
Resumo
Termos como 'situationship' e 'conversante' refletem a liquidez e a busca por segurança em um mundo incerto.
A 'era do amor líquido', segundo Zygmunt Bauman, define relações superficiais e frágeis, contrastando com o ideal romântico.
Jovens priorizam a independência financeira, transformando relacionamentos em detalhes e adotando conceitos como agamia (desinteresse em relacionamentos românticos).
A busca por liberdade individual e pressões socioeconômicas levam à desistência de modelos tradicionais, como visto na 'Geração Sampo' na Coreia do Sul.
A monogamia tradicional gera conflitos, com crescente interesse em novas configurações como poliamor e relações livres.
A qualidade dos encontros e o respeito à individualidade são essenciais, com a sugestão de focar em se sentir amado e desejado, em vez de controlar o parceiro.
O conceito de amor, sempre presente ao longo da vida humana, está passando por transformações profundas que refletem a subjetividade dos tempos atuais.
Se, em épocas passadas, o relacionamento amoroso seguia uma “regra” previsível — pedir em namoro, casar, ter filhos e permanecer juntos até a morte —, hoje, já não é mais possível ditar um “passo a passo”, pois cada pessoa e cada casal criam as próprias regras.
Longe da rigidez do namoro e do casamento tradicionais, um novo vocabulário afetivo-social surge para dar nome ao que surge nos corações entre o compromisso e a indiferença.
Termos como “situationship”, “ficante” e até “conversante” passaram de meros jargões da Geração Z, a sintomas de um tempo marcado pela liquidez, pelo individualismo exacerbado e por uma nova busca por segurança em um mundo cada vez mais incerto.

O movimento que, para alguns, é uma revolução nos relacionamentos, foi acelerado pela tecnologia e pela emergência de uma característica crucial da pós-modernidade: a ética individualista, conforme destaca Aline Lira, professora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza.
Nessa nova ética, o indivíduo adquire valor central na busca por realizações íntimas e prazerosas, com ênfase na liberdade de escolha e na possibilidade de viver sem depender do outro.
Aline observa que vivemos uma transição do “amor romântico” para o “amor líquido”.
O amor romântico, idealizado, de atração emocional e de almas gêmeas “para a vida toda”, colide com o conceito de amor líquido, criado por Zygmunt Bauman, que define relações como superficiais e frágeis.
A psicanalista Regina Navarro Lins concorda que a “era do amor líquido” já é um fato, e aponta para um caminho que exige mais atenção. Isso porque, segundo ela, o enraizamento da noção clássica de amor pode levar a frustrações e quebra de expectativas.
Ela critica, os ideais românticos, em especial a idealização e a crença de que “os dois se transformam num só” e a “mentira terrível” de que quem ama não deseja mais ninguém sexualmente.
Assim, quem está entrando agora nesse universo dos relacionamentos sente-se um pouco perdido. Apesar das crenças clássicas e enraizadas, há cada vez menos espaço e tempo para seguir essa cartilha do romance.
Mas com a necessidade humana por laços, afeto e certezas, a equação fica cada vez mais difícil de equilibrar.

Especialmente entre os mais jovens, a busca pela realização pessoal e independência transformou as prioridades.
A professora Aline Lira relata que é raro um jovem na casa dos 20 anos ter como prioridade casar e ter filhos. A maioria está buscando primeiro a independência financeira, tornando o relacionamento, muitas vezes, somente um detalhe.
Isso cria uma dicotomia: há aqueles que procuram o amor de suas vidas e aqueles que não o querem. E a tecnologia, embora tenha contribuído para a fluidez das relações, também trouxe complexidade.
O “conversante” exemplifica essa tendência, sendo a relação que se dá unicamente via redes sociais com conversas, curtidas e stalks, ganhando status de relacionamento virtual, mas não exigindo presença física.
Já o “situationship” é a relação sem compromisso com o futuro, uma parceria muitas vezes unilateral, onde uma pessoa nutre sentimentos mais complexos e profundos do que a outra, mas que se recusa a ser formalizada, sustentada pela máxima “pega, mas não se apega”.
Aline analisa, ainda, que a abundância de relacionamentos possíveis no novo contexto pode gerar escassez devido ao imediatismo e às exigências da contemporaneidade.
A procura incessante pelo amor constrói expectativas inalcançáveis e uma busca por controle, resultando em frustrações e desencontros.
Em outra análise, as novas configurações familiares também refletem essa mudança na leitura do que é o amor, a família e o mundo.
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Hoje, a diversidade de modelos inclui relacionamentos poligâmicos e poliamorosos, além do reconhecimento legal do casamento entre pessoas do mesmo sexo, famílias monoparentais, além de casais vivendo em casas separadas, só para citar alguns modelos.
Em um meio-termo, há, por exemplo, a Neo Monogamia, onde o casal escolhe uma relação em grande parte monogâmica, mas define previamente regras para dates fora do relacionamento, com momentos de flexibilidade acordados.
Já o DADT (Don't ask, don't tell), que significa “Não pergunte, não conte”, é uma estratégia que aceita outros afetos, mas veda a conversa sobre o assunto, mantendo a vida monogâmica entre quatro paredes e a vida livre fora de casa, na crença de que “o que os olhos não veem, o coração não sente”.
A psicanalista Regina Navarro Lins aponta a crescente busca por relações múltiplas, como poliamor e relações livres, indicando que a exigência de exclusividade, característica básica do amor romântico, está saindo de cena.
A busca pela liberdade individual impulsiona novos modelos, a pressão socioeconômica global, por outro lado, leva à desistência dos modelos tradicionais.
No Brasil, a Geração Z tem adotado a agamia, um conceito que denota o desinteresse de um indivíduo em firmar um relacionamento romântico e, frequentemente, em ter filhos.
Heloisa Buarque de Almeida, professora do Departamento de Antropologia da USP, diferencia a agamia do simples estado de solteiro pelo fato de o agâmico estar dizendo: “escolho estar solteiro”.
A antropóloga também aponta uma causa de vanguarda para a decisão de não ter filhos: a preocupação com a preservação do planeta, a sustentabilidade e o aquecimento global.
O fenômeno da desistência é ainda mais acentuado em países asiáticos. Na Coreia do Sul, o neologismo "Geração Sampo" (três desistências) refere-se aos jovens que desistem de namorar, casar e ter filhos devido a problemas econômicos e pressões sociais, como o alto custo de vida, dívidas estudantis e escassez de moradia acessível.
Uma reportagem de 2011 da agência de notícias sul-coreana Kyunghyang Shinmun, que popularizou o termo Sampo, argumentou que o fardo de constituir família era muito alto na Coreia do Sul, levando à desintegração da estrutura familiar tradicional.
A reportagem aponta, também, que o poder econômico e o emprego são mais priorizados na escolha de um cônjuge do que a personalidade.
Assim, estar solteiro se tornou, de certa forma, um problema maior do que o desemprego, não por falta de encontrar a pessoa certa, mas por falta de poder econômico para casar.
O movimento da desistência coreana se estende a categorias mais extremas, como a “Opo sedae” (cinco desistências, que adiciona emprego e casa própria) e a “Wanpo sedae” (desistência total, incluindo a vida).
E fenômenos semelhantes são observados em outros lugares. Nos Estados Unidos, a “Geração Bumerangue” adia o casamento devido a dificuldades econômicas e altas taxas de desemprego.
Já no Japão, a “Geração Satori” não está interessada em itens de luxo ou carreiras de sucesso, enquanto na China, há o fenômeno “Tang ping”, que descreve a juventude que se nega a suportar pressões sociais e suprime toodos os seus desejos.

Apesar da busca por liberdade, o modelo tradicional da monogamia ainda gera intensos conflitos.
Regina Navarro Lins relata que um dos problemas mais comuns em seu consultório nos últimos cinco a seis anos é o desespero de um dos parceiros quando o outro propõe abrir a relação.
Ela vê a questão da liberdade como o principal ponto de discordância no casal médio.
O amor romântico, que pavimentou o caminho para a monogamia compulsória, também popularizou o ciúme como o “tempero da relação”.
Esse desejo por controle e a pressão para conformidade moral foram historicamente evidentes em ambientes onde a imagem social era supervalorizada, como, por exemplo, na indústria do entretenimento.
Nesse contexto, a união por conveniência entre um homem e uma mulher, em que um ou ambos são homossexuais, apareceu como a melhor opção para acobertar a vida íntima e manter uma fachada socialmente aceitável.
A prática chamada de “casamento lavanda” foi imposta a celebridades por produtores e agentes desde a década de 1920, visando a garantir prestígio e questões econômicas por meio de “cláusulas de Conduta moral” nos contratos.
A relevância desse arranjo como estratégia de sobrevivência em face do conservadorismo é amplamente explorada na cultura popular.
O best-seller Os Sete Maridos, de Evelyn Hugo é um exemplo contemporâneo que explora complexidade e os conflitos íntimos gerados por essa fachada compulsória na indústria do entretenimento.
Quer ler mais sobre relacionamento e sexualidade, acesse a coluna da psicóloga Zenilce Bruno no O POVO+

O modelo tradicional de relacionamento, calcado no controle, possessividade e desrespeito pela individualidade, não oferece mais respostas satisfatórias.
Regina Navarro Lins defende que, para uma relação funcionar, é crucial o “total respeito ao outro”, incluindo liberdade para ter amigos e programas independentes.
A psicanalista sugere que, em vez de se preocupar com a infidelidade, os indivíduos devem se perguntar: “Me sinto amado? Me sinto desejado?”
Se a resposta for afirmativa para ambas as perguntas, Regina sugere aceitar que nem tudo está sob o nosso controle.
“O que o outro faz quando não está comigo não me diz respeito, porque o controle do parceiro é, no final, uma ingenuidade, já que ninguém controla ninguém”, afirma.
A mudança de mentalidade é lenta e gradual, mas está se abrindo um espaço para que cada um escolha sua forma de viver.
No passado, a mulher que não casasse ficava para "titia," enfrentando dificuldades sociais e econômicas.
A esperança, expressa por Regina Navarro Lins, é que as pessoas desenvolvam a capacidade de ficar bem sozinhas, com amigos e projetos, libertando-se da necessidade de um par amoroso fixo.
No fim, a ideia é que os relacionamentos sejam escolhas espontâneas e adaptáveis, com uma comunicação clara e respeito mútuo.