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Marcos Gouvêa de Souza: o desafio das bets e da escala de trabalho 5x2 no varejo
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Reportagem Seriada

Marcos Gouvêa de Souza: o desafio das bets e da escala de trabalho 5x2 no varejo

Empresário discute relações de trabalho, geopolítica, empreendedorismo brasileiro e importância da política não partidária

Marcos Gouvêa de Souza: o desafio das bets e da escala de trabalho 5x2 no varejo

Empresário discute relações de trabalho, geopolítica, empreendedorismo brasileiro e importância da política não partidária
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O paulista Marcos Gouvêa de Souza, de 76 anos, é um dos maiores estrategistas do varejo, consumo e distribuição no Brasil. Ele é fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem, um ecossistema de consultorias, serviços, tecnologias e eventos que atende empresas de diferentes portes e segmentos do mercado varejista.

Em mais de 35 anos de carreira, consolidou-se como referência técnica influente no setor, apostando na conexão entre estratégia e prática de negócios com visão de futuro, em um contexto econômico em contínua transformação. Nesse sentido, por exemplo, ele lembra na entrevista concedida ao O POVO, do tempo da hiperinflação e de como as empresas varejistas lidavam com os constantes aumentos de preços, com a criação em alguns casos até de moedas internas.

Como pensador do varejo, é ao mesmo tempo crítico da atuação dos diferentes governos na construção de um ambiente de negócios, mas também defende que o empresariado tome à frente de discussões políticas com potencial impacto não apenas na economia, mas em outros aspectos da sociedade, tais como a desigualdade e a insegurança.

Marcos Gouvêa de Souza, de 76 anos, é um dos maiores estrategistas do varejo, consumo e distribuição no Brasil, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA Marcos Gouvêa de Souza, de 76 anos, é um dos maiores estrategistas do varejo, consumo e distribuição no Brasil, fundador e diretor-geral da Gouvêa Ecosystem

“Falta integração dentro do próprio empresariado e com os poderes instituídos. E dentro do próprio empresariado tem uma razão. O modelo de representação da sociedade foi feito para dividir”, dispara.

Atua também como membro de conselhos de entidade representativas do setor, tais como o Instituto para o Desenvolvimento do Varejo (IDV), o Instituto Food Service Brasil (IFB) e o Ebeltoft Group, uma aliança global de consultorias especializadas em varejo presente em dezenas de países. E sobre política e economia global é crítico às políticas protecionistas de Trump, de quem diz com bom humor que deu três tiros no pé ao decretar o tarifaço contra o Brasil.

Também preside o Lide Comércio e ajudou a criar o Latam Retail Show, maior evento B2B (sigla inglesa para business to business, ou seja, de empresa para empresa), de varejo e consumo da América Latina.

Entre suas preocupações atuais estão o crescimento das bets e o impacto sobre o varejo, além das questões relacionadas ao mercado de trabalho, tais como a discussão sobre o fim da escala 6x1.

“De alguma maneira, ficar no 5x2 significa aumento de custos para as organizações. Mas é preciso reconhecer que você não pode nadar contra a maré o tempo inteiro. Se há um movimento nessa direção, é preciso encontrar alternativas, talvez o 5x2 estendendo o número de horas”, sugere.

Tem contribuído para ampliar a competitividade das empresas brasileiras no cenário global e é um entusiasta do espírito empreendedor brasileiro, dos MEIs às startups. Confira mais de seu pensamento na entrevista abaixo!

 

O POVO - Eu queria entender um pouco mais do seu contexto: como é que você chegou hoje nesse lugar de referência no varejo? Como foi essa sua trajetória?

Marcos Gouvêa - Quando eu estava na faculdade, na FGV, Fundação Getulio Vargas, eu acabei fazendo um trabalho de conclusão de curso sobre lojas de departamento. Não sei exatamente por que veio essa inspiração. O trabalho aparentemente ficou muito bom — a pesquisa, o estudo e tudo mais — e o professor gostou tanto que me pediu para apresentar em outras turmas, como exemplo de um trabalho bem realizado. Aquilo já me aproximou um pouco dessa história de varejo.

No fim da faculdade, esse mesmo professor estava fazendo consultoria para uma rede de supermercados, e eu fui convidado por ele para trabalhar nessa rede. Fiquei um tempo lá. Depois, nós passamos por uma grande rede de eletrodomésticos, que era líder no Brasil na época. Fizemos um crescimento enorme e eu acabei evoluindo, ficando membro do conselho, essas coisas todas.

Marcos Gouvea começou em uma rede de supermercados(Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025)
Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025 Marcos Gouvea começou em uma rede de supermercados

Depois de um tempo, eu saí e fui para um grupo internacional de varejo, associado com um grupo brasileiro, onde fiquei por cerca de dois anos. Com isso, eu tinha tido uma experiência em uma empresa nacional visionária no setor e também em uma empresa global líder no mercado europeu. Saí um pouco frustrado com as duas vertentes.

Há 38 anos, resolvi atuar como consultor, prestando serviços. Paralelamente, eu tinha desenvolvido muita coisa: dei aula, fiz muitas viagens ao exterior, participei de eventos internacionais e tudo mais. Para não começar do zero, nós nos associamos a uma grande empresa global de consultoria e auditoria, a PW.

Fizemos uma sociedade, o que permitiu que a gente tivesse uma visão de mundo e incorporasse práticas de gestão e consultoria.

'Tendo participado de outras entidades, percebemos que quando você tem todos os elos da cadeia envolvidos, a força para enxergar a realidade de uma maneira diferente — e agir de forma integrada — é muito maior'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'Tendo participado de outras entidades, percebemos que quando você tem todos os elos da cadeia envolvidos, a força para enxergar a realidade de uma maneira diferente — e agir de forma integrada — é muito maior'

Mas, depois de um tempo, por ser uma empresa de auditoria, eles tinham uma característica muito voltada a olhar para trás, para fazer auditoria. Consultoria pressupõe olhar muito para frente. Então, fizemos a separação da sociedade e começamos a acelerar o modelo. Isso nos trouxe até cerca de dez anos atrás, quando nos reconfiguramos como um ecossistema de negócios.

Hoje são 18 empresas que atuam no setor de serviços, incluindo pesquisa, estudos de mercado, consultoria, treinamento e também uma plataforma de comunicação importante. Desde o começo, nós nos posicionamos para ajudar a transformar os setores em que atuamos.

Uma forma de transformação era conhecer a realidade internacional e trazê-la para o Brasil, por meio dos programas e viagens que fazemos. Fazemos eventos no Brasil — como o Latam Retail Show — e também pela criação, desde o início, de uma plataforma que hoje se chama Mercado & Consumo, a mais acessada na área de varejo e consumo do Brasil, com notícias, informações, análises de mercado, pesquisas e tudo mais.

Ao longo do tempo, dentro dessa mesma ideia de contribuir para o desenvolvimento, nós nos envolvemos e participamos ativamente da criação do IDV, Instituto de Desenvolvimento do Varejo, há cinco anos.

Posteriormente, do IFB, Instituto Foodservice Brasil, que tem uma característica diferente, porque envolve toda a cadeia de valor do foodservice. Isso foi muito importante para nós, porque percebemos a relevância de olhar a cadeia de valor de maneira integrada.

Tendo participado de outras entidades, percebemos que quando você tem todos os elos da cadeia envolvidos, a força para enxergar a realidade de uma maneira diferente — e agir de forma integrada — é muito maior.

Hoje, estamos reproduzindo esse modelo nos setores de móveis, moda e pet, promovendo a integração da cadeia de valor. Especialmente num país polarizado como o Brasil, e num mundo polarizado, pensar de forma integrada traz benefícios tão maiores que eu virei quase que um pregador da integração.

Hoje temos esses negócios todos. Temos uma grande área de turismo e viagens também. São 18 negócios que operam de maneira integrada, mas com uma integração virtuosa: compartilhando o que faz sentido e mantendo independência para que cada um se movimente mais rapidamente, sem um controle central rígido.

Aparentemente, esse modelo de organização e gestão parece fazer cada vez mais sentido no cenário de transformação do mundo, onde é preciso integrar para ser mais competitivo e de forma mais rápida, mas, ao mesmo tempo, você precisa ter independência, flexibilidade e agilidade em relação à transformação que está ocorrendo.

'O varejo brasileiro é flexível, ágil, resiliente e competente. Se não fosse assim, não teria sobrevivido'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'O varejo brasileiro é flexível, ágil, resiliente e competente. Se não fosse assim, não teria sobrevivido'

OP - E essas transformações acontecem o tempo todo, como você falou…

Gouvêa - E cada vez de forma mais intensa, especialmente nas áreas em que atuamos. No epicentro de tudo está o omniconsumidor, que também é cidadão e tem tudo ao alcance de um clique. Isso está determinando a velocidade das mudanças, que nós temos conhecido, aceleradas por tudo o que o digital e a inteligência artificial estão trazendo.

OP - E, principalmente no varejo, que você lida diretamente com o consumidor e onde ele é a peça principal.

Gouvêa - Ele é o epicentro de tudo, e é um epicentro cada vez mais volátil e volúvel porque ele é disputado a todo momento, de uma forma cada vez mais intensa.

OP - Não só regionalmente, mas globalmente…

Gouvêa - Você tem marketplaces que tiram um produto do interior da China e entregam na casa de um cliente no interior do Ceará em uma semana ou dez dias, desintermediando todo o processo. Isso cria a dinâmica de mercado que muitas vezes nos assusta pela velocidade com que tudo isso tem acontecido.

OP - Você falou da questão da integração, mas atualmente o mercado do varejo não atua totalmente nesse processo de integração. Queria que você desse um panorama geral de como atua o varejo brasileiro hoje em dia!

Gouvêa - O varejo brasileiro é flexível, ágil, resiliente e competente. Se não fosse assim, não teria sobrevivido. Ele foi forjado em um ambiente de hiperinflação. Quem não viveu isso não tem exatamente a ideia do que era operar num ambiente hiperinflacionário em que os preços mudavam todos os dias, às vezes mais de uma vez por dia. Isso exigia dinamismo, flexibilidade, inovação e criatividade.

Marcos Gouvea lembra que o varejo brasileiro foi forjado em um cenário de hiperinflação(Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025)
Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025 Marcos Gouvea lembra que o varejo brasileiro foi forjado em um cenário de hiperinflação

Algumas redes chegaram a criar moedas internas para evitar a troca constante de preços. Vale 1 X. O X era a moeda interna. Isso foi criatividade brasileira, impulsionada pela necessidade. No pós-pandemia, quando o mundo voltou a enfrentar um ciclo de inflação, vimos empresas internacionais desesperadas com 10% ao ano — algo que o Brasil já viveu semanalmente no passado.

O mercado brasileiro foi forjado nessas características. Isso traz uma característica empresarial brasileira que é muito forte: resiliência, flexibilidade, adaptabilidade, mas também uma deformação importante, que é a dificuldade de pensar no longo prazo. O Brasil, como nação, não tem um projeto de longo prazo.

Não é só o varejo. Nós temos uma deformação.

Este seria um momento mágico para o Brasil poder aproveitar o cenário global polarizado como está e com os recursos naturais que nós temos para crescermos em relevância no cenário global. E, ao contrário, as oportunidades estão escapando pelos dedos, e nós não estamos aproveitando para tirar partido dos nossos diferenciais, importantes para o mundo, neste momento, especialmente na área de alimentos.

OP - O que falta para gente tomar essa iniciativa?

Gouvêa - Pessoalmente, eu entendo que cabe ao setor empresarial assumir a responsabilidade de ser mais protagonista nas questões que envolvem a nação. A lógica é um pouco parecida com a questão da integração que eu vinha falando. A complexidade de tudo é muito grande.

Marcos Gouvêa concedeu entrevista ao repórter João Victor Dummar, do O POVO, no contexto do Lide Ceará, o Grupo de Líderes Empresariais multisetorial e multilateral(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA Marcos Gouvêa concedeu entrevista ao repórter João Victor Dummar, do O POVO, no contexto do Lide Ceará, o Grupo de Líderes Empresariais multisetorial e multilateral

A gente vai repetir isso algumas vezes, mas é real. Liderar hoje em dia pressupõe uma capacidade de se adaptar às transformações constantes e contínuas. E nem sempre o governo tem a competência para fazer isso. Ao contrário, muitas vezes, o governo traz ranço político ou do passado, ou de vínculos políticos que faz com que ele seja menos ágil e menos adaptativo e se transforme, de dentro para fora. Já o setor empresarial vive disso. O setor empresarial necessariamente tem a visão macro do mundo. Acompanha as transformações.

Desenvolveu a capacidade de se adaptar e se ajustar. É preciso, então, que o setor empresarial assuma uma responsabilidade adicional de contribuir para transformar o País. Não dá para ficar acompanhando e vendo o aumento da insegurança, da desigualdade e da perda de oportunidades e perceber que nós estamos indo para um caminho onde outros já foram e recuaram.

Minha tese pessoal é a de que o setor empresarial deveria criar uma proposta para a nação que vá além da próxima eleição. Tudo hoje vai até a próxima eleição, e depois começa tudo de novo. Assim não se constrói uma nação. Nós vamos construir talvez um País que sobrevive a duras penas mas não vamos construir a nação que de direito poderíamos e deveríamos.

OP - Falta um pouco dessa integração em relação ao empresariado e ao governo. Falta uma união para irem juntos…

Gouvêa - Sejamos justos! Falta integração dentro do próprio empresariado e com os poderes instituídos. E dentro do próprio empresariado tem uma razão. O modelo de representação da sociedade foi feito para dividir. Você tem os sindicatos patronais, os sindicatos de empregados. Você tem toda uma estrutura do tempo sindical, baseada na premissa de dividir para governar, que vem de Maquiavel.

Para Marcos Gouvêa, falta integração dentro do próprio empresariado(Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025)
Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025 Para Marcos Gouvêa, falta integração dentro do próprio empresariado

Mas o mundo atual exige exatamente o contrário: integração para criar soluções conjuntas. Nós trabalhamos um conceito chamado “metafusão”, quando organizações empresariais combinam recursos para desenvolver soluções mais rapidamente e pragmaticamente.

Vamos pegar o caso da Magalu com AliExpress. Eles criaram uma vertente de negócios em comum para acelerar o seu desenvolvimento. A Magalu continua sendo Magalu e AliExpress continua sendo AliExpress, mas desenvolveram uma frente em que eles podem acelerar e caminhar mais rápido.

Recentemente, a chinesa Meituan anunciou o início da operação da Keeta, que é a plataforma de delivery deles. O que o iFood e o Uber fizeram? Se integraram para poder trabalhar mais rápido para de alguma maneira cercear o crescimento do concorrente que anunciou um investimento de US$ 1 bilhão no Brasil para começar a operar agora no fim do ano.

Você tem inúmeros exemplos onde as organizações estão se compondo. Cada um mantém sua identidade, mas cria frentes conjuntas para acelerar.

OP - Como se fosse um acordo de colaboração para que desenvolver o mercado?

Gouvêa - O termo convencional é parceria. É que parceria é um termo muito genérico. Isso é uma combinação para desenvolver negócios em comum. De maneira, a permitir acelerar o processo e não passar pelo drama todo da fusão, que para começar tem de aprovar no Cade.
Hoje, você pode fazer tudo o que você puder. Só não pode perder tempo.

 

 

OP - Você falou um pouco da questão de como o mercado brasileiro se desenvolve e inova, de certo modo. Eu queria falar um pouco mais desse aspecto da inovação. Como você vê a forma que o mercado brasileiro vem inovando e também no sentido do uso da inteligência artificial, na prática atual?

Gouvêa - A gente tem uma tendência de ser muito crítico com as coisas do Brasil, mas que queria reforçar o que o Brasil tem de competência, na gestão e desenvolvimento de negócios e temos exemplos de empresas brasileiras que são benchmarking mundial como JBS, Weg, Boticário, Cacau Show. Nós temos uma competência estratégica no Brasil que precisa ser melhor aproveitada, explorada e promovida.

O que nos aflige? O problema é um país excessivamente complexo, burocrático, travado, enquanto o mundo pede agilidade.

Marcos Gouvêa vê País com força em inovação(Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025)
Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025 Marcos Gouvêa vê País com força em inovação

No varejo, o dinamismo é natural pela proximidade com o consumidor que tem tudo a um toque.

Empresas como o Boticário mostram isso com ecossistemas flexíveis, múltiplos canais e modelos de negócio integrados por uma gestão simples e adaptável e rápida em fazer as coisas. Várias outras empresas brasileiras dos mais variados modelos seguem essa mesma lógica. Nós não temos isso do lado do governo. E aí volta aquela tese que eu estava falando da importância do setor empresarial se aproximar porque não vale ficar só reclamando, vociferando que não pode isso, não pode aquilo.

Tem que acontecer de forma diferente. E alguém já disse: se você não gosta de política, prepare-se, porque você vai ser administrado por alguém que goste.

'No mundo ocidental, você não pode usar tanto a inteligência artificial acoplada ao reconhecimento facial por causa das leis gerais de proteção de dados'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'No mundo ocidental, você não pode usar tanto a inteligência artificial acoplada ao reconhecimento facial por causa das leis gerais de proteção de dados'

OP - A política hoje em dia está em tudo. Você não precisa estar nesse meio?

Gouvêa - O que talvez precisemos separar é a política pura da política partidária. A política partidária tem seus vieses, mas a política como exercício de busca de crescimento, expansão, desenvolvimento, redução da desigualdade e redução da insegurança é um elemento cada vez mais importante. E nós temos que, de alguma maneira, perceber que ou a sociedade, e particularmente o setor empresarial, se mobiliza para fazer isso acontecer, ou nós estamos desperdiçando uma oportunidade histórica como a que temos neste momento.

OP - E sobre a questão do uso da IA no processo do varejo?

Gouvêa - Não é no varejo, é em tudo. O que nós não podemos perder de vista é que o uso da tecnologia, sob todas as suas formas — mas também a IA — tem acontecido no mundo todo numa velocidade marcante, mas é na Ásia onde ela ainda é maior.

E por quê? Porque, pelo bem ou pelo mal, na Ásia você tem menos restrições a algumas coisas. Eu tenho contado como exemplo. Você tem lojas na China que, usando inteligência artificial incorporada ao reconhecimento facial e à identificação do seu perfil, customizam a sua experiência.

Desde o tipo de música que você pode gostar, as cores, o ambiente, usando telas, e daí para frente. No mundo ocidental, você não pode usar tanto a inteligência artificial acoplada ao reconhecimento facial por causa das leis gerais de proteção de dados. Mas lá é possível.

E você tem coisas no meio-termo, porque na Coreia você já pode usar programas de relacionamento, fidelidade, essas coisas todas, para reconhecer o cliente e oferecer experiências customizadas. Então, nós estamos vendo e vamos assistir, de uma forma intensiva, o uso da inteligência para racionalizar, melhorar a produtividade, simplificar e permitir redução de custos, que, gostemos ou não gostemos, vai ser, a cada momento, cada vez mais relevante.

Porque, do outro lado, lá na ponta, tem um consumidor que está comparando preço, condição e avaliando absolutamente tudo, e vai buscar onde ele tem a melhor relação custo-benefício, que não é só preço. Relação custo-benefício significa, no numerador, o valor e no valor você tem o produto em si, o ambiente, a experiência, a informação, a garantia, tudo que se incorpora

OP - Você fala do valor agregado?

Gouvêa - É tudo que você incorpora no numerador. E no denominador você vai ter o preço e as condições. E nós estamos processando isso em tempo integral e decidindo o que comprar, onde comprar e quanto pagar nesse processamento contínuo. A diferença é que isso sempre foi feito dessa maneira. Só que agora, pela inteligência, pela tecnologia, pelo digital, você tem isso com uma facilidade enorme e, muitas vezes, recebe já pronto, porque ele está um passo à frente e traz respostas.

Marcos Gouvêa é entusiasta de expansão de startups(Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025)
Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025 Marcos Gouvêa é entusiasta de expansão de startups

OP - Você falou um pouco da questão do mercado e de como o mercado, de certo modo, soluciona problemas. E recentemente eu vi um dado do IBGE que diz que o Brasil tem mais de 20 mil startups iniciadas aqui. E a startup está muito nesse processo de resolver uma problemática, alguma questão. Em relação a isso, como é que você vê essa chegada de universidades, startups, e como elas atuam hoje em dia? Algumas pessoas falam que elas ainda estão em processo inicial, que têm muito para desenvolver. Como é que você enxerga isso?

Gouvêa - Bom, em primeiro lugar, o quão saudável isso é por dois aspectos. De um lado, o fato de você ter um número crescente de startups incorporando soluções usando tecnologia, inteligência artificial e digital para melhorar a vida das pessoas, melhorar os processos, melhorar tudo.

'Os modelos tradicionais da nossa educação ajudavam as pessoas a administrar, a ir trabalhar para empresas como executivos. Mas agora você tem uma outra cultura que estimula demais o empreendedorismo'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'Os modelos tradicionais da nossa educação ajudavam as pessoas a administrar, a ir trabalhar para empresas como executivos. Mas agora você tem uma outra cultura que estimula demais o empreendedorismo'

Em segundo lugar, e muito importante, o que isso significa na transformação da sociedade pela incorporação de um crescente espírito empreendedor. Os modelos tradicionais da nossa educação ajudavam as pessoas a administrar, a ir trabalhar para empresas como executivos. Mas agora você tem uma outra cultura que estimula demais o empreendedorismo.

E o brasileiro tem uma característica, por tudo aquilo que nós falamos, de ter passado por todas as vicissitudes e, daí para frente, de desenvolver uma capacidade natural de se adaptar às mudanças. E quando ele incorpora essa tendência natural com o espírito empreendedor, nós estamos criando, provavelmente, uma geração que vai fazer com que as coisas aconteçam mais rápido no Brasil.

Desde que, e somente se, nós não estejamos travando isso pela legislação, pela burocracia, pelo desestímulo e, pior, empurrando para fora do Brasil capacidade e talento da juventude que se frustra com o país em que vive, pela insegurança e tudo aquilo que nós falamos até agora.

OP - Tem aquela metáfora que compara a startup com um barco e uma grande empresa com um cruzeiro, no sentido de que é muito mais fácil manobrar. Você acha que as startups talvez seriam uma alternativa para os empreendedores poderem crescer nesse mercado difícil e burocrático brasileiro?

Gouvêa - O mercado já está respondendo. Nós somos 15 milhões de MEIs no Brasil. Porque isso faz parte de um processo de reconfiguração do trabalho no mundo. E no Brasil nós temos toda a pressão da legislação trabalhista que inibe, e o caminho dos MEIs permitiu, de alguma maneira, caminhar ao lado e de forma independente.

A forma do trabalho no Brasil tem que ser ainda mais rapidamente mudada, porque o mundo está reconfigurado nesses aspectos todos, pelo digital, pela inteligência artificial, por tudo isso. E, ao contrário, ainda se usam coisas do passado para travar, para inibir.

'As startups se inserem, de alguma maneira, nesse contexto maior da reconfiguração do emprego, do trabalho e do cenário econômico como um todo'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'As startups se inserem, de alguma maneira, nesse contexto maior da reconfiguração do emprego, do trabalho e do cenário econômico como um todo'

Então, não é por outra razão que temos 15 milhões de MEIs. É porque eles estão buscando uma alternativa de mercado para se desenvolver. Não é por outra razão que o Brasil é um dos maiores mercados do mundo em franquias. É a mesma lógica. Então, as startups se inserem, de alguma maneira, nesse contexto maior da reconfiguração do emprego, do trabalho e do cenário econômico como um todo.

OP - Fazendo uma comparação do mercado brasileiro com outros cenários do exterior, você acha que o mercado brasileiro é um dos mais desenvolvidos no mundo ou ainda tem muito para andar?

Gouvêa - É, o genérico dos “mais desenvolvidos” tem que ser fatiado. Eu diria que, em espírito empreendedor, sem dúvida nenhuma, é um dos mais desenvolvidos. Por outro lado, o custo de capital no Brasil acaba sendo um inibidor desse desenvolvimento. Porque, se houvesse mais acesso ao capital, e a um custo mais barato, nós veríamos um país criando muito mais soluções, muito mais alternativas.

Hoje, você vê uma situação em que o custo de capital e as taxas de juros inibem o desenvolvimento de mais negócios.

OP - Em relação à operação, a gente vê muitos problemas em relação à mão de obra, principalmente no varejo e em vários outros setores. Como é que você enxerga essa problemática e como as empresas podem fazer para atrair essa mão de obra que vai indo para Uber ou para outros setores?

Gouvêa - Excelente ponto. Vamos lembrar que nós temos hoje no Brasil uma deformação. Porque nós temos perto de 21 milhões de famílias dependentes dos programas de assistência. O Bolsa Família é só um deles.

'Os programas sociais têm um papel fundamental, mas precisam ser mudados radicalmente e rapidamente'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'Os programas sociais têm um papel fundamental, mas precisam ser mudados radicalmente e rapidamente'

Estima-se que são 54 milhões de pessoas envolvidas só com o Bolsa Família, mas, no total dos programas assistenciais, esse número chegaria a até 90 milhões.

Os programas são importantíssimos e precisam ser mantidos e aperfeiçoados. O que não pode é ter um programa que inibe o emprego formal, porque, quando ele faz isso, ele está empurrando grande parte da população para a economia informal. O cara não pode ter um emprego com registro em carteira e vai ficar fazendo bico o tempo inteiro.

OP - E os dados mostram que isso cresce…

Gouvêa - O emprego informal cresceu muito. Tanto é que nós temos hoje uma situação quase esdrúxula: um dos menores índices de desemprego da nossa história e, no entanto, um contingente enorme de pessoas que não procura emprego e, portanto, não entra na estatística do desemprego, ficando na informalidade, em boa parte por causa do Bolsa Família.

Insisto: os programas sociais têm um papel fundamental, mas precisam ser mudados radicalmente e rapidamente. Infelizmente, questões políticas e a proximidade das eleições tendem a protelar essa mudança, mas ela precisa ser feita.

Porque, para além desse problema macroeconômico e da informalidade, você tem outra questão: que é criar uma geração que recebe benefício e não precisa trabalhar formalmente. Isso cria uma cultura que é a antítese do que o país precisa neste momento: desenvolvimento pessoal, crescimento e educação.

OP - Como se fosse uma cultura da acomodação, de certo modo…

Gouvêa - Esperando o Estado te dar o benefício. Ao contrário, as economias que se desenvolvem e são exemplo no mundo são aquelas que estimulam o estudar e o crescer. Você vai à Coreia, a disputa por uma vaga na universidade envolve a família inteira. Isso não está acontecendo no Brasil e faz parte dos pilares que deveriam ser alterados.

OP - E, no aspecto de como as empresas conseguem atrair essa mão de obra que vai indo, como é que você enxerga esses atrativos?

Gouvêa - Bom, é um enorme desafio, na medida em que, primeiro, há toda uma cultura hoje de valorização do home office. Cada empresa é uma realidade, mas se percebe que o home office, de alguma maneira, conspira contra a formação e o desenvolvimento da cultura empresarial, da cultura de uma organização. E há um sentimento de que os jovens estão começando a querer viver a vida antes de se desenvolverem como cidadãos, como profissionais.

Então, sim, é um desafio enorme para as lideranças empresariais, para as lideranças dos negócios: como você atrai, como você retém. Aparentemente, tudo envolve muito criar propósito.

'O varejo e a hospitalidade são setores que têm uma carga de trabalho muito grande. Atendem sete dias por semana. Em horários estendidos, porque o consumidor, na ponta, quer conveniência plena'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'O varejo e a hospitalidade são setores que têm uma carga de trabalho muito grande. Atendem sete dias por semana. Em horários estendidos, porque o consumidor, na ponta, quer conveniência plena'

Especialmente os mais jovens, eles atuam em organizações com as quais se identificam em termos de propósito, com as quais se identificam em relação à proposta, à razão de ser da organização. O dinheiro é relevante, sempre será relevante. Mas a razão de ser de uma empresa, de uma marca, de uma organização, e a cultura que viabiliza isso, se tornaram ainda mais importantes.

Então, especialmente para as lideranças, ser aquele exemplo e ser aqueles que conduzem baseados em cultura, valores, visão de futuro e capacidade de errar — errar rápido, corrigir e mudar — são elementos que atraem os jovens que buscam um contínuo de experiência e crescimento.

OP - Eu acho que, mais para além de atrair, a principal questão hoje em dia é reter. Porque hoje em dia tem uma cultura muito de “ah, não tô gostando daqui, vou para outro canto” e tal. E esse é um dos problemas…

Gouvêa - E isso está sendo agravado pelo cenário atual, onde falta gente para trabalhar. Está aí o baixo desemprego. Então, ao faltar gente, você, de alguma maneira, está estimulando a rotatividade, a rotatividade por motivação pessoal. E você tem que agir para tentar inibir isso. E um dos elementos importantes, particularmente, é que varejo e hospitalidade são os setores mais prejudicados pelo cenário atual de falta de gente.

E, se falta para recrutar, o reter se torna mais complexo ainda. E você só retém se você tem esses elementos que vão além do simples emprego e envolvem um projeto.

OP - Por que você acha que o varejo e a hospitalidade, como você falou, são os principais prejudicados?

Gouvêa - E não é só no Brasil, tá? No mundo. Por quê? O varejo e a hospitalidade são setores que têm uma carga de trabalho muito grande. Atendem sete dias por semana. Em horários estendidos, porque o consumidor, na ponta, quer conveniência plena. Ele quer poder encontrar o serviço ou o produto onde, quando e como ele quiser. Isso faz com que esses setores tenham que, necessariamente, ter operações atuando por um período longo de tempo, todos os dias da semana, o ano inteiro.

OP - Isso remete a uma questão que a gente teve recentemente, que foi aquela polêmica em relação à escala 6 por 1, né? Como é que você enxerga essa situação, essa discussão em relação ao varejo no geral?

Gouvêa - Bom, algumas organizações já estão testando o 5 por 2. De alguma maneira, ficar no 5 por 2 significa aumento de custos para as organizações. Mas é preciso reconhecer que você não pode nadar contra a maré o tempo inteiro. Se há um movimento nessa direção, é preciso encontrar alternativas, talvez o 5 por 2 estendendo o número de horas, porque também nós não podemos ignorar que não dá para aumentar custo.

No cenário atual, onde o consumidor está comparando preço o tempo todo, se você aumenta custo, você não consegue repassar isso para o consumidor. Então, talvez o 5 por 2 numa outra escala de horário.

'O governo, de forma geral, não tem competência suficiente para resolver todos os problemas de uma nação. É preciso trabalhar mais no plano da própria sociedade e do setor empresarial para criar esses modelos alternativos'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'O governo, de forma geral, não tem competência suficiente para resolver todos os problemas de uma nação. É preciso trabalhar mais no plano da própria sociedade e do setor empresarial para criar esses modelos alternativos'

OP - Então, a escala 5 por 2 talvez seria uma alternativa para atrair essas pessoas que, de certo modo, fogem dessa escala?

Gouvêa - É uma alternativa, mas teria que ser reestruturada em termos do número de horas, porque não é possível oferecer o benefício sem que haja aumento de custo. Então, tem que repensar o modelo que consiga manter custos, tá certo? Oferecendo mais benefícios.

OP - E esse repensar de modelo que você fala talvez seria alguma coisa voltada para políticas governamentais nesse aspecto?

Gouvêa - Sendo honesto, tem que sair fora do governo. O governo, de forma geral, não tem competência suficiente para resolver todos os problemas de uma nação. É preciso trabalhar mais no plano da própria sociedade e do setor empresarial para criar esses modelos alternativos. Porque, nesse cenário, como nós estamos falando o tempo inteiro — velocidade de mudança, velocidade de transformação —, se for querer centralizar no governo, criar e impor soluções, vai dar erro.

'A alternativa é criar mecanismos para que os pequenos se integrem, se tornem mais competitivos e possam oferecer aquilo que o consumidor quer, numa condição de preço menor'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'A alternativa é criar mecanismos para que os pequenos se integrem, se tornem mais competitivos e possam oferecer aquilo que o consumidor quer, numa condição de preço menor'

Veja o caso dos programas de auxílio. A proposta é corretíssima, mas está demorando demais para avançar, modernizar e se adequar à realidade.

OP - Precisa de uma agilidade muito maior.

Gouvêa - E, se você ficar dependente do governo para isso, você trava. Definitivamente trava.

OP - Trazendo outro ponto que você falou, que é justamente a competição com as empresas da China e as grandes empresas, como Amazon, que atuam aqui no mercado. Como as empresas menores, de certo modo, podem competir com essa agilidade que elas têm?

Integrando, não tem opção. Pelo seguinte: hoje a sobrevivência desses pequenos está totalmente atrelada à informalidade, tá certo? E aí você tem uma situação dramática, porque você tem um nível alto de informalidade no país e a perspectiva de que isso se torne ainda mais difícil.

Porque, à medida que vem uma reforma tributária que vai aumentar a carga de impostos, a consequência direta é o aumento da informalidade. O pequeno hoje depende da informalidade para sobreviver e competir com as organizações maiores.

E aí o encargo todo do governo, do Estado, fica na mão de um número menor de empresas pagando mais impostos. A equação não fecha. Então, a alternativa é criar mecanismos para que os pequenos se integrem, se tornem mais competitivos e possam oferecer aquilo que o consumidor quer, numa condição de preço menor.

OP - Agora, trazendo um pouco dos assuntos que estão em alta nesse momento, se discute muito a questão da isenção de imposto de renda para pessoas que ganham até cinco mil reais, se eu não me engano. Você acha que o varejo vai se beneficiar de alguma forma com relação a essas pessoas? Você acha que pode aumentar o consumo?

Gouvêa - De forma indireta, sim. Porque, em tese, essa faixa entre os que estão excluídos hoje e os novos que serão incluídos iria para consumo. Porém, estima-se que este ano R$ 220 bilhõesvão para bets.

Então, é mais provável que esse recurso migre para as bets ao invés do consumo da economia como um todo.

Esse tema das bets é extremamente importante, e a sociedade está compactuando, porque as bets, travestidas de entretenimento, estão tirando renda e emprego, esterilizando recursos das famílias que estão sendo alocados para o jogo.

OP - Então, o varejo enxerga as bets como uma problemática.

Gouvêa - O varejo, os serviços, a economia, o país. Quem ganha com as bets são os operadores de bets e o governo, que tributa alguma coisa.

OP - É, de fato, um grande problema na nossa sociedade e ainda não foi totalmente mapeado nesse sentido.

Gouvêa - Está sendo mapeado. No ano passado, foram estimados R$ 119 bilhões. Este ano, estimados R$ 220 bilhões. E essas seriam as bets oficiais. Porque ainda existe uma parcela de bets informais, que não se sabe quanto estão tirando de recurso da economia real para ficar nessa economia artificial do entretenimento.

'No passado, você pensava numa indústria como a Unilever, que tinha o sabão em pó Omo. Hoje, você tem um ecossistema que opera na produção, na distribuição e na solução, com lavanderia entregando a roupa lavada'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'No passado, você pensava numa indústria como a Unilever, que tinha o sabão em pó Omo. Hoje, você tem um ecossistema que opera na produção, na distribuição e na solução, com lavanderia entregando a roupa lavada'

OP - Então, voltando a esse aspecto da indústria vendendo diretamente para o cliente...

Gouvêa - Esse é um movimento irreversível. Desculpa interromper a tua pergunta. Não. Mas por que isso? Nós estamos falando de aumento de custo, aumento de competitividade, mercado cada vez mais concorrencial e, na ponta, um consumidor que tem mais informação e tem o poder na mão.

Então, eu tenho que encontrar alternativas para chegar diretamente nele de uma forma mais barata, mais simples, mais fácil. Esse é um movimento que a indústria começou há muito tempo, mas que tem se acelerado. E agora elas estão, para além de chegar no consumidor final com o produto, chegando também com o serviço.

No passado, você pensava numa indústria como a Unilever, que tinha o sabão em pó Omo. Hoje, você tem um ecossistema que opera na produção, na distribuição e na solução, com lavanderia entregando a roupa lavada.

Então, é uma transformação estrutural. Você pega a JBS, operando a Swift. É uma forma de chegar no consumidor final, seja pelo aspecto logístico, competitivo, mas principalmente para estar com o dedo no pulso do consumidor, sentir, conhecer o que ele prefere e agir rapidamente para se adequar.

'Então, a sociedade madura oferece mais serviço e solução, porque você não compra geladeira todo mês. Mas educação, lazer, restaurante, viagem, cuidado pessoal — isso é todo mês'(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA 'Então, a sociedade madura oferece mais serviço e solução, porque você não compra geladeira todo mês. Mas educação, lazer, restaurante, viagem, cuidado pessoal — isso é todo mês'

OP - É uma estratégia interessante. E, por outro lado, algumas empresas do varejo, como Riachuelo e Renner, têm buscado oferecer crédito aos consumidores para tentar atrair.

Gouvêa - O que isso significa na prática? Uma sociedade, quando amadurece, compra muito mais serviços do que produtos. Nas economias mais modernas do mundo, os serviços representam de 80 a 82% do PIB. A única exceção é a China, com 54%. O Brasil está em 72% do PIB em serviços.

Então, à medida que a economia amadurece, ela se torna mais dependente de serviços. E os serviços são de toda natureza. O varejo brasileiro é benchmark global na incorporação de serviços financeiros. No Carrefour, perto de 55% do resultado vem de serviços financeiros. Na Renner, cerca de 38%, no Magalu, perto de 40%.

Por quê? Porque você está oferecendo serviços, aproveitando uma relação histórica com o consumidor e resolvendo a vida dele num só local, com uma só marca. Estamos falando principalmente de serviços financeiros, mas também de serviços como o da Baterias Moura: você compra pelo aplicativo, o cara entrega na sua casa e instala no carro. Isso é serviço e solução.

Então, a sociedade madura oferece mais serviço e solução, porque você não compra geladeira todo mês. Mas educação, lazer, restaurante, viagem, cuidado pessoal — isso é todo mês. É uma forma de fidelizar e de amplificar a oferta, entregando solução para o cliente.

OP - E em relação às políticas do Trump. A gente vê muito processo de internacionalização das empresas brasileiras. Você acha que houve um impacto forte no varejo, principalmente nesse processo de internacionalização para os Estados Unidos?

Gouvêa - Bom, vamos colocar isso numa perspectiva maior. Em agosto, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram cerca de 18%, mas, no total, cresceram 3%. Voltamos a falar da resiliência e da adaptabilidade do empresário brasileiro, que buscou outros mercados para colocar aquilo que não podia mais colocar nos Estados Unidos.

Os Estados Unidos são um dos nossos maiores mercados, mas o maior é a China. A balança comercial com os EUA era negativa em cerca de US$ 1 bilhão de dólares, enquanto com a China era positiva em 28 bilhões. A diferença é enorme. E a expressão que eu uso é que ele deu três tiros no pé: aproximou o Brasil da China, afastou o Brasil dos Estados Unidos e convulsionou internamente o país, acirrando a polarização — e toda polarização é burra de nascença.

O resultado prático foi acelerar a diversificação de mercados das empresas brasileiras. O efeito recai quase exclusivamente na relação Brasil–Estados Unidos. Mas, da mesma forma que criou problema com o Canadá e com o México. Essas “trumpices” são coisas inexplicáveis e momentaneamente intocáveis. O maior prejuízo é do consumidor e do mercado norte-americano.

Marcos Gouvêa chama de "trumpices" medidas como o tarifaço e "vê como três tiros no pé" dos EUA(Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025)
Foto: Fábio Lima em 30 de setembro de 2025 Marcos Gouvêa chama de "trumpices" medidas como o tarifaço e "vê como três tiros no pé" dos EUA

Nós vamos encontrar alternativas no mundo, como já estamos encontrando, para colocar os produtos brasileiros. Estamos reproduzindo, infelizmente, no cenário global, a polarização que temos no Brasil, só que lá é uma multipolarização: polo norte-americano, polo russo, polo asiático.

Isso é danoso para um cenário que já tem problemas e complexidade demais. Pela iniciativa de uma pessoa, geramos um mundo todo convulsionado.

OP - E, para o longo prazo, como você enxerga isso? Você acha que eles vão voltar atrás ou esse processo vai continuar globalmente?

Gouvêa - Pergunta difícil. Porque o norte-americano, de forma geral, está distante desses grandes temas globais. Ele pensa na sua micro-região, na sua micro-realidade. Enquanto isso não aperta o calo, ele ignora o que está acontecendo no mundo. Mas, à medida que os preços aumentarem, isso começa a afetar.

Eles já enfrentam um problema sério de mão de obra por causa da imigração e da transformação geracional. Você vai a Nova York e vê restaurantes fechando às 9 horas da noite porque não tem gente para trabalhar mais tarde. Essas questões vão precipitar mudanças. A pergunta é: em que velocidade? E sob a liderança de quem?

 

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