu acho que esse é o grande desafio da economia brasileira para 2027”, avalia.

Especificamente sobre o Ceará, João Mário afirma que é preciso olhar com cautela a cada promessa de novo setor que pode revirar a economia local para um cenário de progresso, e cita o que já aconteceu de expectativa sobre a chegada de uma refinaria, das usinas de hidrogênio verde e, agora, dos data centers.

“Não sou contra nada que aconteça. Mas é preciso olhar com cautela e não achar que isso é a bala de prata. Não é isso que vai fazer o Estado do Ceará, de repente, passar para um outro nível de desenvolvimento. O que vai fazer o estado do Ceará desenvolver continuamente é o esforço contínuo de determinados tipos de política”, diz.

Nesta perspectiva, ele aponta o cuidado com a saúde fiscal do Estado ao longo dos anos, tornando isso uma política de estado e fazendo com que o Ceará pudesse ampliar os investimentos públicos de forma a reduzir a desigualdade local. Esforços que motivam uma perspectiva positiva para 2026, conforme o presidente do Corecon-CE.

“O ano de 2026 promete para o Ceará. Temos o início dos investimentos em data centers, a operação da Transnordestina também. Percebemos que o Ceará, o Nordeste e o Brasil estão no rumo certo. O Brasil caminhando, mas o Ceará correndo”.

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FORTALEZA-CE BRASIL, 04-11-2024 Assinatura da parceria do O POVO com o Observatório da Indústria com Presidente da Fiec Ricardo Cavalcante, e Luciana e Joao Dummar Neto   (Foto Joao Filho Tavares O Povo)
FORTALEZA-CE BRASIL, 04-11-2024 Assinatura da parceria do O POVO com o Observatório da Indústria com Presidente da Fiec Ricardo Cavalcante, e Luciana e Joao Dummar Neto (Foto Joao Filho Tavares O Povo)

Indústria que se reinventa

Encerramos 2025 com a economia cearense apresentando desempenho superior à média nacional, resultado de um setor industrial que vem se reinventando a partir da inovação, diversificação produtiva e ampliação de sua inserção internacional. Esse movimento se manifesta tanto em cadeias tradicionais como alimentos, têxtil, vestuário, calçados, metalurgia e construção civil, quanto em setores de maior intensidade tecnológica, a exemplo das energias renováveis, hidrogênio verde, siderurgia, economia azul, data centers e saúde.

Os reflexos desse dinamismo são evidentes no mercado de trabalho. Do total de empregos formais gerados no Estado do Ceará em 2025, a indústria cearense respondeu por 42,6%, com destaque para os setores da construção civil, alimentos e calçados, reafirmando seu papel central na geração de oportunidades e renda. No comércio exterior, os resultados também foram expressivos: entre janeiro e novembro, as exportações cearenses cresceram 51%, frente a 1,8% do crescimento nacional, impulsionadas por produtos como aço, frutas, cera de carnaúba e minerais.

Ao projetar o olhar para 2026, me sinto confiante na continuidade desse ciclo positivo, especialmente com o avanço das obras da Transnordestina, que deverá representar um salto de competitividade logística, reduzindo custos e ampliando o alcance das nossas cadeias produtivas. Setores como a indústria de transformação, construção civil, energias limpas e os segmentos ligados à infraestrutura e à inovação tendem a ganhar ainda mais protagonismo.

Os desafios permanecem claros e exigem ação coordenada: a regulamentação do Fundo de Desenvolvimento Regional, a racionalização da carga tributária e a redução das taxas de juros são condições fundamentais para sustentar o crescimento. Superá-los é uma agenda estratégica para o novo ano. A indústria cearense entra em 2026 com disposição para investir, inovar, formar pessoas e ampliar mercados, reafirmando seu compromisso com um projeto de desenvolvimento que una competitividade, inclusão social e responsabilidade ambiental, com foco na produtividade, na geração de valor e na construção de um ambiente de negócios mais equilibrado e favorável ao crescimento.

Ricardo Cavalcante, presidente da Fiec

FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL, 13-09-2022: Sessão solene em homenagem aos 80 anos da Sinduscon, com a presença do deputado Carlos Matos. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)
FORTALEZA, CEARÁ, BRASIL, 13-09-2022: Sessão solene em homenagem aos 80 anos da Sinduscon, com a presença do deputado Carlos Matos. (Foto: Fernanda Barros/ O Povo)

Retomada da construção civil

O ano de 2025 entra para a história da construção civil cearense como um período de forte retomada e consolidação. Entre janeiro e outubro, o setor já superou todo o desempenho de 2024, alcançando um Valor Geral de Vendas superior a R$ 6,6 bilhões, o melhor resultado da última década na Capital e Região Metropolitana. Em número de unidades, registramos 13.099 vendas, o maior volume já alcançado pelo mercado imobiliário do Ceará. Somente em Fortaleza, foram quase 9 mil unidades comercializadas, um crescimento de 20% em relação ao ano anterior.

O crescimento expressivo do segmento econômico, que hoje responde por cerca de 70% das unidades vendidas, mostra a capacidade do setor de atender à demanda por moradia, especialmente com imóveis mais compactos e acessíveis. Ao mesmo tempo, o mercado de alto padrão e luxo segue firme, atendendo um público que continua investindo e buscando imóveis de maior valor agregado.

Para 2026, nossa expectativa é de manutenção desse bom desempenho, especialmente diante do cenário projetado para a taxa de juros. As sinalizações de queda da Selic apontam para uma redução já no início do próximo ano, com tendência de alcançar patamares próximos a 12% ao final de 2026. Esse movimento é extremamente positivo para o mercado imobiliário, pois amplia as condições de financiamento, sobretudo para as classes média e de menor renda, tornando o crédito mais acessível e estimulando a compra da casa própria. A redução dos juros tem impacto direto na confiança do consumidor e na capacidade de investimento, fortalecendo o ciclo de crescimento do setor.

Patriolino Dias de Sousa, presidente do Sinduscon Ceará

Fortaleza-Ce, Brasil: Família Filizola proprietária da rede de Farmácia Santa Branca. Projeto Legados 2024. (Foto: Anderson Gama)
Fortaleza-Ce, Brasil: Família Filizola proprietária da rede de Farmácia Santa Branca. Projeto Legados 2024. (Foto: Anderson Gama)

Comércio com parcerias

Sobre 2026, precisamos de algumas mudanças, inclusive, na parte da política de juros do Banco Central para equilibrar o setor. Temos a expectativa do início da reforma tributária. Embora, em um momento, eu diria mais restrito, porque entramos na fase de transição, mas isso vai se ampliar aí ao longo dos anos.

Mas as preocupações que estão no setor em 2026 é que nós temos uma situação de muitos feriados. Vai acontecer a Copa do Mundo de Futebol, temos as eleições para governador, deputados, senadores e presidente. Tudo isso mexe com o dia a dia do comércio. A CDL tem uma atuação importante de formação, em estar olhando o setor e ajudando. Esse é o nosso papel: de estimular, de buscar parcerias também com o poder público para equilibrar esse momento que eu digo que tem os seus desafios, mas também tem a vontade de vencer.

Acreditamos que cada empresário fazendo a sua parte, vendo um planejamento para a empresa, olhando para a gestão, a gente pode equilibrar. Claro que não pode ficar parado esperando acontecer. Nós temos que realmente observar, temos que planejar e colocar em prática esses planejamentos que as empresas já têm estruturados.

O cearense é uma referência até nacional no comércio. Isso faz parte da resiliência que temos de receber competidores no mercado local e também de sair para outros locais do País e até no exterior.

Maurício Filizola, presidente eleito da CDL de Fortaleza

FORTALEZA-CE, BRASIL, 07-04-2025: Amílcar Silveira, o presidente da Federação da Agricultura e Economia do Ceará (Faec), visitou o Jornal O Povo nesta tarde. (Foto: Júlio Caesar/O Povo)
FORTALEZA-CE, BRASIL, 07-04-2025: Amílcar Silveira, o presidente da Federação da Agricultura e Economia do Ceará (Faec), visitou o Jornal O Povo nesta tarde. (Foto: Júlio Caesar/O Povo)

Superação do tarifaço pelo agro

O ano de 2025 foi muito bom para o agro cearense. Devemos passar de 10% no aumento de exportações mesmo com o tarifaço que aconteceu. O setor produtivo aqui tem avançado muito e espero que no próximo ano a quadra chuvosa nos ajude a produzir mais. O nosso foco aqui no Ceará 2026 será o perímetro irrigado. Nós precisamos aumentar os trabalhos, substituir áreas de lavoura por itens de maior valor agregado. Essa é uma expectativa que eu tenho e que se Deus quiser nós vamos atingir. A gente precisa fazer uma utilização melhor do perímetro irrigado. A gente precisa desse salto para a agricultura e precisa do perímetro irrigado para isso.

Vamos implementar muita coisa no ano que entra, dentre eles o novo sistema de assistência técnica no perímetro irrigado com especialistas e espero que o governo coopere com isso. É preciso profissionalizar a gestão desses perímetros. Nós já fizemos a proposta de gerir um dos perímetros e fazer um projeto piloto.

Na pecuária, avaliamos que precisamos trazer um grande frigorífico para o Ceará e ainda vamos fazer um programa chamado Rota do Agro, que vai começar pelo Vale do Jaguaribe. A ideia é facilitar a vida dos lacticínios também.

O que vem nos preocupando mais é a questão da energia. Nós não crescemos mais porque não tem energia que dê suporte para a nossa produção. Chegando em janeiro, nós vamos reunir o setor produtivo, avaliar o que dói mais em cada um deles e procurar a distribuidora de energia. Temos olhado também com atenção a questão dos juros, porque crédito tem, mas os juros estão muito altos. Mas, apesar disso, eu estou muito otimista com o ano que vem.

Amílcar Silveira, presidente da Faec

FORTALEZA-CE BRASIL, 0-06-2024 Posse da nova diretoria da ABIH-CE, no Gran Marquise  o (Foto Joao Filho Tavares O Povo)
FORTALEZA-CE BRASIL, 0-06-2024 Posse da nova diretoria da ABIH-CE, no Gran Marquise o (Foto Joao Filho Tavares O Povo)

Promoção do turismo

Está sendo feito um trabalho muito bacana de parceria público-privada reunindo as secretarias municipal e estadual, o setor de eventos e nós dos hotéis para promover o nosso Estado. A gente tem um aquecimento muito grande dos eventos em Fortaleza, principalmente eventos corporativos, no que diz respeito a feiras e congressos e em 2026 deve ser melhor ainda porque os frutos ainda estão sendo colhidos.

Nós vamos ainda fazer ações conjuntas nas cidades que compram o Ceará como destino. São ações em aeroportos, shoppings e situações pontuais, principalmente, em São Paulo, tanto no Interior quanto na Capital. Vemos também Rio de Janeiro, algumas cidades do Norte e Nordeste.

Internacionalmente, vamos focar em todos os destinos que têm voos diretos saindo de Fortaleza. Ainda não sentimos tão eficazmente a ação dos novos operadores dos aeroportos de Jericoacoara e Aracati, mas acredito que a partir do momento que eles começarem a atuar, pois o investimento é muito alto, vai ser um novo momento para o aeroporto e o turismo local.

Com certeza muda completamente a realidade do destino. E outra: existe uma possibilidade do aeroporto de Jeri se tornar internacional. Se realmente acontecer, porque com a concessão aumenta absurdamente a chance para isso, será perfeito para o turismo cearense. A expectativa é muito boa para 2026.

Ivana Bezerra, presidente da ABIH

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