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"É preciso deixar vaidades e mágoas de lado", diz Camilo sobre acordo PT/PDT

| Exclusivo | Governador volta a defender construção de frente ampla com os dois partidos e que vai sentar para dialogar com Luizianne Lins
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GOVERNADOR afirmou que ainda vai conversar com Luizianne em busca de um acordo pela frente ampla (Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE GOVERNADOR afirmou que ainda vai conversar com Luizianne em busca de um acordo pela frente ampla

Camilo Santana (PT) se manifestou sobre o cenário para as eleições 2020 em Fortaleza. Embora seu partido tenha definido no último domingo, 5, o nome da ex-prefeita Luizianne Lins como pré-candidata à disputa pelo Paço Municipal, o governador disse ainda acreditar em um entendimento em prol de uma aliança com o PDT dos irmãos Ferreira Gomes e de Roberto Cláudio.

Voltando a se valer do "diálogo" como palavra-chave para a construção de uma frente ampla dentro do campo progressista, Camilo afirmou, em entrevista exclusiva ao O POVO por Whatsapp, que enquanto "perdemos tempo remoendo o passado, ampliam os espaços daqueles que querem destruir a democracia e a liberdade do país".

O POVO -  A deputada Luizianne Lins foi lançada pré-candidata à Prefeitura de Fortaleza pelo PT, dificultando uma aliança com o PDT, na contramão do que o senhor vem pregando. Na semana passada, porém, ela deu a seguinte declaração à rádio O POVO/CBN: "Se o Camilo conversar comigo e disser que o candidato é o Nelson (Martins), que o PT vai voltar a ser protagonista e que ele vai criar uma grande frente de esquerda, eu abriria essa discussão com ele". Se a pré-condição é o PT ficar com a cabeça de chapa, o senhor acha possível essa conversa avançar, uma vez que o partido já possui o Governo do Estado?

Camilo Santana - PT e PDT são dois aliados históricos, parceiros de lutas comuns, como pela valorização da educação, do crescimento com mais justiça social, e a defesa intransigente da democracia. O que defendo é que haja um diálogo, franco e respeitoso, entre esses parceiros. O momento é de se pensar menos em nomes e mais em projetos, principalmente diante de uma escalada de desrespeito às causas sociais e às instituições democráticas, que temos assistido no país. É preciso uma frente ampla e forte para evitar mais retrocessos de tantas conquistas importantes alcançadas. Tenho respeito pela deputada Luizianne, que tem um trabalho importante realizado em Fortaleza. Já tive conversas com dirigentes do partido, inclusive o Guilherme, da executiva municipal, e o Conin, da executiva estadual, e deverei conversar também com a Luizianne. Sempre defenderei o diálogo como a melhor saída.

OP - Na hipótese de a conversa não avançar e os dois partidos saírem separados, com o PT assumindo um discurso de oposição forte à gestão Roberto Cláudio, como o governador Camilo vai se portar durante a eleição? Vai fazer campanha defendendo uma candidatura que critica um aliado?

Camilo - Ainda acredito que haja espaço para um entendimento. E trabalharei para isso. Compreendo os motivos que se colocam como contrários. Divergir faz parte, mas não tenho dúvidas que, entre PT e PDT há muito mais convergências que divergências. A história e os fatos atuais mostram isso. É preciso deixar vaidades e mágoas de lado. Enquanto perdemos tempo remoendo o passado, ampliam os espaços daqueles que querem destruir a democracia e a liberdade do país.

OP - Muitos analistas chamam a atenção para esse aparente descolamento do senhor com o discurso majoritário do PT. O senhor defende uma autocrítica, diz que o partido tem de se abrir a um leque maior de alianças, e defende uma aproximação entre Lula e Ciro Gomes, pontos que não são bem recebidos por setores importantes do partido. O senhor se sente confortável no PT? Pensa em sair, como já foi aventado anteriormente? O senhor conversa sobre essas questões com seus colegas governadores do PT?

Camilo - Na minha vida pública sempre procurei agir com coerência diante daquilo que penso. E sempre com muita sinceridade. Defendo aquilo que acredito. Lá atrás, por exemplo, no começo de 2018, eu já defendia que o PT ampliasse o diálogo com outros partidos e fosse construída uma frente democrática ampla. Cheguei a defender uma chapa Ciro-Haddad, e a falar, inclusive, que o isolamento do partido seria uma atitude suicida. Veja o que aconteceu no país. Mas o momento é de olhar pra frente. Quando falo em união, não é contra ninguém. Mas a favor da democracia. O PT já contribuiu muito para este país e ainda poderá contribuir muito mais. Erros são cometidos. Mas os acertos foram muito maiores. Foram 36 milhões de famílias saindo da extrema pobreza, avanço na educação, fortalecimento do SUS, que hoje suporta o atendimento diante de uma pandemia gravíssima, quando vimos países de primeiro mundo com o sistema de saúde colapsado, como EUA, Itália e Espanha. Sempre converso com os colegas governadores do PT e outras lideranças sobre isso. Minha posição não é por conveniência, é sempre pensando o melhor para meu estado e para o país. Como disse, enquanto se perde tempo discutindo quem tem mais razão, o atraso avança no país. Ciro e Lula têm muito a contribuir nessa luta pelo fortalecimento da democracia e pela retomada do crescimento.

OP - Como o senhor está vendo a escalada de violência dos últimos meses? É possível reverter esse quadro? Há relação entre o motim da polícia do começo do ano e o que temos assistido recentemente? ou se trata “apenas” da retomada da guerra de facções por territórios?

Camilo - Desde que assumi o governo, em 2015, tenho apoiado fortemente a segurança pública. Contratei mais de dez mil profissionais, criei uma lei que promoveu mais de 18 mil policiais, houve melhoria significativa dos salários, mesmo em meio a uma crise, além de forte investimento em equipamentos e tecnologia. Tudo o que poderia fazer, tenho feito. E conseguimos grandes resultados. Caíram os índices criminais em 2015 e 2016. Já em 2017 houve uma guerra de facções no país, que fez os números aumentarem em todos os Estados. Recuperamos em 2018 e em 2019, quando alcançamos os melhores resultados da década. Além do grande trabalho da polícia, isso foi fruto também de uma forte intervenção que fizemos nos presídios com o secretário Mauro Albuquerque. Enfrentamos fortemente as facções. No final do ano passado, começaram a surgir movimentos dentro de uma pequena parte da tropa. Movimentos liderados por pessoas de fora da polícia e que sempre se utilizaram da violência para se promover politicamente, principalmente em anos de eleições. Foi a partir daí que começaram os movimentos dos encapuzados, que acabaram resultando num motim que desorganizou a segurança naquele momento, e deu espaço para os criminosos, que antes estavam acuados. Os números são claros. A violência, que já vinha aumentando com essa mobilização ilegal de alguns policiais, estourou no motim, com 320 assassinatos em duas semanas. O que estamos tentando agora é reorganizar. E vamos conseguir. A imensa maioria da tropa é formada por grandes profissionais, que têm minha confiança e sempre terão meu apoio. Mas aqueles que não respeitam a história da corporação e desrespeitam a sociedade devem prestar contas com a Justiça. Sem possibilidade de anistia.

OP - Nas últimas semanas, o presidente Jair Bolsonaro adotou um discurso mais ameno, diferente do que vinha fazendo anteriormente diante de instituições, governadores e quem ele considerasse opositor. O senhor acredita que esse estado de trégua será permanente? Ou pelo menos duradoura?

Camilo - Torço sinceramente que sim. O país precisa. Não sou daqueles que torcem pelo quanto pior melhor, e só pensam nos seus projetos de poder, como vemos muitas vezes aqui mesmo no Ceará, onde algumas pessoas, que teriam condições de ajudar pela posição que ocupam, e levam o tempo unicamente tentando conturbar o ambiente. Quero muito que o país volte a ter tranquilidade para retomar o crescimento. E isso depende muito do Governo Federal. Da agenda criada. Não a agenda que vimos nos últimos meses, que foi baseada na polêmica, no ataque, na intolerância, nas fake news e na intransigência. Discursos inconsequentes de muitos membros do Governo, que inflamam uma legião de extremistas, que chegam ao cúmulo de ir para as ruas defender a ditadura, o fascismo. Felizmente temos instituições fortes e uma população muito mais consciente, que sufocarão esses arroubos autoritários. E a imprensa tem tido um papel fundamental em denunciar e repudiar essas atitudes que atentam contra a democracia. Não só resistiremos, como reagiremos a isso.

OP - Havia uma forte expectativa sobre a reabertura dos setores produtivos em Fortaleza. Em muitos locais, no entanto, o que temos visto são consumidores um tanto cautelosos. Qual a expectativa do Governo com relação a retomada em si?

Camilo - A prioridade absoluta tem sido de preservar vidas. Mas sem descuidar da economia, que é essencial. Tudo o que temos construído aqui tem sido pactuado e sempre guiado pela ciência. O Ceará foi um dos primeiros estados a tomar medidas restritivas de circulação, que salvaram milhares de vidas. Todos os estudos mostram isso. Também criamos uma rede de atendimento de quase três mil leitos públicos em todo o Ceará em menos de quatro meses. Foram mais de novecentas UTIs. Temos um secretário de saúde muito sério e competente, que é o doutor Cabeto, e uma equipe maravilhosa. Nossos profissionais de saúde merecem todo o nosso respeito e admiração. Paralelo a esse papel primordial de dar atendimento à população, buscamos ajudar também as empresas, para garantir a manutenção dos negócios e dos empregos, embora muito desse socorro dependa de ações do Governo Federal, que tem as condições para fazer isso. O Plano de Retomada Gradual também foi construído e está sendo executado com muito diálogo. Não é fácil atender a todos os interesses. Sempre haverá críticas e incompreensões. Isso é natural. Mas o que temos é procurado agir com o máximo de responsabilidade e justiça. A cada novo decreto, analisamos exaustivamente todos os indicadores, antes de qualquer decisão. Nada é feito sem estudo e sem discussão. Tenho procurado estar junto dos cearenses todos os dias ao longo dessa pandemia e assim continuarei. E sei que vamos vencer.

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