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O bolsonarismo acabou?
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O bolsonarismo acabou?

Detenção e início do cumprimento da pena do ex-presidente encerra tentativa de ruptura democrática, envidencia enfraquecimento da base de apoio e reforça resiliência das instituições democráticas brasileiras
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Ato bolsonarista em 6 de abril pediu anistia a acusados de envolvimento com tentativa de golpe (Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP)
Foto: MIGUEL SCHINCARIOL/AFP Ato bolsonarista em 6 de abril pediu anistia a acusados de envolvimento com tentativa de golpe

Jair Bolsonaro foi preso e começou a cumprir pena. E, ao contrário do que previam aliados do ex-presidente, não houve clamor popular de massa nas ruas, as tarifas e sanções impostas pelos Estados Unidos como forma de pressão ao Judiciário brasileiro não deram resultado e o ambiente político em Brasília não efervesceu.

O contraste entre o futuro do subjuntivo, que projeta o campo da hipótese, e a realidade demonstra não só a resiliência das instituições do país, mas também uma nova fase do bolsonarismo, cada dia mais isolado, e que encontrou limites na forma de atuação política após perder respaldo popular, segundo especialistas.

Para o cientista político e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Eduardo Grin, a falta de mobilização popular de grupos-chave do bolsonarismo, como evangélicos, parte do agronegócio e a chamada bancada da bala, por exemplo, somada aos interesses partidário do "centrão", mostra que o bolsonarismo se isolou ao priorizar a defesa de Bolsonaro em detrimento de um projeto eleitoral.

"Essa ideia de uma pauta única em favor de anistia [a Jair Bolsonaro] vai acabando e tensiona a relação com outras forças políticas da direita tradicional ou com partidos de centro, que, na medida em que as eleições se aproximam, começam a perceber que essa é uma pauta tóxica, sobretudo no momento em que, a cada dia que passa, o bolsonarismo se mostra mais radicalizado, mais incapaz de fazer avanços para o centro e se transformando cada vez mais num agrupamento político isolado, com erros estratégicos muito fortes", diz.

Forças políticas da direita tradicional e do centro buscam um candidato alternativo à família Bolsonaro. Diversos governadores têm se cacifado para representar uma direita que apoia Bolsonaro, mas menos vinculada a ele.

Enquanto isso, sobra ao bolsonarismo um discurso cada vez mais radical, como forma de se aproximar de ícones internacionais da ultradireita, como Javier Milei, na Argentina, Viktor Orbán, na Hungria, e mesmo Donald Trump, nos Estados Unidos.

"Acho que em termos de identidade nós talvez venhamos a ter uma extrema direita muito mais antissistema, radicalizada, apostando que é possível ter, como de fato existe no Brasil, um contingente nada desprezível de eleitores que são antissistema, anti-instituições políticas, anti-STF, são antidemocráticas", afirma Eduardo Grin.

Para o cientista político, esse cenário pode se traduzir na tentativa de o bolsonarismo lançar um representante da família Bolsonaro à disputa pelo Planalto, à despeito dos apelos de alguns membros do Centrão. O nome mais provável seria o do senador Flávio Bolsonaro, que se tornou figura central desde que seu irmão, Eduardo Bolsonaro, passou a viver nos EUA.

"O vídeo dele convocando a vigília, para mim, já é uma manifestação de campanha com muito apelo religioso. O bolsonarismo sempre teve essa coisa de pátria, família e Deus", diz. "[Para o bolsonarismo], o negócio é se apegar à ideia da justiça divina, a palavra de ordem religiosa, para seguir mobilizando parte desse eleitorado", completa Grin sobre o encontro de apoiadores de Bolsonaro convocado pelo senador após a prisão do pai.

O possível lançamento de um candidato oriundo da direita mais radical mostra que mesmo a prisão e o isolamento cada vez maior não minam a força política do bolsonarismo por completo e mantém um clima político polarizado.

"Nós vamos ter uma eleição polarizada no ano que vem, porque o poder gravitacional que a extrema direita tem é muito grande, embora quantitativamente não superem 15% ou 20% do eleitorado, o que é muito, eles têm muita capacidade de fazer barulho, de produzir fatos, de ter rede social, então teremos uma eleição muito polarizada ano que vem novamente", diz Grin.

Enquanto a política vive um processo de redefinição de forças, o campo institucional demonstra um amadurecimento inédito. O processo no Supremo Tribunal Federal (STF) que condenou Jair Bolsonaro por liderar uma organização criminosa com o objetivo de aplicar um golpe de Estado e permanecer no poder demonstra a maturidade institucional e democrática brasileira, de acordo com Luis Henrique Braga Madalena, doutor em Direito pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj).

Segundo Madalena, a democracia brasileira passou por muitos momentos turbulentos e resistiu a provações que, conjugadas em curto espaço de tempo, como ocorrido no Brasil, comprometeria de forma decisiva a maioria das democracias.

"Não se trata apenas da prisão de um ex-presidente, mas uma prisão derivada de uma tentativa de golpe de Estado, que vem na sequência da prisão de um outro ex-presidente, não por tentativa de golpe, que atualmente voltou a ser presidente da República. Além disso, não podemos esquecer que o Brasil passou por dois processos de impeachment, também absolutamente traumáticos", diz.

Para o jurista, esse processo mostra que a democracia brasileira evoluiu e faz com que o país seja exemplo no combate a arroubos autoritários pelo mundo.

"O grande desafio das democracias contemporâneas é tratar o dissenso como necessário, na medida da fundamentalidade das diferenças para o florescimento e manutenção de um regime saudável. Não há preto e branco, certo e errado. Há inúmeros tons de inúmeras cores, todos eles absolutamente interdependentes e necessários para que haja um Estado Democrático de Direito".

Frase

Nós vamos ter uma eleição polarizada no ano que vem, porque o poder gravitacional que a extrema direita tem é muito grande, embora quantitativamente não superem 15% ou 20% do eleitorado, o que é muito, eles têm muita capacidade de fazer barulho"

Eduardo Grin,

cientista político e professor da FGV

Direita brasileira entre sobras de esperança e brigas por herança

Até mesmo adversários do ex-presidente, que comemoram a condenação e a prisão, não dão Jair Bolsonaro (PL) como completamente “derrotado”. A prisão, pelo contrário, abriria margem para uma reconfiguração da direita e, claro, um novo capítulo da política brasileira.

Para aliados do ex-presidente, a prisão tem outro nome: perseguição. Líder do PL na Câmara dos Deputados, Sóstenes Cavalcante (PL-AL), cita um suposto uso “injusto e autoritário” das instituições para calar Bolsonaro, descrito como inegável liderança política.

Outra aliada, Dra. Silvana, deputada estadual do PL Ceará, seguiu a mesma toada, apesar de ir além e chamar o caso de “maior absurdo jurídico já descrito”. “Alguém incriminado por um crime que de fato nunca aconteceu vai entrar pra história da humanidade. O possível criminoso nem na cena do crime estava”, justifica, se referindo à acusação de tentativa de golpe de Estado ao qual Bolsonaro foi condenado.

A decisão, conforme Silvana, é inédita de um jeito negativo, pois mesmo no Império brasileiro “existia previsão de atos, leis a se submeter”. No julgamento pela primeira turma do Supremo Tribunal Federal (STF), ao contrário, a deputada considera que “a interpretação pura da constituição não foi suficiente”.

“Resolveram (os ministros) criar suposições de algo que nunca existiu”, alega.

Toda essa situação de julgamento, condenação e prisão de Bolsonaro teria “aprofundado” divisões políticas, em um ambiente já muito disputado e polarizado. “A história mostrará que perseguir adversários políticos nunca é o caminho. O diálogo e o respeito à Constituição é que devem prevalecer”, considera Sóstenes.

Como exemplo desses “ânimos exaltados”, o deputado citou a Câmara Federal, onde atua, alegando que a “base conservadora se uniu ainda mais em torno de pautas que reforçam valores, enquanto o diálogo com o Governo se torna mais difícil, já que há um sentimento de desconfiança e de retaliação política”.

Outro ponto a ser levantado são as eleições, a serem realizadas em 2026. No contexto eleitoral, Sóstenes enxerga um Bolsonaro ainda mais forte devido ao sentimento de “revolta” da população pela "injustiça sofrida".

“Pode gerar uma onda de solidariedade popular. Muitos brasileiros enxergariam isso como uma injustiça e reagiriam nas urnas, fortalecendo os candidatos ligados ao nosso campo ideológico”, diz Cavalcante.

Para os apoiadores, a prisão não é empecilho em declarar Bolsonaro a principal opção para a campanha presidencial. Sóstenes chamou o ex-presidente de “Plano A, B e C". Já Silvana exaltou o ex-presidente como "grande liderança limpa de corrupção". 

No entanto, que o presidente — antes já inelegível — está impossibilitado de concorrer em 2026, devido à Lei da Ficha Limpa.

Quem herda o trono da direita

Jair Bolsonaro está fora do jogo, ou ao menos da cabeça de chapa e, assim, abre espaço para que outra pessoa ocupe. “E aí é que a gente vai entender o quanto que ele vai conseguir transferir voto e emplacar o candidato que indicou”, diz Juliana Dal Piva, jornalista e escritora do livro O Negócio de Jair, sobre a vida do ex-presidente.

Juliana considera que a direita tem “muito pouco” a oferecer para o cenário de 2026 enquanto oposição a Lula, que deve tentar reeleição. Segundo ela, o Governo baseia-se, no momento, em índices econômicos e sociais, e medidas populares como a aprovação do Imposto de Renda para até R$ 5 mil.

Já a direita agarra-se, por exemplo, “ao discurso violento da operação do Rio de Janeiro para usar uma desculpa de que estão combatendo a criminalidade, como se isso fosse dar algum tipo de resultado a longo prazo. Mas não dá, só gera mais violência”.

Mesmo com a incerteza, há opções. Nomes considerados, em maior ou menor proporção, são os de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo; Ronaldo Caiado (União Brasil), governador de Goiás; Cláudio Castro (PL), do Rio de Janeiro; Ratinho Júnior, do Paraná, (PSD) e Romeu Zema, de Minas Gerais, (Novo).

Há ainda os familiares: Flávio Bolsonaro (PL-RJ), senador e “filho 01” de Jair; Eduardo Bolsonaro, deputado federal e filho 03; e Michelle Bolsonaro, esposa de Jair.

Paula Vieira, cientista política vinculada ao Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia (Lepem/UFC) e colunista do O POVO+, aponta, inicialmente, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) como herdeiro. O parlamentar seria mais viável que Eduardo, por exemplo, já “muito desgastado” entre os próprios representantes da direita. Sobre Michelle, diz ser difícil uma figura feminina liderar uma campanha presidencial de extrema direita.

Por outro lado, ela considera “uma chance de Flávio Bolsonaro e os demais também se desgastarem muito em termos de imagem”, o que levaria aos governadores.

A primeiro momento, Juliana Dal Piva acha “difícil” Bolsonaro emplacar a própria família “por diferentes razões e problemas internos, brigas e disputas”.

“Hoje quem está mais próximo de ocupar o lugar de candidato apoiado pelo Bolsonaro, é o Tarcísio de Freitas. Ele nega publicamente, mas é o homem que está mais perto”, aposta. A jornalista reforça que, independente do nome, “Bolsonaro vai mandar nessa decisão e vai ser competitivo”.

Para além do nome para presidente, vale ressaltar que a direita brasileira continua se movimentando de outras formas, conforme analisa Paula Vieira. A própria Michelle, ainda que a cientista não considere a prioridade do PL para presidente, mobiliza as mulheres. O cearense André Fernandes (PL) “sustentaria uma formação dessa legenda partidária na entrada da direita no jogo democrático”.

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