
Resumo
A prisão de Maduro foi classificada por especialistas como uma intervenção agressiva sem base legal, pois não contou com autorização do Conselho de Segurança da ONU nem se enquadrou em legítima defesa.
A agressividade de Washington reacendeu temores da época da Guerra Fria em países como Colômbia, Cuba e México.
Enquanto as gerações mais jovens, menos marcadas por ditaduras passadas, tendem a apoiar intervenções que prometem combater o crime organizado, a coerção dos EUA tem empurrado a região para os braços da China.
Em dezembro de 1823, o presidente norte-americano James Monroe apresentou uma diretriz que se tornaria um dos pilares da política externa dos Estados Unidos. Resumida na máxima “a América para os americanos”, a Doutrina Monroe surgiu como um aviso às potências europeias para que se mantivessem afastadas dos assuntos do continente.
Dois séculos depois, a ideia reaparece sob outra forma. A captura do presidente venezuelano Nicolás Maduro, em 3 de janeiro de 2026, durante uma operação das forças especiais dos EUA em Caracas (VEN), marcou o início explícito de uma nova fase do intervencionismo norte-americano no Hemisfério Ocidental.
No governo Donald Trump, a doutrina ganha um novo rótulo informal — “Doutrina Donroe” — e abandona de vez a retórica da contenção diplomática.
O que se afirma agora é a supremacia unilateral dos Estados Unidos, com ações militares diretas e desprezo crescente por instâncias multilaterais. Nesse tabuleiro, a América Latina passa a temer não só um novo ciclo de intervenções, mas também conflitos que ponham em xeque a paz e a estabilidade das nações.

Apresentada em 1823 pelo presidente James Monroe, a doutrina que defendia “a América para os americanos” surgiu como barreira à influência europeia.
Com o tempo, porém, tornou-se instrumento de legitimação da presença militar dos Estados Unidos no continente.
Eduardo Gamarra, professor de Ciência Política da Florida International University, lembra que a mudança decisiva ocorre no início do século XX, com o Corolário Roosevelt.
Ao afirmar que Washington poderia intervir em países considerados “cronicamente instáveis”, Theodore Roosevelt abriu caminho para ocupações no Haiti, na Nicarágua e na República Dominicana.
“A ideia de ordem foi usada como justificativa moral para o uso da força”, afirma.
Em entrevista ao O POVO News, o professor de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP) Sidney Ferreira Leite, observa que esse passado não é apenas um registro histórico, mas um elemento ativo na percepção atual das sociedades latino-americanas.
“A memória da intervenção nunca desapareceu. Ela molda o medo e, paradoxalmente, também o pragmatismo”, diz.
Geopoliticamente, o uso agressivo da força em 2026 — incluindo o bombardeio de locais em torno de Caracas — é visto como uma violação flagrante da soberania estatal e das leis internacionais.
Especialistas da Union of Concerned Scientists (União de Cientistas Preocupados, em tradução livre) alertam que essas ações minam a legitimidade dos EUA para condenar agressões em outras partes do mundo, como a guerra entre Rússia e Ucrânia.
Em entrevista ao The New York Times, o assessor de segurança nacional, Stephen Miller, justificou essa postura citando as "leis de ferro do mundo", que exigem um globo "governado pela força, governado pelo poder".

O segundo mandato de Donald Trump reinterpreta essa tradição de forma mais explícita. A chamada “Doutrina Donroe” abandona os eufemismos e assume o unilateralismo como método.
Em janeiro de 2026, Trump rompeu uma linha que, até então, não tinha sido cruzada: a prisão de um chefe de Estado em exercício sem autorização internacional.
Para Evandro Carvalho, professor de Direito na Universidade Federal Fluminense (UFF), na FGV no Rio de Janeiro e fundador do Centro de Estudos e Pesquisas do BRICS, trata-se da forma mais agressiva de intervenção externa prevista no direito internacional.
“Não há base legal. Não houve autorização do Conselho de Segurança da ONU nem situação de legítima defesa”, afirma.
Nos Estados Unidos, a justificativa vem em um tom pouco convencional. O assessor de Segurança Nacional da Casas Branca Stephen Miller afirmou que o mundo é regido por “leis de ferro”, nas quais o poder precede o direito. Para Edward Murphy, professor da Michigan State University, essa lógica carrega riscos conhecidos.
“As intervenções podem até remover líderes, mas raramente constroem estabilidade. A invasão do Panamá em 1989, por exemplo, deixou mais traumas do que soluções duradouras”, declarou à NPR.
As rachaduras na relação dos Estados Unidos com a América Latina voltaram a preocupar a região depois da ação na Venezuela.
Declarações de Trump sobre possíveis operações na Colômbia, no México e em Cuba reacenderam temores que pareciam adormecidos desde o fim da Guerra Fria.
Na Colômbia, relatos de famílias discutindo planos de saída do país passaram a circular após Trump afirmar que uma ação militar em território colombiano “parece boa”.
No México, a combinação da rejeição pública da presidente Claudia Sheinbaum com a ameaça de ataques diretos a cartéis aumentou a tensão política e social. Em 21 de janeiro de 2026, Sheibaum enviou 37 membros de cartéis para os Estados Unidos a pedido do Departamento de Justiça, mas insistiu que era uma “decisão soberana”.
Essa declaração de independência aparece como uma resposta a analistas políticos e opositores, que classificaram as transferências realizadas no dia anterior como resultado de pressão crescente de Washington.
Em sua coletiva de imprensa matinal regular, Sheinbaum disse que, embora as transferências tenham sido feitas a pedido do governo dos EUA, a decisão foi tomada pelo Conselho de Segurança Nacional do México depois de analisar o que era “conveniente para o país”.
Para Marta Lagos, fundadora do Latinobarómetro, uma pesquisa anual de opinião pública que envolve cerca de 20 mil entrevistas em 18 países da América Latina, o medo convive com outro sentimento: o cansaço.
“O apoio popular a ações externas não vem da ideologia, mas do desejo de encerrar crises que parecem insolúveis”, explica. Segundo o Latinobarómetro, 74% dos peruanos e 63% dos chilenos aprovaram a captura de Maduro.
Já o cientista político da Universidade de Harvard, Steven Levitsky, interpreta esse dado como reflexo de uma mudança geracional. “Muitos jovens não viveram as ditaduras apoiadas pelos EUA. O trauma deles é outro: o crime organizado e a violência cotidiana”, afirmou ao NYT.

Apesar da superioridade militar dos Estados Unidos, especialistas alertam que o continente não é um terreno passivo.
Forças paramilitares e grupos armados informais funcionam como barreiras assimétricas a intervenções diretas.
Levitsky observa que uma operação como a da Venezuela seria inviável em Cuba: "A coesão e a disciplina das forças cubanas tornam qualquer tentativa desse tipo um desastre previsível".
No México, cartéis atuam como forças paramilitares de fato, controlando territórios e desafiando o Estado, enquanto na Venezuela, grupos armados cumprem funções de intimidação política.
Para o professor Ricardo Guize, professor de Política Internacional e doutor em Geografia da PUC Minas, esses atores ampliam o risco de escaladas imprevisíveis. “Não se trata apenas de Estados em conflito, mas de múltiplos centros de poder armados”, diz.
Enquanto Washington recorre a sanções e ameaças, a China avança de forma silenciosa, mas consistente. Alberto Maresca, pesquisador do Instituto das Nações Unidas, avalia que o medo gerado pelas ações de Trump acelera a busca por alternativas. “Os EUA oferecem coerção. A China oferece investimento”, resume.
Projetos como o Porto de Chancay, no Peru, reforçam a presença chinesa e reduzem a dependência regional dos Estados Unidos.
Em entrevista ao O POVO News, Fábio Reis Viana afirma que a estratégia americana de intimidação tende a produzir o efeito oposto. “Quanto mais imprevisível Washington se mostra, mais os países buscam proteção em outros polos”, analisa.
O medo de novos conflitos na América Latina se insere em um cenário global de enfraquecimento do multilateralismo.
Para Wilson Bicalho, professor de Direito e advogado em Portugal, a distância entre discurso e realidade tornou-se regra. “Os fatos já não organizam a política internacional. O poder, sim”, afirma.
Sidney Ferreira Leite complementa: o unilateralismo não é exclusividade de Trump, mas se tornou mais visível sob seu governo. “Desde 2008, os Estados priorizam interesses nacionais, mesmo que isso corroa instituições globais”, diz.
Nesse contexto, como resume Ricardo Guize, a fragmentação entre aliados tradicionais cria um ambiente fértil para a expansão da influência chinesa e russa — enquanto a América Latina volta a conviver com um medo antigo: o de ser, mais uma vez, o tabuleiro de disputas decididas por outros.