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José da Páscoa Madeira Neto: dono do quintal onde se ergueu a musculação cearense
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Reportagem Seriada

José da Páscoa Madeira Neto: dono do quintal onde se ergueu a musculação cearense

Fundador da Podium, pioneiro da musculação no Ceará e personagem central na formação do fisiculturismo no Estado, Páscoa relembra magreza na infância, o enfrentamento ao preconceito e a convicção de que a musculação sempre foi base de tudo
Episódio

José da Páscoa Madeira Neto: dono do quintal onde se ergueu a musculação cearense

Fundador da Podium, pioneiro da musculação no Ceará e personagem central na formação do fisiculturismo no Estado, Páscoa relembra magreza na infância, o enfrentamento ao preconceito e a convicção de que a musculação sempre foi base de tudo Episódio
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Antes de virar palco de grandes torneios e alta audiência, a musculação no Ceará foi quintal. Eram pesos formados por cimento em lata de leite e madeira improvisada, com mente guiada por revista estrangeira na mão de uma criança. Muito antes de holofotes, patrocínios ou grandes campeonatos, o fisiculturismo já foi gesto quase solitário — por vezes, ridicularizado.

Foi nesse cenário, com terreno áspero, que se iniciou a trajetória de José da Páscoa Madeira Neto, personagem central na consolidação da musculação não apenas no Ceará, mas como parte ativa da história do esporte no Brasil.

Quando ainda jovem — franzino aos 11 anos —, decidiu que precisava “fazer alguma coisa” para mudar o próprio corpo. Ali, ele não estava apenas começando uma prática física: estava, sem saber, desbravando um caminho em terras alencarinas.

José da Páscoa Madeira Neto (Páscoa) é proprietário da Academia Poduim de musculação(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE José da Páscoa Madeira Neto (Páscoa) é proprietário da Academia Poduim de musculação

Em uma época em que academias eram raridade e a musculação carregava estigmas morais e sociais, Páscoa cresceu treinando, aprendendo e observando — sempre com a convicção de que aquele universo não era desvio, mas fundamento. A musculação, para ele, sempre foi base: do esporte, da saúde, da disciplina e da educação do corpo.

A fundação do Clube Podium de Musculação, em 1984, marcou mais do que a abertura de uma academia; simbolizou a organização de um campo que até então sobrevivia de forma dispersa.

Com equipamentos reaproveitados, escolhas pensadas pelo cearense e uma visão que buscava referências internacionais, a Podium se tornou um ponto de irradiação — no sentido positivo da palavra. Dali saíram atletas, treinadores, campeonatos e federação em uma história que pode ser vista a olho nu nos primeiros passos de quem adentra o local, decorado com fotos, troféus e muita história.

Tal história não foi construída com facilidade, já que em seu caminho, que transitava inicialmente pela avenida João Pessoa, os maiores obstáculos não eram físicos, mas sociais: o preconceito explícito, cotidiano e cruel. A musculação era tratada como prática menor, associada à ignorância, à marginalidade ou à caricatura do “corpo sem mente”.

Páscoa e sua geração não apenas resistiram a essas visões preconceituosas, como as enfrentaram com trabalho, formação, ciência e exposição pública. Para O POVO, a lenda do fisiculturismo no Ceará falou sobre a infância magra que virou força, o enfrentamento ao preconceito, a construção de um legado coletivo e a convicção de que a musculação sempre foi — e segue sendo — base de tudo.

 

 

O POVO - Você era ligado a exercícios e esportes desde a infância? De onde surgiu seu interesse por fisiculturismo?

Páscoa - Em 1962, eu tinha 11 anos de idade e eu era muito fininho. Um dia, eu pensei: “Tenho que fazer alguma coisa porque eu sou magro demais". Fui no fundo do quintal e fiz minhas "marombas". Eu pegava quatro latas de leite ninho, colocava uma madeira dentro, enchia de cimento, e era como eu me exercitava, através de umas revistas.

Meu tio era atendente da base aérea de Fortaleza e trazia coisas da Argentina e tinha muita coisa como revistas, eu ia pegando (as informações). Com 12 anos de idade, eu já entrei numa academia, do Professor Luiz de Ferro, que nessa época era na Rua do Ouvidor. Hoje é a rua Guilherme Rocha (no Centro de Fortaleza). E por aí eu comecei a treinar, fazer minhas "marombas".

'Nessa academia eu conheci uma pessoa chamada José Carlos Miranda, que foi o primeiro campeão do Estado do Ceará do fisiculturismo. Disse a ele em 1969: “Miranda, um dia eu vou botar uma academia e você vai treinar comigo”. Ele está comigo há quase 39 anos.'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Nessa academia eu conheci uma pessoa chamada José Carlos Miranda, que foi o primeiro campeão do Estado do Ceará do fisiculturismo. Disse a ele em 1969: “Miranda, um dia eu vou botar uma academia e você vai treinar comigo”. Ele está comigo há quase 39 anos.'

O POVO - Como e quando você percebeu que o fisiculturismo seria sua paixão e seu norte de vida?

Páscoa - Nessa academia eu conheci uma pessoa chamada José Carlos Miranda, que foi o primeiro campeão do Estado do Ceará do fisiculturismo. Disse a ele em 1969: “Miranda, um dia eu vou botar uma academia e você vai treinar comigo”. Ele está comigo há quase 39 anos.

Nessa época eu era assistente comercial, e subgerente da Mesbla (antiga de rede de lojas de departamento) e comecei a comprar umas besteirinhas e pensei: “Vou abrir uma academia", naturalmente, e fui fazendo uns "pesinhos".

No dia 14 de abril de 1984, eu fundei o Clube Podium de Musculação aqui na avenida João Pessoa numa casa velha, uma vivenda. Comecei com quase nada, com um bocado de ferrinho sujo mesmo na época, comprando das outras academia o que eles não queriam.

Dentro da academia, hoje, eu tenho três peças dessa época, que eu não quis me desfazer nunca. E eu comecei a comprar equipamentos e escolhi a melhor fábrica que tinha no Brasil.

Até me chateei (com a imprensa) uma vez sobre isso, porque uns repórteres fizeram uma matéria antiga e depois perfis famosos publicaram “O pessoal treinava de pé descalço”. Essa matéria tem, acho, quase 2 milhões de visualizações. Esse vídeo da época tá rodando direto.

'As pessoas não falam a respeito (do estigma em cima do fisiculturismo)'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'As pessoas não falam a respeito (do estigma em cima do fisiculturismo)'

O repórter diz assim: "Na época as academias com equipamentos precários, tudo enferrujado, banco rasgado”. Sendo que eu tive a ideia de enrolar os equipamentos com aço inoxidável. Tanto que duram até hoje os equipamentos.

O POVO - E há um prestígio na Podium por conta desse estilo old school (velha guarda)…

Páscoa - Ano passado esteve aqui em novembro o (fisiculturista norte-americano Ronnie) Coleman, o maior atleta de todos os tempos, oito vezes Mister Olympia (maior evento do esporte). Semana passada, veio para cá o (Marcelo) Cruz, que é um dos maiores treinadores do Brasil, trazendo o (Gabriel) Ganley e a Sofia Bianco.

Dentro da história do fisiculturismo, pode até ter algum (clube old school) mais antigo do que a Podium, mas em termo de trabalho, de tanta divulgação, só existe mesmo o Clube Podium de Musculação. E já estivemos em outros locais.

No dia 2 de março de 1995, eu me mudei para cá (endereço atual, no bairro Itaoca). Tem 31 anos que eu estou aqui. Esse prédio eu, dois pedreiros e quatro ajudantes fizemos na marra, em forma de ginásio, como um clube mesmo de musculação. Eu fiz tendo como modelo a Gold Gym, que foi onde surgiu Frank Zane, Arnold Schwarzenegger, essa turma todinha.

O POVO - Apesar de todos esses grandes nomes que retratavam o fisiculturismo na época, existia muito estigma em cima do esporte, certo?

Páscoa - As pessoas não falam a respeito disso. Para você ter uma ideia, em 1963, quando eu entrei na academia, o meu patrão chegou, me olhou, me chamou e eu disse: “O que você tá fazendo?”. Eu disse: “Seu Geraldo, eu tô fazendo 'maromba'. Eu entrei na academia, eu tô fazendo halterofilismo".

Ele perguntou: "Por que você não faz esporte de homem?". Eu respondi: "Qual é, seu Geraldo? Esporte de homem?". Ele rebateu: "Esporte de homem é luta livre, é capoeira, é judô, é jiu-jitsu. Esses são esportes de homem".

'Eu fundei a Podium no dia 14 de abril de 1984 e fundamos a Federação Cearense de Fisiculturismo no dia 14 de setembro de 84, cinco meses depois. Antigamente era difícil. Preconceito era só o que tinha. Como eu disse a você, a gente era considerado 'viado, troglodita, burro'.'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Eu fundei a Podium no dia 14 de abril de 1984 e fundamos a Federação Cearense de Fisiculturismo no dia 14 de setembro de 84, cinco meses depois. Antigamente era difícil. Preconceito era só o que tinha. Como eu disse a você, a gente era considerado 'viado, troglodita, burro'.'

Lembro que eu respondi que eu não me identificava e ele disse: “Isso aí que você tá fazendo é um esporte de viado (termo pejorativo para homossexual)”. Eu disse: "Ah, é?", e ele continuou “Você faz algum outro esporte?”. Eu só respondi: “Faço sim. E agora que o senhor vai me insultar mesmo porque eu sou desesperado por voleibol”.

Era um tratamento como se a gente fosse uma pessoa sem cultura. E olha que eu sempre trabalhei dentro do esporte mostrando que isso aqui é a base de tudo.

Eu tive aqui dentro da casa aquele homem lá (mostrando o pôster do fisiculturista Nasser El Sonbaty). Não é nada mais nada menos que vice-campeão do Mister Olympia e do Arnold Classic. Ele passou 17 dias comigo. Fui fazer uma matéria na época e perguntei o que queriam fazer e queriam levar ele para a praia. “E na praia a gente vai botar uma pessoa para dar um murro nele”.

José da Páscoa começou a se dedicar à musculação na década de 1970
Foto: FCO FONTENELE
José da Páscoa começou a se dedicar à musculação na década de 1970

Eu só respondi: "Tu quer pegar Nasser El Sonbaty, um homem que está nos Estados Unidos e onde ele chega estendem um tapete vermelho, que fala 10 a 12 idiomas, que tem de cinco a seis formaturas, e vai botar ele na praia para um cara dar um murro? No mundo do fisiculturismo, ele é tão fantástico que o apelido dele é professor." Falei que não íamos fazer a matéria.

O POVO - Conforme a Podium foi nascendo, no cenário que existia, você sentia que estava desbravando ou já existia uma história muito consistente do fisiculturismo aqui no Ceará antes?

Páscoa - Eu fundei a Podium no dia 14 de abril de 1984 e fundamos a Federação Cearense de Fisiculturismo no dia 14 de setembro de 84, cinco meses depois. Antigamente era difícil. Preconceito era só o que tinha. Como eu disse a você, a gente era considerado “viado, troglodita, burro”.

'Que choro é esse?, eu pensava. Tenho mulher aqui que faz leg press com 580 quilos.'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Que choro é esse?, eu pensava. Tenho mulher aqui que faz leg press com 580 quilos.'

E começamos a formar os primeiros campeonatos. Quando fui fazer o primeiro, disse: “Vou no (shopping) Iguatemi. Quem é o chefão? Vai ser um sucesso muito grande". Eu sempre pensei grande. Em 1987, nós fizemos o primeiro Campeonato Cearense com quase 120 atletas. Eu nunca quis competir. Eu quis que a coisa crescesse, mas era muito difícil.

Para crescer, eu tive que ir para São Paulo. Falei com Eugenio Koprowsk, com Dr. José Maria Santarém e começamos a fazer cursos de musculação aqui em Fortaleza. Todos os eventos de cursos que eu fazia, eu queria sempre a chancela de uma universidade.

Também havia os campeonatos. A gente fazia um campeonato belíssimo. E às vezes as pessoas falavam: “Não, mulher só pode fazer funcional”. “Mulher não pode levantar peso”. Que choro é esse?, eu pensava. Tenho mulher aqui que faz leg press com 580 quilos.

Levei atleta para competir no Sul-Sudeste. Ia com minha mulher de (ônibus) semi-leito, dois dias na estrada, e a atleta Ianny foi quarto lugar no campeonato. Todo evento eu colocava mulheres e ganhavam tudo.

O POVO - Sobre esse e outros preconceitos, você sente que de alguma maneira você e a sua geração tiveram de educar um pouco a sociedade?

Páscoa - Cem por cento, pois ninguém gostava de fazer musculação. Na época, eu já dizia que a musculação é a base de tudo. Se você vai nadar, jogar futebol, voleibol… Para cada exercício desse há um treinamento de musculação e preparação específicos. E isso já vem desde a época da Grécia. Na Grécia havia fortalecimento de tudo, com pedras.

E quando eu comecei não tinha academias assim. Hoje você pega uma academia dessa aqui, uma maravilha, tudo em aço inoxidável, tudo tem rolamento, tudo. Se algo tá ruim, a gente vai estudar porque aquele movimento tá ruim. A gente desbravou totalmente porque não tinha (quem fizesse antes).

Claro, a gente teve uma grande ajuda do Instituto Biodelta e do José Maria Santarém Sobrinho. Esse homem, como cientista da Universidade de São Paulo (USP), deu muita força, fez estudos. Nós falávamos o que estava fazendo e ele fazia os estudo.

Antigamente, era tudo muito empírico. Nasser fazia repetições até a falência (muscular) total, até não aguentar. E nos Estados Unidos as coisas sempre foram mais avançadas que no Brasil, em termos de tudo. 

Antigamente, também, para ver os campeonatos com Mr. Olympia, se passava seis meses para receber uma fita de vídeo cassete. A falta de acesso a essas coisas certamente também não ajudava. Hoje em dia está tudo mais fácil por estar acessível. 

 

 

O POVO - Esse desbravamento também se desenrolou na criação de competições?

Páscoa - Sim. Quando eu pensei em fazer a primeira Copa Norte-Nordeste, onde foi que eu fiz? Eu fiz lá no Theatro José de Alencar. Eu sempre pensei alto porque, na minha visão, a musculação é a base de tudo, da vida. E quando fiz esse torneio lá, lotou. Hoje em dia, se você vai tentar entrar lá, você nem entra.

Mas eu fiz dois campeonatos Norte-Nordeste, consegui ir lá para o Centro de Eventos, e conseguia lotar. Com 2 mil a 2.500 pessoas, E foi uma uma dificuldade porque não tinha dinheiro. Naquele tempo, eu não cobrava nada de atleta. Um atleta para competir num evento grande desse, no mínimo que ele vai gastar é R$ 1 mil. No tempo que eu fundei e tudo, a gente pagava praticamente tudo, porque eu gostava.

'Naquele tempo, eu não cobrava nada de atleta. Um atleta para competir num evento grande desse, no mínimo que ele vai gastar é R$ 1 mil. No tempo que eu fundei e tudo, a gente pagava praticamente tudo, porque eu gostava'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Naquele tempo, eu não cobrava nada de atleta. Um atleta para competir num evento grande desse, no mínimo que ele vai gastar é R$ 1 mil. No tempo que eu fundei e tudo, a gente pagava praticamente tudo, porque eu gostava'

Uma vez eu coloquei um carro que, na época, valia R$ 100 mil para financiar os torneios. Não deixava os atletas desamparados. Eles eram o que eu tinha de mais precioso. Então eu tirava do bolso. Marcos Fernandes, meu amigo, na época ele brigava muito comigo por isso. Ele falava: "Olha, vai ser muito difícil quando o próximo presidente (da Federação) entrar, porque você paga tudo". Mas eu sempre fiz por amor e não me arrependo.

O POVO - Nessa trajetória, houve muitas portas fechadas, você tirou muito dinheiro do seu bolso para fazer o fisiculturismo no Ceará acontecer. Você sente de alguma forma que não conseguia patrocínio porque as pessoas marginalizavam muito o fisiculturismo?

Páscoa - Uma vez eu fui falar com meu amigo João Inácio Júnior (apresentador cearense, hoje na TV Diário), que sempre nos deu espaço no programa, divulgava, e ele foi numa das empresas de amigo algum dele para buscar um patrocinador.

'Às vezes, quem fala isso pensa que dentro da musculação ou de qualquer competição é fácil. Que vai jogar e ganhar os maiores títulos e ser o melhor. Não vai, porque ginástica não é fórmula de bolo'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Às vezes, quem fala isso pensa que dentro da musculação ou de qualquer competição é fácil. Que vai jogar e ganhar os maiores títulos e ser o melhor. Não vai, porque ginástica não é fórmula de bolo'

Quando ele voltou, disse que não tinha dado certo porque o cara disse que não queria associar o nome da empresa dele “a um esporte que só tem 'bombado'”. “Ah, porque o Coleman é desse tamanho porque tomava esteroide anabolizante, porque fez isso e aquilo”. E porque é que todo mundo não é Mr. Olympia? Só ele. Foi oito vezes.

Às vezes, quem fala isso pensa que dentro da musculação ou de qualquer competição é fácil. Que vai jogar e ganhar os maiores títulos e ser o melhor. Não vai, porque ginástica não é fórmula de bolo. Cada pessoa tem seu tipo de treino.

Eu me lembro até que eu tinha um amigo muito grande, Chico Amorim, que treinava comigo. Fizemos um campeonato na Volta da Jurema (Beira-Mar), na praia. E quando eu falei onde ia fazer, ele disse: "Quem é que vai patrocinar seu evento"? E fizemos um esquema e ele me ajudou, mas eram muito poucos, era quem estava dentro que fazia uma coisa dessa.

Quando eu digo que o João Inácio Júnior é o maior divulgador do fisiculturismo brasileiro, é porque tinha anos que dava mais de 100 horas na TV. De 1 hora até as 3 horas, só o campeonato de fisiculturismo. E, hoje em dia, até influenciadores como Renato Cariani falam, em vídeo, sobre eu, dr. Santarém e Eugênio. A gente fazia tudo.

O POVO - Você citou o nome do Arnold Schwarzenegger algumas vezes. Você sente que figuras como ele ajudaram a quebrar o preconceito sobre a modalidade num geral?

Páscoa - O Arnold é o ícone do fisiculturismo mundial. Não existe outra pessoa, pois ele quebrou todos os paradigmas. Mas são muitos atletas que contribuíram para que o esporte chegasse a esse nível tão fantástico que é hoje em dia.

'Eu não tenho mais futuro. Eu tenho 74 anos. Tenho apenas passado e um pouco para continuar trabalhando. E faço por amor. O atleta para mim é tudo'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Eu não tenho mais futuro. Eu tenho 74 anos. Tenho apenas passado e um pouco para continuar trabalhando. E faço por amor. O atleta para mim é tudo'

O Coleman, eu tive a honra muito grande do Mister Olímpico de 1988 de estar aqui, o Nasser, Flex Wheeler — que o Arnold disse que ele foi o homem mais simétrico que apareceu até hoje. E como eu citei, o Cruz, Bianca, Gabriel…

E esse pessoal é o futuro. Eu não tenho mais futuro. Eu tenho 74 anos. Tenho apenas passado e um pouco para continuar trabalhando. E faço por amor. O atleta para mim é tudo.

O POVO - Falando em amor, vimos nos retratos e durante interrupções da entrevista que você recebe muito reconhecimento das pessoas. Como é que você se sente por ser visto dessa forma?

Páscoa - Eu sou muito emotivo. Choro até com desenho animado por conta do que há por trás da história. E vou te dar um exemplo do que me toca. Hoje de manhã eu estava aqui na recepção e chegou um menino na porta, olhou, pegou na minha mão e me abraçou.

Depois, ele falou: “O senhor imagina a honra de estar chegando, pegando na sua mão, lhe abraçando”. Eu digo: "Rapaz, é isso aí. Eu também fico muito satisfeito". Aí ele olhou para a porta e disse: "Isso aqui é uma energia totalmente diferente de qualquer academia". Tem um amigo que até diz: "Zé, se tu não fosse CPF (pessoa física). Fosse CNPJ (pessoa jurídica, empresa), tu era rico. Mas eu sou CPF.

Se alguém fala: “Estou aqui em uma situação difícil, eu não posso pagar aqui nesses três meses”, para mim não tem nada. E olha que estou passando por uma situação financeira terrível no momento, porque abriu uma academia de rede aqui vizinho e me levou muitas pessoas.

Mas quando ocorre algo assim, eu só fico contente. Não é o primeiro, nem o segundo, nem o décimo. E entenda, eu não sou orgulhoso em termos disso aí, eu sou apenas agradecido e fico lisonjeado e, não importa como, eu digo: eu gosto de gente. Não tenho nenhuma inimizade.

'Às vezes, as pessoas perguntam se não fico chateado com o surgimento de Ironbergs e dessas academias, mas não. Me sinto lisonjeado. A gente fica feliz pelo trabalho que fez. Não só, mas juntamente com muitas pessoas.'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Às vezes, as pessoas perguntam se não fico chateado com o surgimento de Ironbergs e dessas academias, mas não. Me sinto lisonjeado. A gente fica feliz pelo trabalho que fez. Não só, mas juntamente com muitas pessoas.'

O POVO - No cenário atual, o fisiculturismo ultrapassou muitas barreiras. Como é que você se sente, talvez lembrando da época que você ia lá para Rua do Ouvidor malhar, vendo que hoje em dia existe toda essa base para as pessoas e que, mesmo que essa história esteja crescendo, cada vez mais você segue como pioneiro dela?

Páscoa - Às vezes, as pessoas perguntam se não fico chateado com o surgimento de Ironbergs e dessas academias, mas não. Me sinto lisonjeado. A gente fica feliz pelo trabalho que fez. Não só, mas juntamente com muitas pessoas.

E a maioria no estado do Ceará, de profissionais que estão dentro da área hoje, dos antigos, todos eram meus atletas. As evoluções do que a gente criou, do que a gente inventou…

'A primeira coisa que a pessoa tem que saber é se ele tem genética para esse tipo de esporte. E tem que procurar um bom treinador, pois tudo é um laboratório'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'A primeira coisa que a pessoa tem que saber é se ele tem genética para esse tipo de esporte. E tem que procurar um bom treinador, pois tudo é um laboratório'

O POVO - E da musculação no geral, é o que você consideraria essencial para a pessoa ser um bom fisiculturista e de fato entender o que é esse universo?

Páscoa - Se você for falar em termos de competição, esse homem (Coleman) foi oito vezes campeão e, com tantos atletas, com bilhões de atletas no planeta, ele conseguiu ganhar oito títulos consecutivos. A primeira coisa que a pessoa tem que saber é se ele tem genética para esse tipo de esporte. E tem que procurar um bom treinador, pois tudo é um laboratório. Corpo não é fórmula de bolo.

Se chegar para mim, passar uma série, para o fotógrafo a mesma série, não, né? Também há o tópico alimentação e com o tempo ele vai descobrir se o cara tem genética, porque às vezes o cara é maravilhoso, mas tem uma perninha muito fina. E saber que o esporte é um lugar ingrato também, porque tu gasta dinheiro demais. E também é importante ter conhecimento. 

'Em termos de exercício, eu sempre digo para as pessoas: não existe isso de errado dentro de uma academia'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Em termos de exercício, eu sempre digo para as pessoas: não existe isso de errado dentro de uma academia'

A pior coisa que existe é a falta de conhecimento e hoje a internet tá aí: tem muita coisa boa, mas tem muita porcaria. Tem muita gente que fica dando, como fosse uma verdade, umas mentiras tão grandes. E não é só no fisiculturismo. Em tudo. As pessoas mentem muito e eu fico só olhando. 

Em termos de exercício, eu sempre digo para as pessoas: não existe isso de errado dentro de uma academia. Uma vez tinha uma pessoa julgando a maneira com o qual um rapaz tava treinando um movimento e, ao terminar, o cara veio me agradecer pela máquina porque ele tava treinando para um campeonato de arremesso de ferradura.

É por isso que nas minhas palestras eu sempre digo para as pessoas que não existe exercício errado, mas as pessoas também precisam se cuidar.

'Qual o momento mais importante da minha vida? É esse, eu estar com vocês aqui. É o momento mais importante da minha vida, pois eu estou vivo, estou conversando, estou expondo a minha história, o você quer publicar'(Foto: FCO FONTENELE)
Foto: FCO FONTENELE 'Qual o momento mais importante da minha vida? É esse, eu estar com vocês aqui. É o momento mais importante da minha vida, pois eu estou vivo, estou conversando, estou expondo a minha história, o você quer publicar'

O POVO - Para fechar, você tá você citou o respeito que o Coleman teve por você, mas que você não é futuro, que você é passado e presente. Só que você vai tá nesse futuro porque essas pessoas que estão fazendo esse legado graças ao que você pavimentou. Como você se sente por deixar esse legado para as pessoas?

Páscoa - Vou dizer uma coisa para você. Eu sou espírita e, depois que a gente deixar esse planeta, “Ah, porque eu vou fazer 1.000 orações”, não vai adiantar de nada. Ninguém sabe para onde é que vai, tudo é especulação que você sabe. Então eu não penso nisso.

Eu sou hoje, como Dalai Lama (líder espiritual do budismo tibetano) diz: ontem já passou, não adianta mais. Amanhã pertence a Deus e a palavra presente é o presente, é o presente de Deus e é presente.

Qual o momento mais importante da minha vida? É esse, eu estar com vocês aqui. É o momento mais importante da minha vida, pois eu estou vivo, estou conversando, estou expondo a minha história, o você quer publicar. E o mais importante é isso aí. Amanhã é outro dia.

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