
Resumo
O Efeito Forer explica a aceitação de previsões vagas como personalizadas
Cinema e narrativas apocalípticas refletem ansiedades sociais e a busca por um 'reset'
Redes sociais criam 'post'-verdade, misturando fatos, crenças e boatos
A ciência oferece probabilidades, enquanto o sobrenatural promete certezas
Em 1911, uma tempestade de areia nos Balcãs mudou o curso da história mística contemporânea.
Vangelia Pandeva Gushterova, uma jovem búlgara que mais tarde seria conhecida mundialmente como Baba Vanga, teria sido erguida por um tornado e arremessada em um campo próximo.
O evento resultou na perda gradual de sua visão, mas, segundo a lenda, marcou o despertar de sua clarividência.
Décadas depois, seus supostos acertos sobre o desastre de Chernobyl, o naufrágio do submarino Kursk e os ataques de 11 de setembro transformaram-na em um avatar global de "verdades" que transcendem a ciência.
Mas por que, em pleno século XXI, cercados por tecnologia e dados, o ser humano ainda recorre a videntes e temores apocalípticos?
A resposta não está apenas na fé, mas nas engrenagens mais profundas da nossa mente, na nossa biologia evolutiva e na forma como reagimos às crises da nossa própria civilização.

O psicólogo social Ronaldo Pilati define o cérebro humano como uma verdadeira "máquina de crenças".
De acordo com ele, nossa cognição não evoluiu para ser puramente racional, mas para garantir a sobrevivência em ambientes hostis.
Nossa mente é programada para o reconhecimento de padrões, um fenômeno chamado padronicidade.
"A tendência de encontrar significados em dados aleatórios foi crucial para nossos ancestrais evitarem predadores na savana", explica Pilati.
Hoje, essa mesma ferramenta nos faz ver rostos divinos em manchas, figuras em nuvens ou conexões transcendentais em coincidências mundanas.
A necessidade de acurácia e compreensão do que nos cerca é um motor psicológico básico, e tendemos a elaborar primeiro uma crença para, só depois, buscar justificativas para mantê-la.
Essa vulnerabilidade é explorada pelo chamado Efeito Forer (ou Efeito Barnum). Ele explica por que nos sentimos tão "vistos" por horóscopos e previsões vagas.
Na década de 1950, um psicólogo chamado Bertram Forer conduziu uma experiência com alunos de seu curso introdutório de psicologia.
Ele deu o mesmo texto a cada um de seus alunos, dizendo-lhes que eram os resultados de um teste de personalidade que eles haviam preenchido anteriormente e, portanto, muito personalizados.
Quando todos os alunos receberam o texto com suas pontuações, Forer pediu que levantassem as mãos se achassem que ele tinha feito um bom trabalho ao descrever sua personalidade.
Os alunos ficaram perplexos ao ver que quase todas as mãos estavam levantadas.
Forer então começou a ler um dos textos em voz alta. Os alunos caíram na risada, percebendo que todos os textos eram iguais.
O professor, agora, tinha a prova de como nosso julgamento é falho e como podemos ser facilmente enganados a aprovar descrições ou previsões pseudocientíficas sobre nós mesmos.
Como todos possuímos traços de personalidade semelhantes em diferentes graus, afirmações genéricas como "você tem um grande potencial não utilizado" ou "você é crítico consigo mesmo" parecem revelações personalizadas.

A humanidade possui uma aversão psicológica à incerteza. O cérebro responde à falta de clareza gerando espontaneamente explicações plausíveis que nos dão uma sensação de controle, mesmo que ilusória.
Um estudo da Universidade de Cambridge mostra que pessoas conseguem se convencer de que um acerto aleatório em um jogo de cara ou coroa foi fruto de "habilidade" e não de sorte.
Essa busca por segurança nos empurra para sistemas de crença infalíveis — como profecias religiosas ou pseudociências — porque eles fornecem certezas absolutas, enquanto a ciência lida apenas com probabilidades e dúvidas constantes.
É mais fácil depositar fichas em sistemas fechados que nos distanciam da incerteza e, para conviver com essas contradições, Pilati sugere que criemos "escaninhos mentais".
Essa compartimentalização permite que uma pessoa endosse explicações científicas para certas áreas da vida, como usar um GPS baseado em satélites, por exemplo, enquanto mantém crenças incompatíveis em outras, como consultar o horóscopo para decidir o futuro amoroso.

A busca por profecias e o medo do fim ganham força em momentos de instabilidade política e social.
Douglas Kellner, filósofo crítico americano, professor da Universidade da Califórnia (Ucla), conhecido por seus estudos aprofundados sobre a cultura da mídia, observa que Hollywood frequentemente transcodifica medos reais em alegorias de catástrofe.
No artigo O apocalipse social no cinema contemporâneo de Hollywood, Kellner afirma que nos anos 2000, filmes como O Dia Depois de Amanhã serviram para dramatizar os perigos do aquecimento global e a incompetência de regimes políticos diante de crises climáticas.
Franquias de zumbis, como Resident Evil, articulam medos sobre biotecnologia fora de controle e conspirações corporativas.
Já o filme Filhos da Esperança, por sua vez, pode oferecer uma visão sombria de um mundo entrando em colapso apocalíptico e fascismo, refletindo ansiedades contemporâneas sobre o fim da democracia e o terrorismo.
Essas narrativas funcionam como diagnósticos críticos da sociedade.
Quando a realidade parece insuportável, o imaginário coletivo projeta o caos em telas de cinema para tentar processar o trauma e a sensação de que "tudo está perdido".
Curiosamente, o conceito de fim do mundo raramente é encarado como um término absoluto. No imaginário cultural e literário, ele funciona frequentemente como um "reset".
Como sugere a pesquisadora Rosa Maria Martelo, professora associada da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, do fim do mundo vem um apelo à mudança.
"Não consigo conceber o fim do mundo sem a possibilidade de outro mundo começar", afirma Martelo, conectando o apocalipse à ideia de revelação e recomeço.
Para muitos, a profecia apocalíptica é uma interrupção necessária para purificar o que está em ruínas e permitir que a humanidade "reinicie" sua jornada sob novas bases.

Com as redes sociais, figuras como Baba Vanga ganharam uma nova dinâmica: a "post"-verdade, um termo que combina o conceito de pós-verdade com a realidade construída a partir de postagens.
Na era digital, a verdade não está em falta; ela está em excesso e é construída através de uma colagem participativa que mistura ciência, religião e boatos.
Vanga tornou-se um avatar flexível para narrativas políticas contemporâneas. Na internet russa e ucraniana, circula a suposta profecia de que "a glória de Vladimir Putin e da Rússia permanecerá intocada".
Estudos no campo da história social, como o artigo "Médiuns, Mídia e Mediações na Post-Verdade", apontam que essas mensagens são frequentemente fragmentadas, mediadas e até inventadas por usuários para se ajustarem às tensões da guerra e aos anseios nacionais.
A autoridade da vidente é "confirmada" por documentários no YouTube que misturam depoimentos de parentes com falas de "especialistas" e "ex-agentes da KGB", criando uma arquitetura de credibilidade difícil de rastrear.
O embate entre a evidência científica e o desejo pelo sobrenatural não parece próximo de um fim. Enquanto a ciência exige o reconhecimento da nossa própria ignorância — o exercício constante de que "podemos estar errados" —, o sobrenatural oferece o conforto das respostas finais.
De acordo com Pilati, o maior benefício que a ciência oferece é diminuir a influência do viés de confirmação, que nos faz enxergar apenas o que valida nossas crenças prévias.
A trajetória da humanidade, das profecias bíblicas aos vídeos virais de videntes modernos, mostra que a crença no invisível é uma bússola que usamos quando o mapa da realidade parece confuso demais.
Como observou o físico Carl Sagan, a ciência é "uma vela no escuro".
Reconhecer a fragilidade do que sabemos é, talvez, a maior força da razão humana: a humildade de admitir que o universo é vasto e que nossa jornada para compreendê-lo está apenas começando.