
Luiz Felipe Pondé é um dos principais expoentes da direita não bolsonarista no campo da filosofia. Foi justamente antes de um evento focado no setor de energia para o qual palestrou que ele recebeu O POVO para uma conversa franca sobre temas polêmicos, como política, embates geracionais, feminismo e a importância da dúvida.
Seu estilo parece provocar os dois principais agentes do debate político brasileiro atual, o bolsonarismo e o lulopetismo. Ao mesmo tempo em que não poupa críticas à esquerda, também não pensa duas vezes antes de classificar a extrema-direita como “o fim da picada” e “uma catástrofe que devorou a direita brasileira, reduzindo-a a um neurônio e meio”.
Na conversa, ele revisitou temas que o tornaram conhecido do grande público, como a crítica ao politicamente correto. Em 2011, ele lançou o Guia Politicamente Incorreto da Filosofia, obra que considera ainda mais atual nos dias de hoje. “Só precisei atualizar a parte sobre publicitários, que ficaram ainda mais bobos, acreditando que vão salvar o mundo com propaganda de banco”, dispara ao falar de uma reedição feita em 2019.
Também não podia passar a entrevista sem lembrar o artigo da "direita festiva", publicado em 2014, que rendeu por um lado zombaria de parte da esquerda, inspiração para liberais e crítica das feministas ao citar jovens que não conseguiam “pegar mulheres” por serem obcecados por tema como a taxa Selic ou a obra do teórico Ludwig von Mises, espécie de papa do liberalismo.
“Direita festiva é ter assunto além de mercado. Pergunte para qualquer mulher: a queixa delas é que os caras são uns idiotas”, relembra.
Pondé também diferencia a “direita democrática”, que “sabe comer de garfo e faca”, do bolsonarismo, que considera uma distorção grotesca. Critica ferozmente o que considera a hegemonia cultural do PT.
Para ele, o papel do filósofo, em tempos de polarização, é justamente não se deixar ser polarizado, mas com uma dose de sarcasmo quanto a essa possibilidade. “Seria fazer o papel de Sócrates — e veja no que deu: ele acabou condenado à morte”, satiriza.
Pondé também diz preferir a dúvida às certezas absolutas. “Só quem tem muita convicção é quem lê pouco”, resume. E, por falar nisso, ao ler parte de seu pensamentos você pode até sair com algumas certezas ou dúvidas, mas não sem alguma impressão forte sobre o que ele fala.

O POVO - O senhor lançou em 2011 o ‘Guia Politicamente Incorreto da Filosofia’. O que acredita que permanece forte no seu pensamento daquele período. E o que acredita que mudou mais? Ou não se transformou nada?
Luiz Felipe Pondé - Olha, o tema (do politicamente correto) não é um tema com o qual eu me ocupe mais. Eu acho que piorou. O livro é mais atual hoje do que era na época, e eu fiz uma reedição em 2019.
E eu li ele inteiro de novo para ver se precisava mudar muita coisa. Na verdade, eu só tive que fazer um ajuste na parte dedicada aos publicitários, que piorou muito. Eles eram pessoas que discutiam as coisas para valer e hoje eles são tão politicamente corretos, quanto o resto do povo.
Eles acreditam nas bobagens que eles inventam. Acham que vão salvar o mundo com propaganda de banco. E hoje tem um aspecto que também não existia no "politicamente correto" que é o "juridicamente correto". E eu falo sobre isso na nova edição. O juridicamente correto é essa coisa dos processos (judiciais). Então, eu acho que piorou muito de lá para cá, deixou todo mundo mais bobo.
OP - Esse termo politicamente correto era muito falado pelo José Simão, quando falava do "tucanês". Esse conceito começou muito ligado ao PSDB e depois se tornou um termo mais associado à esquerda. Hoje, esse politicamente correto está mais ligado ao quê?
Pondé - Ele nasceu na esquerda americana. Aqui o vínculo dele é a tucanada, no sentido de que ficava sempre em cima do muro. Então, politicamente surgiu na esquerda dos Estados Unidos e sempre foi de esquerda. Surgiu na ideia de controle da linguagem. O politicamente correto é uma espécie de ancestral do identitarismo.
OP - Que hoje é criticado por parte da própria esquerda…
Pondé - É! Tem polêmicas internas na esquerda. A esquerda clássica não é identitária, é universalista. Na realidade, o politicamente correto virou uma guerra de mercado, uma forma de destruir carreira ou de gerar patrocinador. É uma patifaria.
Com as redes sociais, então, virou uma patifaria geral. Acho que não mudou de lado, ideologicamente falando, continua no espectro da esquerda, de uma esquerda que perdeu o objeto. Não dá para acabar com o capitalismo, então, vou acabar com as pessoas que eu não gosto.
OP - E falando sobre a direita: o senhor escreveu um artigo ali que viralizou em 2014, que foi sobre a “direita festiva”. A direita avançou no sentido do que o senhor discutia ou não?
Pondé - O que eu discutia no artigo era que menino de direita não conseguia pegar mulher porque era muito chato. Era isso o que eu discutia no artigo porque teve uma festa no evento que eu estava de jovens liberais. Era uma festa ao final do evento.
E um amigo estava todo animado por essa festa e eu falei: Olha, eu nem vou nessa festa, porque você vai ter, sei lá, cem caras bêbados falando de taxa Selic, mercado financeiro, e vão ter umas cinco meninas, coitadas, querendo fugir! Porque os moleques liberais não conseguem falar com mulher.
Falar de economia com mulher é para assustar. Falar para qualquer pessoa, aliás. O artigo falava disso. De que a direita festiva era necessário para os meninos conseguirem atrair meninas. Eu dizia: Olha, com menina você conversa sobre cinema, sobre arte, sobre assuntos que tenham a ver com literatura.
Economia é uma ciência triste. E os caras liberais da época eram muito bobinhos. Eles só ficavam discutindo mercado. Eu não acho que melhorou muito de lá pra cá. É claro que logo depois teve alguns meninos que mandaram fotos, dizendo: - Nossa temos meninas no nosso grupo de estudos liberais.
Não acho que melhorou muito. Assim, grande parte dos meninos liberais são muito ligados no mercado financeiro.
OP - O senhor citou algumas diferenças dentro da esquerda e da direita. Como o senhor enxerga a divisão entre a bolsonarista e a dita direita democrática?
Pondé - Eu acho que a direita democrática é aquela direita que sabe comer de garfo e faca. O bolsonarismo é o fim da picada. O bolsonarismo foi uma catástrofe que aconteceu com a direita brasileira. Ele devorou a direita e reduziu a direita a um neurônio e meio. Nem para dizer que é conservadora no sentido filosófico dá para dizer.
O pensamento conservador é profundamente mais complicado que isso e hoje, de fato, do ponto de vista eleitoral, o meu sonho de consumo é que o bolsonarismo se acabasse e o PT também, mas evidentemente que é um sonho. O bolsonarismo talvez acabe, mas o PT pode durar mais uns 100 anos porque ele tem apoio de quase toda a inteligência do País.
Quase toda a inteligência do País baba em cima do Lula, do PT, dessas coisas. Acha lindo essa coisa da soberania que o Lula fala. Tudo isso é uma bravata. Então, a direita possível de que se faça muito em São Paulo, do Tarcísio, como um bolsonarista moderado que deu uma radicalizada. Não sabe se sai para presidente e comete o erro do João Doria ou se tenta ser reeleito.
Eu acho, em geral, a política brasileira muito medíocre e tem a ver com a capacidade que a gente tem de eleger medíocres. O País infelizmente tem uma dificuldade educacional muito grave. Há muito tempo para resolver isso nos próximos 50 anos.
Essa direita democrática a qual você pergunta, pode ser que se o Bolsonaro de fato sair do páreo, e se conseguir uma costura entre ele como cabo eleitoral e algum outro candidato, eu estou pensando em gente como o Ronaldo Caiado, o próprio Tarcísio, o Ratinho Júnior, menos o Romeu Zema, que eu acho meio espalhafatoso, talvez você tenha uma chance de resgatar aqueles que não são petistas do buraco que o bolsonarismo os jogou.
OP - Dentro desse cenário, a gente vê a polarização. E aí, qual o papel do filósofo nesse cenário de polarização?
Pondé - O primeiro papel é não ser polarizado. Ele não devia torcer por ninguém. Não deveria ser um intelectual orgânico, o que não acontece. A maior parte dos intelectuais brasileiros são petistas e os jornalistas também.
Redações inteiras são petistas. Eu acho que esse seria o primeiro papel. Seria fazer um pouco o papel de Sócrates. É difícil porque ele acabou sendo condenado à morte. O papel de alguém que tenha como função, tentar pensar com conceitos um pouco melhores e mais claros.
Eu diria que o primeiro papel é não servir a partido político nenhum. Esse é o primeiro papel do filósofo e do intelectual, nesse assunto de polarização.
OP - Outra coisa que a gente associa diretamente com a palavra polarização é a certeza. Quem é polarizado tem sempre muita certeza. O senhor fala muito das dúvidas. Qual a importância da dúvida no processo filosófico?
Pondé - Total! A dúvida está no coração e no nascimento seja da filosofia socrática, sofística, cética. Só quem tem muita convicção é quem lê pouco. E na política é fácil você praticar a polarização. Na verdade, a polarização é muito boa para os políticos, porque eles ficam focados nas bolhas e em alimentar a semântica miserável que vem das bolhas, as palavras empobrecidas e tal.
Então, a dúvida é o contrário disso. É claro que ficar em dúvida o tempo inteiro pode te paralisar, mas em relação à polarização, hoje em dia, eu acho que a dúvida é essencial, no atual momento em que a gente está vivendo. É um certo rompimento com aquilo que os americanos chamam de ‘partnership’, ou seja, você ser aliado, parceiro, militante de alguns dos dois polos. Infelizmente, isso não acontece.
OP - Como é que o senhor enxerga a chamada geração Z? Muita gente problematiza a geração. O senhor tem otimismo ou acha que as contradições da geração Z são similares às das demais demarcações anteriores?
Pondé - Eu acho que a reflexão sobre as gerações é muito atrapalhada porque quem inventou esse negócio foi a publicidade preocupada com um certo discurso associado a gadgets.
Veja que a geração millenial e a própria geração baby boomer estava associada a gadgets, ao enriquecimento norte-americano no pós-Segunda Guerra.
A geração millenial é associada à revolução digital. Então, é um fenômeno de mercado que acabou ganhando referenciais sociológicos, psicológicos e tal.
Então eu acho que, primeiro, eu diria para a geração Z, o que o Nelson Rodrigues disse uma vez para os jovens: - Envelheçam! Deixem a vida passar por cima de vocês. Ela passa por cima de todo mundo.
Ao mesmo tempo, eu acho que os jovens atrapalham muito os jovens. Projetam um monte de baboseira em cima dos meninos. Que eles sempre tem de ser bem resolvidos. Confunde jovem com iPhone.
OP- É o tal do otimismo tóxico?
Pondé - Eu não costumo usar muito a palavra “tóxico”, mas sem dúvida nenhuma é um otimismo idiota. Quem disse que, porque alguém nasceu depois, é melhor? Isso é uma ideia de uma modernidade empobrecida.
OP - O senhor falou que a direita parece carecer de sofisticação intelectual. O que o senhor acha que seria necessário para suprir essa deficiência? Qual seria o caminho possível para a direita sair dessa falta de sofisticação?
Pondé - Primeiro é romper definitivamente com o bolsonarismo, com os seus representantes, com a figura pessoal dele. Sair dessa história de ‘anistia para cá, anistia pra lá’. Deixar essas coisas que eles ficam gerando. Depois, é estudar. Que os jovens façam faculdade, ocupem espaços em sociologia e em filosofia.
E, quando eu digo isso, não é porque eu quero dizer que esses jovens têm que se transformar em eleitores de partidos da direita. O que eu tenho em mente, quando falo “direita” no sentido positivo, é que sejam pessoas que possam criticar o domínio hegemônico perverso do PT, nesse País.
OP - E dá pra fazer isso sem perder a ‘festividade’?
Pondé - A festividade no sentido de pegar as meninas. Está ligada uma coisa com a outra. É ter repertório. Pergunte para qualquer mulher, para qualquer menina o que ela acha de cara sem repertório. É claro que eu não estou dizendo que é uma coisa universal, mas a queixa de grande parte das mulheres, hoje em dia, é que os caras são uns idiotas.
Então assim, a coisa da direita festiva, que era uma brincadeira. Essa brincadeira nasceu de um café da manhã em que eu e o Leandro Narloch estávamos dando risada de como os meninos liberais eram chatos.
E assim, então, ela está ligada ao fato de dizer: “Olha, os jovens liberais de direita eles acreditam nessa coisa de mercado, mercado, mercado. Não tem nada que salve. O Brasil é ruim disso mesmo. O Estado é paquidérmico. O PT é uma gangue. Cresce o governo para roubar mais dinheiro para poder filiar mais redes e que ele instale mais gente para trabalhar para ele em todos os níveis. Isso é tudo verdade.
O Brasil é um país que poderia ter uma estado menor, mesmo, mas eles só falam disso.
OP - O senhor falou sobre essa questão das mulheres. O que as agrada e o que não as agrada. E quanto ao feminismo, qual é a sua visão sobre o feminismo? O que vê como os principais erros e os principais acertos?
Pondé - Esse é um assunto que não me interessa mais. Eu já discuti muito com elas. Eu acho que muitas delas radicalizaram demais no discurso, quando se meteram debaixo dos lençóis. Eu, inclusive, escrevi colunas falando sobre isso.
Não há dúvida quanto às questões de salário, de violência contra a mulher. Isso tudo está certo: discutir isso e buscar acabar com isso. O que eu sempre discuti com o feminismo foram os seus excessos de demonizar todos os homens, demonizar os meninos, se meter na vida sexual.
Eu não escrevo mais sobre isso porque: primeiro, não me interessa; segundo, as feministas radicais venceram em grande medida na bolha intelectual, da educação e do mundo da arte. E também hoje em dia, o problema dessas feministas radicais, é que elas sempre pensam nos piores homens.
Para elas, só existem homens ruins. Sabe essa história de se você é homem, você é responsável pelo patriarcado?
Eu não me sinto nenhum pouco responsável pelo patriarcado. Nunca o pratiquei, não tive acesso e nem acredito nele como um critério absoluto de análise histórica. Então, eu criticava os excessos supostamente inteligentes, mas não das coisas que falei antes.
OP - Outro tema que acho que a gente perpassou, é a questão da relação do homem com o tempo e com o trabalho. Por exemplo: a gente vive modelos diferentes, principalmente no pós-pandemia, a questão do home office; mais recentemente, a questão da inteligência artificial, dando uma suposta produtividade, imensa e impensável há dez anos atrás. Há uma discussão também sobre escala 6x1 ou 5x2. Como o senhor vê essa relação do homem com o trabalho?
Pondé - Eu acho que o Brasil, às vezes, delira. Um país pobre querendo diminuir a escala de trabalho. O Brasil delira! O Brasil precisa trabalhar mais. Sobre outros modelos de trabalho, eu acho que eles podem funcionar em algumas áreas.
Algumas empresas se instalaram bem nisso, outras fizeram todo mundo voltar. Tem grandes jornais do Brasil que não tem mais sede e todo mundo trabalha em casa. E tem grandes jornais do Brasil que fizeram todo mundo voltar para redação.
Então, acho que há uma multiplicidade nisso aí. Agora, aquelas áreas em que funciona o trabalho em casa, por exemplo, em São Paulo, onde o trânsito é um inferno, acho que é muito boa a ideia. Tem algumas áreas que funcionam, há algumas pessoas que funcionam e outras não. Não dá para universalizar.
OP - E esse enigma chamado Inteligência Artificial. O senhor acha que vai levar a gente para onde?
Pondé - Acho que só quem vai poder falar isso é quem viver daqui a 100 anos. Agora tem especulação. Por enquanto eu acho que é uma ferramenta de bom uso. Eu não sou apocalíptico, não, até agora!
OP - Nem apocalíptico e nem integrado?
Pondé - É, eu acho que isso... quem vai poder falar disso, com propriedade, é quem viver daqui a 100 anos. Ela vai acabar empregos, vai criar outros. Ela pode ser útil em muitas coisas. O medo mesmo é desses jovens que vão crescer com elas. Aí tem gente que tem muito medo.

Origem judaica
Nasceu na cidade de Recife, em Pernambuco, sendo filho de pai militar católico e mãe judia. A origem judaica o aproximou de sua esposa, Danit Zeava Falbel Pondé, israelense e também judia. Os dois se conheceram em um kibutz. O casal tem dois filhos, Dafna e Noam.
Fã de Nelson Rodrigues
O filósofo é um fã declarado de Nelson Rodrigues, a quem classifica de "um jansenista brasileiro". O jansenismo é uma doutrina que enfatiza a depravação humana pelo pecado original. Na entrevista, citou o cronista ao lembrar do conselho que ele deu aos jovens, de que deveriam envelhecer.
Idas e vindas com o ateísmo
Já se disse um ateu não praticante, mas também como um ex-ateu. Nessas idas e vinda sempre se manteve crítico ao ateísmo materialista, que considera filosoficamente raso e diz que encontra na ideia do Deus bíblico algo belo e atraente.
Grandes entrevistas