
Resumo
A origem da lenda remonta à década de 1970 em Recife, com disputas entre os jornalistas Jota Ferreira e Raimundo Carrero pela autoria.
Lendas urbanas, como a Perna Cabeluda, servem para ficcionalizar o cotidiano e criar um senso de controle sobre a realidade.
Durante a ditadura, a Perna Cabeluda foi um recurso para driblar a censura e denunciar violências que não podiam ser explicitamente publicadas.
Fortaleza também possui um rico inventário de assombrações urbanas, como o Corta-bundas e a Hilux Preta, que moldam o imaginário coletivo e servem como mecanismos de controle social.
Quando o público se acomodou nas poltronas dos cinemas para prestigiar as atuações de Wagner Moura, Gabriel Leone e da icônica Tânia Maria, no filme "O Agente Secreto", indicado ao Oscar, certamente não esperava deparar-se com uma das figuras mais insólitas do folclore brasileiro: a Perna Cabeluda.
No longa de Kléber Mendonça Filho, a criatura que assombra os arbustos do Parque 13 de Maio, no Recife, transcende o mero realismo mágico para se tornar um símbolo da repressão e da censura que silenciaram o País por 20 anos.
Longe de ser um susto passageiro ou um mero adereço grotesco, a lenda é convertida em personagem e apresentada como uma alegoria sobre a violência institucional.
Viva no imaginário nordestino, a Perna Cabeluda integra o bestiário urbano brasileiro, recheado de histórias absurdas que mantêm viva não só a tradição oral como também a boa e velha conversa de calçada.

Para compreender o impacto dessas histórias, é preciso primeiro defini-las. Carlos Renato Lopes, professor associado do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo define as lendas urbanas como narrativas orais que se apropriam de diferentes formas de uso da linguagem.
Segundo o pesquisador, essas narrativas mudam conforme o contexto social, cultural e o espaço em que ocorrem porque são uma forma de ficcionalizar e ressignificar o cotidiano através do ato de narrar.
Essa maleabilidade dos discursos permite que a sociedade ensaie um certo controle sobre uma realidade que nem sempre é compreendida na totalidade.
A Perna Cabeluda se encaixa como uma luva — ou como uma meia, como preferir — neste cenário.
As primeiras aparições da figura mítica datam da década de 1970, em Recife, Pernambuco, e antes do sucesso de “O Agente Secreto”, a “paternidade” da lenda estava sob disputa. O primeiro suposto criador seria o jornalista Jota Ferreira, do programa Rádio Repórter.
Certa vez, sem nada para noticiar, Jota Ferreira conta que teria inventado, de improviso, a história de que um homem teria parado no hospital vítima da tal Perna Cabeluda. A partir daí, a história teria se alastrado.
A questão é que não há registros do tal programa ou da narração de Jota, diferente do segundo, e mais provável, pai da história.
Foi o jornalista e escritor Raimundo Carrero, que publicou, em 1º de fevereiro de 1976, o texto “Perna Cabeluda chega em Olinda”, na coluna Romance Policial, no Diário de Pernambuco.
Para o autor, o público não teria entendido a piada e tomado a narrativa como verdadeira. Teria sido essa a certidão de nascimento da visagem.
Carlos Renato Lopes lembra que para que uma lenda urbana funcione socialmente, sua "estrutura deve ser construída sobre uma reivindicação de verdade literal.
“Enquanto os contos folclóricos tradicionais se situam em mundos ficcionais distantes, as lendas urbanas utilizam detalhes locais e a conexão com um ‘amigo de um amigo’ para validar o relato”, explica.
Assim, a inclusão de nomes de empresas reais, locais conhecidos e referências geográficas concretas cria um "efeito de realidade" que transforma o absurdo em algo plausível.

Uma dimensão da história da Perna Cabeluda que não estava sob os holofotes até a repercussão de “O Agente Secreto” era a conexão da lenda com o regime ditatorial que vigorou no Brasil até 1985.
Com censores instalados nas redações, era proibido publicar críticas ao regime ou notícias sobre violência contra a mulher. Nesse contexto de mordaça, Raimundo Carrero e Og Fernandes, à época editor do Diário de Pernambuco, usaram o único recurso que tinham para driblar o regime: a palavra.
O fantástico serviu como uma saída para falar de uma realidade que não podia ser escrita com todas as letras, permitindo que a imprensa ocupasse espaços que antes seriam destinados a assuntos considerados "espinhosos" pelos militares.
A Perna Cabeluda funcionou como um mecanismo subliminar para denunciar agressões reais. No subsolo do Hospital da Restauração, em Recife, mulheres agredidas pelos maridos recorriam à mesma desculpa para explicar seus hematomas: diziam ter sido atacadas pela figura sobrenatural.
Assim, a lenda ganhou ares de uma "polícia moral" que punia aqueles que desafiavam os bons costumes, tornando-se um reflexo factual da opressão sofrida por populações vulneráveis que, para os dados oficiais, pareciam não existir.
Ao extrapolar o campo do imaginário, esse tipo de narrativa passa a interferir diretamente na vida social, produzindo efeitos concretos sobre comportamentos e decisões cotidianas.
Narrativas sobre tráfico de órgãos, por exemplo, podem causar quedas drásticas nas taxas de doação de famílias em programas de transplante.
Em Fortaleza, por exemplo, houve uma época em que o medo do sequestro pela “Hilux Preta” teve esse exato efeito.
São em contextos semelhantes que as lendas urbanas figuram como mecanismos de controle social e alertas contra "estranhos" ou comportamentos que desafiam as normas aceitas pela comunidade.
Quando um boato se espalha, a força da mensagem de alerta muitas vezes supera a necessidade de comprovação científica, moldando a identidade e as precauções do grupo.

“Quando a gente veio morar na Barra do Ceará, e eu tinha mais ou menos 10 anos, surgiu a história de que tinha essa Perna Cabeluda. Eu morria de medo”, contou a professora de Ensino Médio Elizabeth Carvalho ao Vida & Arte em 2007.
O especial “Histórias que o povo conta”, assinado pela jornalista Natália Paiva, trouxe, além da Perna Cabeluda, outras narrativas fantásticas que povoam o imaginário alencarino.
O registro mais antigo feito pelo O POVO data de 1934, quando moradores do bairro Otávio Bonfim relataram ruídos inexplicáveis, objetos que se moviam sozinhos e ataques atribuídos a um “espírito” contra uma criança.
A visita da reportagem ao local não encontrou fantasmas, mas sim uma multidão curiosa e que cochichava que talvez o caso fosse menos sobrenatural e mais policial, apesar de não conseguirem provar as suspeitas.
O que não é o caso, por exemplo, do Corta-bundas, maníaco que aterrorizou o bairro José Walter entre 1984 e 1987.
Diferentemente das lendas sem origem certa, o Corta-bundas era um homem real, que chegou a ser identificado, preso e, posteriormente, assassinado no sistema prisional.
Ainda assim, o episódio extrapolou o noticiário policial e se fixou no imaginário coletivo como uma figura quase mítica, usada para reforçar medos, impor limites de circulação e vigiar corpos — especialmente os femininos
Há também outras histórias, como a Hilux Preta (que por sua vez é uma releitura da lenda do Opala Preto), que seria o meio de transporte de traficantes de órgãos e até mesmo o caso do poltergeist conhecido como “O Cão da Itaoca”.
Embora a ciência e o avanço no acesso à informação tenham diminuído os mistérios, as lendas urbanas persistem, inclusive, como fabulações da violência e da desigualdade. Com um pé, dois, ou nenhum na realidade, já dizia Gilberto Freyre: "se tem nome, existe".
