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Guerra Sem Fim: Bastidores da disputa no PCC que criou a facção cearense GDE

A inspiração para a facção cearense veio de preso que chegou de penitenciária federal. O rompimento ocorreu por insatisfação com taxas de membros. Porém, a relação comercial se manteve: o PCC seguiu fornecendo drogas para a GDE. Confira no novo episódio de Guerra Sem Fim
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Onda de ataques de janeiro de 2019: facções se uniram contra o Estado (Foto: Mateus Dantas, em 4 de janeiro de 2019)
Foto: Mateus Dantas, em 4 de janeiro de 2019 Onda de ataques de janeiro de 2019: facções se uniram contra o Estado

A primeira facção criminosa cearense, Guardiões do Estado (GDE), surgiu de uma divisão do Primeiro Comando da Capital (PCC). Foi uma disputa interna, mas resultou numa dissidência aparentemente consentida. Fundadores da GDE estavam insatisfeitos com a taxa que precisavam pagar dentro do PCC, chamada "cebola". No primeiro momento, todavia, não foi uma mudança conflituosa.

Membros migraram sem que sofressem represália. A cúpula do PCC aparentemente não se incomodou com o surgimento da GDE, na medida em que que continuou a ser fornecedora de drogas para a nova facção. O mercado foi preservado. No segundo episódio da nova temporada de Guerra Sem Fim, a série original O POVO Mais mostra as relações entre o PCC e a facção cearense. A disputa interna, a dissidência e a manutenção da relação comercial.

A partir de informações exclusivas das investigações, de depoimentos de especialistas que estudam o assunto, profissional da segurança pública e de pessoas das comunidades que conhecem de perto a rotina da violência, o episódio traça o mais rico panorama em audiovisual já feito sobre a facção.

ASSISTA AO PRIMEIRO EPISÓDIO | Comunidade inteira é expulsa por facção em Fortaleza

A origem

A GDE foi criada em 1º janeiro de 2016. Nasceu na esteira da expansão de PCC e Comando Vermelho, as maiores facções do Brasil. Por volta de 2015, enquanto o Governo do Ceará negava a presença de facções, as duas organizações ampliavam a quantidade de "batismos" — a solenidade para ingresso de novos membros. O objetivo era garantir mais mercado e ampliar a rede de proteção às atividades criminosas. O efetio colateral da explosão de batismos no Ceará foi o surgimento da GDE.

A concepção do grupo cearense foi trazida por um dos fundadores, que estava em presídio federal. Ele compunha o grupo de "sete torres" que criaram a GDE reivindicando serem os legítimos defensores dos criminosos cearenses. Em poucos meses, a facção passou de um pequeno grupo a milhares de membros. A expansão partiu da Capital para o Interior. Foram arregimentados criminosos que dominavam suas áreas e se propuseram a criar a facção local.

Nova dinâmica da violência

As facções criminosas introduziram nova dinâmica de violência nas periferias. O sociólogo Luiz Fábio Paiva, do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da Universidade Federal do Ceará (UFC), explica que a guerra entre grupos criminosos era até então estática. "Com as facções não. GDE invade áreas do Comando Vermelho, Comando Vermelho invade áreas da GDE."

Jânia Perla, socióloga do PEV/UFC, afirma que, na dinâmica criminal das gangues, a guerra não é instrumental, por mercado. No caso da facção cearense, o processo é semelhante. "Na GDE, a guerra é parte da dinâmica criminal da própria socialidade armada."

Isso se reflete em uma prática criminosa mais violenta. Caso da chacina do Forró do Gago, na virada de 26 para 27 de janeiro de 2018, com 14 mortos. Veio então a eclosão de grande número de chacinas e também tortura, sequestros, inclusive tortura para ser veiculada nas redes sociais.

Passa a haver nas facções o ingresso de menores de idade, com 14, 15 ou 16 anos, que são armados pelos grupos. Há também o fenômeno do ingresso de meninas em grande número, que passam, por outro lado, a ser vítimas e mortas em larga escala no conflito. Muitas vezes, acusadas de delação, de não terem sido fieis aos companheiros.

No caso da GDE, Jânia Perla pondera, contudo, não ser justo o rótulo de facção mais violenta, ou a única violenta. Pelo perfil jovem, ela prefere apontar o grupo cearense como mais passional entre as facções.

Hideraldo Bellini, tenente-coronel comandante do Batalhão de Caucaia da Polícia Militar, acrescenta que as redes sociais e a difusão das práticas criminais influenciam muito a atuação desses grupos.

O fim das facções?

Há esperança de um desmonte das facções no Ceará? Para o jornalista do O POVO Lucas Barbosa, não é algo que esteja no horizonte.

"O crime é feito no contexto das facções. Pensar nas facções acabando é pensar no crime acabando ou diminuindo muito. Não temos essa perspectiva de curto prazo. É tarefa para as próximas gerações."

No próximo episódio

Juventudes sobreviventes: a história de jovens que conseguem fugir da influência de facções em territórios dominados por elas. Estreia em 19 de julho no O POVO+.

Assista aqui aos episódios

Assista à primeira temporada 

1ª temporada, episódio 1: A onda de violência

Em janeiro de 2019, as facções criminosas no Ceará se uniram contra as ações rígidas dentro das penitenciárias, gerando a maior onda de violência do Estado. Como isso aconteceu?

Assista aqui

1ª temporada, episódio 2: Tribunais do Crime

O funcionamento interno das facções criminosas no Ceará: como punem seus próprios integrantes?

Assista aqui

1ª temporada, episódio 3: Caminhos do Crime

A entrada em organizações como as facções é um dos caminhos trilhados pelo crime. O que influencia esse cenário? Como é possível fugir do crime?

Assista aqui 

GUERRA SEM FIM

Série Original OP+

Direção
Demitri Túlio

Cinthia Medeiros

Coordenação de produção
Cinthia Medeiros

Roteiro
Demitri Túlio
PH Diaz
Arthur Gadelha

Direção de fotografia
Fco Fontenele
Julio Caesar

Assistência de direção e edição
Arthur Gadelha

Edição
P.H. Diaz

Abertura
Raphael Góes

Pesquisa
O POVO Datadoc - Roberto Araújo e Miguel Pontes

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