
O economista Firmo Fernandes de Castro construiu uma carreira marcada pela atuação no setor público e pela participação direta no planejamento econômico e industrial do Ceará e do Nordeste.
Entre a entrevista, há duas semanas, e a publicação destas Páginas Azuis, Firmo de Castro completou 82 anos. Ocupou cadeira na Câmara dos Deputados durante a Assembleia Nacional Constituinte. O economista assumiu o cargo de deputado federal constituinte em 1987, ao lado de grandes personagens da política brasileira.
Ao relembrar a atuação na Constituinte, no primeiro mandato como deputado federal, ele descreve o processo de elaboração da Constituição de 1988 como “um fenômeno”.
Firmo recorda a convivência com lideranças políticas de projeção nacional, algumas ainda em atividade. “Os grandes nomes se sentiram não só motivados, mas até obrigados de integrar a Assembleia, para dar ao Brasil uma Constituição e um futuro”, relembra.
Entre os marcos da atuação parlamentar, o economista destaca a aprovação do artigo 159, inciso I, alínea “C”, da Constituição, que deu base à criação dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Nordeste, do Norte e do Centro-Oeste (FNE, FNO e FCO). Ele também esteve entre os responsáveis pela aprovação da Lei 7.827/1989, que regulamentou o funcionamento desses fundos.
“Imaginei que teríamos que ter um financiamento aos setores produtivos regionais, diretamente produtivos, porque o sistema financeiro nacional não dava uma prioridade e não levava isso em conta, agindo nas próprias proporções da desigualdade”, conta Firmo.
Apesar disso, o ex-deputado federal é critico das propostas mais recentes de mudança na destinação dos recursos dos Fundos Constitucionais. Segundo ele, o direcionamento desses aportes para o financiamento do setor público contraria os objetivos originais dos fundos, concebidos para oferecer apoio financeiro complementar e diferenciado aos setores produtivos das regiões beneficiadas.
Integrante da Academia Cearense de Economia, Firmo destaca que a questão regional não faz parte da agenda nacional, considerando que os interesses nacionais “só têm trabalhado na contramão” da pauta.
“Hoje o nordestino não chega a 50% da renda do brasileiro. Desde 1939 é assim: o nordestino na média não ganha metade do que ganha um brasileiro na média”, avalia o economista.

O POVO - O senhor foi eleito deputado federal constituinte em 1986, pelo PMDB, e foi um dos 559 parlamentares que participaram da elaboração da Constituição de 1988. Como foi o processo para decidir seguir na política? O ofício da política partidária era uma ambição sua?
Firmo de Castro - Foi resultado da minha atuação como secretário de Indústria e Comércio no governo Virgílio Távora, que foi muito bem sucedida. Houve um movimento coordenado estadualmente pelo empresário Vicente Linhares, com um grupo grande de empresários que haviam participado e visto que eu havia sido protagonista desse esforço da nossa administração estadual de industrialização.
Esse grupo quis me lançar como candidato a deputado federal em 1982, mas, na verdade, eu não me empolguei porque considerava que a política federal estava muito pouco legitimada e eficiente, por ainda estarmos no fim dos anos dos governos militares e o Congresso — particularmente a Câmara — não tinha uma função que justificasse a minha expectativa de fazer um bom trabalho por lá. Então não aceitei essa solicitação, não cheguei nem à inscrição partidária. Depois, em 1983, fui para a Secretaria da Fazenda do governo Gonzaga Mota.
No terceiro ano da minha administração na Fazenda, esse movimento recrudesceu mais ampliado, porque a minha ação na secretaria foi muito bem sucedida e a política já apresentava um novo horizonte: a Assembleia Nacional Constituinte.
Não preciso mencionar que a Assembleia foi uma oportunidade histórica, do ponto de vista político, traz consigo o máximo de densidade, um desafio para aqueles que efetivamente querem contribuir com o País.
Por isso, concordei em ser candidato a deputado federal constituinte, somente porque me permitia processar a política na sua verdadeira intensidade, naturalmente uma iniciativa que garantia a autonomia. Foram praticamente quase de 2 anos, 1987, 1988 de Assembleia Constituinte.
OP - A Assembleia Constituinte durou 1 ano e 7 meses. Depois, voltou para a Câmara dos Deputados em um novo mandato. Nesses dois mandatos, foi possível sentir a diferença de atuação dos parlamentares e do dia-a-dia do Congresso Nacional?
Firmo - É uma diferença tão grande que se surpreende. Foi um fenômeno, porque as principais figuras políticas do Brasil de então estavam presentes: Ulysses Guimarães, Mário Covas, Franco Montoro, José Richa, Delfim Neto, Roberto Campos, o Lula chegando. Os grandes nomes se sentiram não só motivados, mas até obrigados de integrar a Assembleia, para dar para o Brasil uma Constituição e um futuro.
Assim, participamos de mil votações, durante dois processos: um processo inicial de comissões preparatórias e relatórios finais. Essas mil votações compreenderam a vida de uma maneira geral, tanto do ponto de vista federativo, porque foram ouvidos estados, municípios; quanto do ponto de vista social, vendo as representações das diferentes categorias sociais, do ponto de vista de minoria, mulher, idoso, criança, indígena, todos foram intensamente ouvidos.
Ao final, numa reunião completa de todas essas discussões, inquéritos, resultou com uma proposta de uma Constituição ampla, talvez mais até do que pudesse ser, mas foi um desenlace inevitável, que ouviu a sociedade por inteiro.
Essa Constituinte produziu o que seria naquele instante o que, como dizia a sociedade brasileira que participou dessas discussões todas e almejava que devia ser, inclusive, até um rastro para a gente prosseguisse no futuro examinando se o parlamentarismo poderia ou não ser um caminho.
Nesse momento, a questão regional tinha pouco espaço, porque havia tido um sopro na época da Sudene com os incentivos, e essa questão estava muito em baixa.
Eu consegui ser o coordenador de um grupo regional que, ao final, somamos 282 constituintes, uma maioria absoluta, porque fizemos esse sorteio com representantes majoritários, praticamente a metade Nordeste, um quarto Norte e um quarto agregamos o Centro-Oeste, não pela natureza da questão regional propriamente dita, mas pela questão política de somar uma maioria que avançasse na proposta constitucional. Foi um avanço.
A questão regional foi tratada desde dos princípios constitucionais mais básicos, questão de liberdade, de igualdade, até as questões operacionais, questão orçamentária, financeira, a questão de garantir um tratamento que pudesse dar chance a uma redução da desigualdade então existente.
OP - Como a ideia dos Fundos Constitucionais foi percorrendo a Assembleia Constituinte até ser aprovada e se tornar o que é hoje?
Firmo - A situação do Nordeste estava chamando a atenção da gente, preocupando, porque a questão regional teve um impulso mais teórico, retórico, quando foi criado o Banco do Nordeste, a Sudene, na década de 1950, a Sudene e no começo dos anos 1960, os incentivos regionais do imposto de renda.
Isso representou uma iniciativa inovadora e que repercutiu bem, não chegando a garantir resultados econômicos e sociais que já representassem uma vitória, até porque o tempo era muito curto, apenas cinco anos.
Já nos anos 1965 em diante, já em governos militares, a questão regional foi tratada pontualmente e não de uma forma ampla como a gente defendia. Quando fomos para Constituinte, com a minha experiência de secretário de Indústria e Comércio, e da Fazenda, eu havia sido parceiro e comandante de idas de prefeitos a Brasília para discutir liberações de recursos nos quais Brasília, de certo modo, dificultava.
Então comecei a antever que, primeiro, há uma questão financeira importante de botar recursos de caráter regional propriamente dito e assim garantir isso constitucionalmente. Porque o exercício do poder executivo por si nunca vai ser suficiente, porque não tem vocação nem convencimento de que a desigualdade regional precisa ser absorvida.
Imaginei, logo na Constituição, estabelecer dispositivos que obrigassem o Executivo a se comportar de uma forma mais adequada.
Nessa parte financeira, como tínhamos no passado tido o fundo das secas, em 1946. Então imaginei que teríamos de ter um financiamento aos setores produtivos regionais, setores diretamente produtivos, porque o sistema financeiro nacional não dava prioridade, não levava isso em conta e agia nas próprias proporções da desigualdade.
Foi quando redigi inicialmente, depois redigi com algumas alterações que a própria Constituinte determinou, e criamos no artigo 159, inciso um, letra “C”, o que seriam os Fundos Constitucionais de financiamento do Norte e Nordeste, e destinamos só para os diretores dos setores produtivos. Com recursos que estimamos e aprovamos como correspondentes a 3% do imposto de renda e mais IPI, que era bastante interessante que hoje, por exemplo, representa ainda hoje um aporte de R$ 45 bilhões anualmente.
OP - Passadas quase quatro décadas da criação dos Fundos Constitucionais, qual é a sua avaliação sobre o papel desses instrumentos no desenvolvimento regional atualmente?
Firmo - O Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste (FNE), até ser bem conduzido e visto de uma forma racional, representou um fator de diferenciação enorme. Nós não teríamos ido para canto nenhum se não fosse o FNE no Nordeste.
O Fundo salvou o Banco do Nordeste, que como instituição financeira já não tinha os recursos dos incentivos para administrar e cuja liquidez garantiu a sobrevivência do banco. Esses aportes garantiram a ação do banco, que hoje essa ação ainda é majoritária por conta desses recursos.
Eu calculo, por exemplo, que esse ano o BNB possa chegar a ter uma aplicação entre R$ 55 bilhões e R$ 60 bilhões, com R$ 45 bilhões a R$ 50 bilhões sendo do FNE.
Agora há, na verdade, uma questão que se repete. O direcionamento do FNO e FNE para financiamento ao setor público, inclusive projetos de infraestrutura, afronta claramente os objetivos previstos na Constituição. Continuo brigando e assessorando a federação e outros para defender essa ideia de que são recursos para o setor produtivo.
Ficamos preocupados que Brasília arrecadasse e não retivesse esses recursos, só repassasse fora do tempo. Quando eu acompanhava os prefeitos para receber o Fundo de Participação dos Municípios (FPM), o valor tinha sido arrecadado, mas era repassado com 60, 90 dias de diferença. Naquela época, a inflação às vezes chegava a 10% ao mês, mas quando recebiam o fundo, era o mesmo valor.
Para mudar isso, nós estabelecemos que a cada 10 dias Brasília deveria pegar a declaração do imposto de renda e do IPI e mandar para o BNB, para o Banco da Amazônia (Basa), e para o Banco do Brasil que representou o Centro-Oeste.
Ainda houve outra parte pública, com dois segmentos, que também foram objeto de iniciativa nossa. A minha família me considera uma pessoa injustiçada, de certo modo, porque eu nunca aproveitei e nunca me mencionei como um dos autores dessa propostas, até outros quiseram aparecer como autores.
Mas como vamos aumentar os recursos dos estados e dos municípios? Aumentamos o FPM dos municípios, que estava em 17% para 22,5% do Imposto de Renda e do IPI. O Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal (FPE) estava em 14%, foi para 21,5%, ou seja, cerca do dobro observado anteriormente.
Então, recursos públicos federativos, como a maioria do FPE, do FPM veio, sobretudo para as regiões mais pobres, então isso já favorecia amplamente o setor público das regiões mais atrasadas.
OP - Fundos constitucionais ainda cumprem uma função estratégica relevante hoje ou foram capturados por outras lógicas ao longo do tempo? Houve uma mudança de pensamento?
Firmo - Essa é uma questão que precisa ficar clara para superestimarmos o que os fundos constitucionais poderiam fazer e produzir em termos de desenvolvimento. Porque a função era ajudar a financiar o setor diretamente produtivo. O PIB do Nordeste, vamos dizer, é R$ 1 trilhão. Para fazer R$ 1 trilhão, crescer R$ 50 bilhões não representa muita coisa, é importante para aquela função específica, mas tudo mais tem de fazer o mesmo no seu campo.
Por exemplo, no Nordeste não tínhamos perenização do São Francisco, a transnordestina, quer dizer, tem mais de 20 anos, tinha de ter cumprido suas funções. Não é imaginável porque o Nordeste passou a contar o BNB com caixa de R$ 50 bilhões desse ano, que todo mundo tinha direito.
Como aconteceu na Sudene, os estados se reuniram — eu fiz artigo contra, briguei contra — para fazer com que parte desses recursos do FNE fosse para obras públicas. Qualquer obra pública têm outra fonte de financiamento.
No caso do Nordeste, ainda sendo pouco FPE, FPM, nós, no orçamento nacional federal, fizemos um artigo determinando que, tirando os custos nacionais, que são imutáveis, o orçamento que sobrasse teria que ser distribuído regionalmente, conforme a população. Então, se o Nordeste tem 29% da população dos orçamentos nacionais, por exemplo, teria dentro de 3 a 5 anos de negócio, consoante a população.
No entanto, começaram a surgir outras regras dizendo que incentivos fiscais tinham que dar preferência à região, então saímos abordando campo por campo. A Constituição tem vários dispositivos que fazem parte de uma abordagem completa. É claro que, do ponto de vista financeiro, o que está respaldando os Fundos Constitucionais, o FPE e o FPM, que está dito na Constituição, é abandonado, desconhecido, literalmente.
Depois o Governo Federal cria e todo mundo aprova, sem nenhuma consideração, a Contribuição Social sobre o Lucro. Isso significa que o Imposto de Renda, para ser distribuído conforme a Constituição, regionalmente, passou a perder espaço para esses outros tributos.
Contribuição Social sobre o Lucro, lucro sendo a renda que a empresa gerou. Mas na hora que dei essa denominação e criei um tributo, é como se não fosse renda, mas desfalcou a renda porque a empresa passa a pagar contribuição social, depois apura o lucro já desfalcado.
Quando começamos a mostrar as justificativas e as razões para a gente reforçar o que seria o desenvolvimento regional, naquela época, a União tinha 50% da arrecadação nacional, os estados tinham menos 35% e os municípios 15%. A gente cede muito porque a União tem bem mais do que os que estão à frente de todas as realizações, os municípios e os estados, e isso é injusto.
Em uma arquitetura só de respaldo, vamos fazer uma redistribuição do imposto de renda, do IPI etc, por esses caminhos. A União pode diminuir a sua participação para 40%, os estados podem subir de 35% para 40%, e os municípios de 15% pode ir para 20%. Quando fizemos isso, era um fundamento que iria garantir uma redistribuição da receita nacional.
Mas se formos examinar, depois da Constituição o caminho foi invertido. A União, que a gente imaginava que diminuiria de 50% para 40%, hoje ela tem quase 70%. Os incentivos fiscais que a gente admitiu a prioridade do ponto de vista regional, tirando a Zona Franca de Manaus, os incentivos favorecem mais as regiões mais ricas do que o Nordeste.
Em suma, a questão regional não faz parte da agenda nacional, que só tem trabalhado na contramão. Então hoje o nordestino não chega a 50% da renda do brasileiro. Desde 1939 é assim: nordestino na média não ganha metade do que ganha um brasileiro na média.
OP - A Sudene foi criada nos anos 1950, extinta em 2001 e posteriormente recriada. Após essas idas e vindas, qual é o papel da Sudene hoje e em que medida ele difere daquele exercido no passado?
Firmo - O problema é o seguinte: imagina uma federação onde você tem os estados, a União e os municípios. A região Nordeste existe geograficamente, não do ponto de vista institucional. Não existe o estado Nordeste, não há uma instituição, ou entidade da federação que tem sua existência, suas regras, suas proteções, suas fronteiras. A fronteira é geográfica.
Face aos problemas todos que vinha de desigualdade, nos anos 1950, houve movimentos políticos para se defender os interesses da região Nordeste. Quando saiu essa conformação, criaram o Banco do Nordeste para ajudar.
No fim dos anos 1950, resolveram então criar a Sudene como um órgão que iria regimentar todo o esforço da região Nordeste. É claro que não era uma unidade federativa, não era a Constituição que estava dizendo que ia existir, mas era a lei.
A lei garantia que esses estados poderiam se juntar, e foi o que aconteceu. Os estados se juntaram e o Governo Federal, em princípio, deu cobertura e surgiu o que eu chamaria hoje de uma espécie de instância regional com os governos presentes, que deu força e fez com que no começo dos anos 1960 a região começasse a tirar algum proveito disso.
Já no começo, isso era uma coisa que evoluía, mas, do ponto de vista científico, não era uma solução acabada. Como eu te disse, a Sudene era politicamente amparada, não constitucionalmente. Então, elaborávamos um plano regional, a lei garantia que isso fosse para o Congresso examinar o plano de regional — o Congresso, eleito e motivado por outras razões.
Esses planos não chegaram a existir operacionalmente, a questão regional sempre foi na contramão dos interesses gerais. Só teve força nesse primeiro momento dos anos 1950, quando surgiu Sudene, havia surgido o BNB, o Dnocs, por obra de infraestrutura, mas o tempo trabalhou na contramão.
Então, os incentivos da Sudene logo foram embora. A Sudene chegou a ser extinta, depois recriada. Mas o que existe hoje não tem nada a ver com o que seria um órgão que possa contribuir para o desenvolvimento regional, hoje a Sudene não tem nada.
Eu fui superintendente, presidindo reuniões com os governadores, com tudo. Quando a gente conseguia uma posição de defesa, ainda tinha que enfrentar Brasília, porque os interesses eram outros. Assim, deteriorou. De uma maneira geral, a questão regional é hoje, do ponto de vista institucional, uma questão abandonada. Excluindo o Banco do Nordeste, porque o BNB é uma instituição financeira, com recursos.
OP - Considerando a Sudene como órgão formulador de políticas e o Banco do Nordeste como o agente operador, como a relação entre o BNB e a instituição funciona hoje, na prática, sobre financiamento ao desenvolvimento regional?
Firmo - O BNB não era um instituto assim mais ou menos isolado do ponto de vista regional. Ele parte desse conselho da Sudene com os governos, os incentivos que a Sudene que administrava, vinha para o banco operar, o banco seu órgão operador. Então o banco era mais integrado e menos autônomo. E provavelmente menos importante do ponto de vista isolado. Então, como eu disse, a questão regional, o Dnocs, a Sudene degringolou, tudo degringolou.
O BNB foi o único que sobreviveu nesses últimos 20, 30 anos, como instituição financeira — não é como uma instituição administrativa como a Sudene, pode estar morta-viva lá ou não estar. Instituição financeira não tem esse negócio, ou está viva ou acaba. Então, o banco com esses recursos do FNE, no caso, passou a respirar e ter um papel que antes não tinha, com os próprios incentivos para fazer o que quisesse.
Com os incentivos, quem dizia a aplicação era a Sudene, e o BNB era só o órgão financeiro, o agente. Hoje, o BNB é quem elabora e vai para Sudene uma vez por ano para dar um respaldo "embromador" para dizer que está sendo aprovado pela Sudene.
Especificamente, o que existe do ponto de vista institucional ainda com alguma força é o BNB. Por conta disso e por conta de que a Sudene é quem aprova o orçamento, mas aprova só para cumprir uma formalidade. Mas mais do que isso, politicamente, a questão regional, eu diria, está sepultada. A Bahia cresceu mais um pouco, elas passaram a girar mais em torno de Brasília e do Sudeste, o que desfalcou muito o que seria a região.
A comunicação facilitou que os estados, que antes tinham de ir para Sudene para se reunir, hoje não. As comunicações ficaram muito perfeitas, os estados todos começaram a se entender e se relacionar diretamente. Então isso ajuda a, de certo modo, a desfalcar o que seria uma presença tido como regional.

OP - Sua trajetória engloba setores de administração pública, privada, e ainda permeou um marco da política brasileira, com a ANC, mas não chegou a engatar no jogo político além dos dois mandatos. Como que o senhor avalia as mudanças na política do País ao longo dos anos?
Firmo - Quando entrei para fazer a política diretamente, em Brasília, — aqui fui secretário, entendia de setor público e participava, mas na política de um papel de representatividade popular, só não não aceitei antes porque achava que não tinha nada a ver com isso — foi quando surgiu a ideia da Assembleia Constituinte e foram as grandes figuras do país.
Se você imaginar do Rio Grande do Sul de um Pedro Simon. São Paulo era Mario Covas, Franco Montoro, José Serra, os grandes nomes. Se fossemos para o resto do país, era todo mundo, era Marco Marciel, o Brasil que tinha valor político estava lá. Eu, enxerido, menino velho no meio, havia levado uma experiência daqui que me favorecia, e favorecia a nós nordestinos, porque havíamos analisado e discutido o que os outros não tinham propriamente feito, porque a realidade deles era outra.
Na questão regional, eu me dei muito bem porque tinha um lugar com José Serra e com Francisco Dorneles, por exemplo, que eram ambas as principais figuras da área financeira. Mas quando chegava a parte regional, eles não estavam à altura para discutir comigo. Quando discuti com eles, eu maneirava, sabia que eles eram até mais formados do que eu, mas na regional nada, e até hoje.
Quando eu era deputado, não mais como constituinte, Fernando Collor foi eleito. Ele veio com duas grandes medidas provisórias. Uma estabelecendo o que seriam objetivos gerais, e outra sobre a questão financeira, que
O pessoal então que havia trabalhado na constituinte escolheu Osmundo Rebouças para ser o relator da medida provisória dos objetivos gerais e me chamaram para ser o relator dessa MP específica econômica, para vermos que a política é como se fosse quase outro mundo.
Nesse instante, é como se o Congresso — embora tenha algumas mesmas pessoas — não fosse mais o mesmo Constituinte. Antes ele tinha autonomia, tinha força, já agora não, ele estava exercendo a função simplesmente de Congresso. Osmundo entrou no esquema, foi relator e até para viabilizar o governo do Collor.
E a outra MP, que seria o outro passo do governo, eu recusei, disse: "Olha, me desculpe, eu até entendo que vocês possam querer aprovar, mas eu não vou ser instrumento, porque vim de uma Constituinte onde tudo que a gente defendeu, pregou e escreveu foi contra isso. Fazer confisco? Eu não vou me prestar para isso. Vocês vão ter de entender”.
Estou falando isso para dizer que já em seguida à Constituinte, o Poder Legislativo não operava como o Constituinte, porque já não tinha aquele poder, foi enfraquecendo. Se formos comparar, nesses últimos anos, quem é a representação, eu não sei nem dizer quem são, porque isso não tem relação com o que seria a qualidade da representação. A política desceu a ladeira do ponto de vista dessa perspectiva de qualidade de formação, crescimento populacional. Desde a Assembleia Constituinte, no caso, foi diminuindo de nível.
Boa parte dos políticos que estão atuando agora, eram considerados baixo clero ou absolutamente desconhecidos na época. Por exemplo, Renan Calheiros, até hoje é senador e dá palpite, ele não comparecia. Valdemar Costa Neto nem tinha vez, foi preso, condenado, e hoje é o presidente do PL, amigo do (Jair) Bolsonaro.
Bolsonaro eu nem sabia quem era, nem marcava presença, não dava sinal de que podia contribuir com nada. Era um político do Rio de Janeiro, sujeito àquelas regras da política do Rio de Janeiro, a qual são as piores regras que existem na política do Brasil. Não é só pelo crime organizado, é pelo jeito de garotinho.
Do meu tempo, o Aécio Neves estava surgindo, menino novo que foi ser candidato a presidente, concorreu com a Dilma. O Geraldo Alckmin, hoje vice-presidente, era suplente por São Paulo.
O Lula do nosso tempo aparecia de maneira cordial, era interessante, era alegre, animado. Ele era o maior amigo do Luiz Eduardo, filho do Antônio Carlos (Magalhães), maior direitista. A gente jogava futebol no campo de um deputado da Amazônia que morava por lá.
Era impressionante como ele fez amizade, cresceu com aquele jeito de gente que está disponível para falar, brincar, para fazer tudo. Então ele pegou o PT à disposição e fez o que fez. De forma que hoje estamos, a meu ver, diante de um cenário absolutamente indecifrável. Com Lula ainda querendo ter espaço, com Bolsonaro, não tem como. Eu abandonei a política porque eu percebi que a política não estava no caminho que eu achava.
Agora o pessoal precisa entender: nem Bolsonaro é Bolsonaro isolado, nem Lula é Lula isolado, o poder é onde as pessoas não discutem. Quem é que exerce o poder, de onde é que ele vem? Quando Lula foi eleito em 2002, candidato pela terceira vez, e foi eleito apresentando cartilha petista comunista. Quando tomou posse, ele chegou com Henrique Meirelles (foi presidente do Banco Central entre 2003 e 2010), o ovo do sistema financeiro, que seria a antítese de tudo. E os dois vieram de braço dado.
O sistema financeiro está exercendo esse poder no Brasil há tempos, mantendo os caminhos mais favoráveis a ele, cobrando os maiores juros do mundo, não faz o financiamento, que é socialmente mais importante, para fazer o que é mais lucrativo.
Eu acompanhei as discussões, já estava fora da política durante a eleição do Bolsonaro, ele contra o (Fernando) Haddad. Não importava que fosse o Haddad ou quem quer que fosse, aquele tempo eu dizia: “Olha, tem dois fatores importantes para gente considerar: o antipetismo, no meu caso, e a Lava Jato. Eu sou a favor por conta disso”.
Eu conheço a pessoa que vai ganhar com isso, que não tem a menor condição para poder exercer e ser um bom presidente. O Bolsonaro não tem qualidade para ser presidente, não tem nada, eu votei Bolsonaro porque não tinha para onde correr, e deu no que deu. O cara pega o Brasil deserto, ele botou um 'rapazinho' lá do Rio de Janeiro, filho do Fernando do Maia (Rodrigo Maia, ex-presidente da Câmara dos Deputados), que não tinha expressão política, para presidir a Câmara dos Deputados num momento de importante transição.
No Senado, foi buscar o Davi Alcolumbre, o nome é fácil de saber, mas ninguém sabia. No Supremo (Tribunal Federal), quem assumiu foi Dias Toffoli, o Supremo era silencioso. A pandemia não pode ser responsável por isso, mas desandou tudo. E hoje o Supremo apareceu aí com essa exorbitância. Câmara e Senado não cumprem o papel, então o Brasil desanda, desce mais uma vez.

Confaz
Firmo de Castro foi presidente do Conselho de Política Econômica e Social do Estado, e já integrou o Conselho Nacional de Política Fazendária (Confaz)
Ordem do Mérito Aeronáutico
O economista foi agraciado com a Ordem do Mérito Aeronáutico, no Grau de Grande Oficial, e com a Medalha do Mérito Industrial pela Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec)
Consultoria
Atualmente, Firmo é Diretor-Executivo da Star - Serviços Técnicos, Assessoramento e Representações Ltda., onde presta consultoria à execução de projetos empresariais
Grandes entrevistas