
O sonho de Rosalvo era ver as filhas independentes, donas do seu próprio negócio. Nada de visitar fazendas, passar horas em estradas e dias fora de casa. A ideia era que elas fossem empresárias. E assim o fez. Adquiriu produtos, investiu em lojas.
Mas, por mais detalhados que fossem os planos, fatores externos têm o poder de causar uma revolução, de transformar famílias e desviar as mais bem traçadas rotas. E foi em um cenário caótico que Juliana Carneiro, a caçula das mulheres de Rosalvo e Maringá, assumiu os negócios.
Juliana, à época com 21 anos e de malas prontas para uma nova aventura, não hesitou ao pedido do pai de ficar, pelo menos por um tempo, e tomar conta da empresa, que até então estava nas mãos da irmã Roberta, e, principalmente, de manter a família unida.
Quase trinta anos depois e muitas adequações às demandas do mercado de luxo, a empresária e a outra irmã, Renata, misturam cores, fragrâncias, experiências e autoestima.
Andando de mãos dadas com o mundo digital, AmericaNews Beauty contabiliza 15 lojas físicas, distribuídas em três regiões do Brasil e com planos de levar ainda mais bem-estar por onde se instala. E sempre tem em mente a importância do olhar e do cuidado com quem carrega o nome da marca no peito e a representa para os clientes.
Ao lado do pai Rosalvo, investidor e o maior incentivador da autonomia dos quatro filhos, Juliana distribui carinhos e não cansa de agradecer por todos os feitos dos pais, concedidos a ela e aos irmãos.
Conheça agora a história de Juliana Carneiro, diretora da AmericaNews Beauty, e entenda como o mercado da beleza se adapta ao comportamento do seu consumidor.

OP - Seu pai nunca atuou na American News, mas planejou, galgou tudo para vocês chegarem aonde vocês estão. Como que foi esse começo, esse processo?
Juliana - A minha família tem esse lado empreendedor e não seria diferente com meu pai. Ele tinha fábrica de algodão e trabalhava na agricultura e pecuária. Mas não queria que nós, principalmente as mulheres, seguíssemos esse caminho.
Porque é uma coisa mais árdua, as fazendas eram fora. E aí, para a minha irmã mais velha, a Roberta, disse que ia montar um negócio.
“Que tal uma importadora geral?” E aí foi onde tudo começou, no ano de 1992. Uma importadora em geral, que atendia tanto como loja de varejo, mas também como atacadista. Ele queria montar um negócio para as filhas. Esse era o desejo dele, que as filhas fossem empreendedoras como ele.
Ele sempre foi muito apoiador, instigava a gente e nos ajudou a transformar uma das lojas em perfumaria, especialista em perfumaria.
OP - Quantos anos você tinha quando seu pai criou a empresa?
Juliana - Meu pai nunca trabalhou na empresa. Ele montou a empresa para a minha irmã, Roberta. Eu ainda era uma menininha. Ela casou muito jovem e meu pai quis ajudar, (para) ela e o marido terem um trabalho e viverem daquilo.
Quando eu tinha 16 anos, ele colocou uma empresa no meu nome. Eram duas empresas, uma de importação e a loja. A loja ele colocou no meu nome. Eu tinha 16 anos, me emancipou. E tudo começou daí e ele ficava naquela cobrança: “Olha, a loja é sua, está no seu nome, você vai trabalhar.”
E eu dizia que não sabia o que fazer, no que ele dizia: “Sabe sim, você sabe fazer pacote, você vai ajudar no caixa, o que for para você fazer, mas você vai”. E aí ficava instigando a mim e às minhas irmãs. Principalmente eu, que era mais nova e era a que dava, assim, mais trabalho, de não querer.
Eu não tinha essa visão, não estava ainda nem na faculdade. E aí, com 18 anos, foi quando eu, de fato, assumi. Por uma tragédia (a irmã Roberta sofreu uma tentativa de feminicídio, em 1998), acabei assumindo o negócio.
Continuei um tempo com o mesmo segmento, de importado em geral. Mas, muita coisa já não se importava, já comprava daqui mesmo.
No ano de 2000 foi que a gente transformou a primeira perfumaria. Uma das lojas deixou de ser Novidades Americanas e passou a ser uma especialista em perfumes. Foi onde tudo começou na perfumaria.
OP - E seu pai trabalhava com o quê?
Juliana - Meu pai é agropecuarista, não tem nada a ver. Mas ele não queria que a gente assumisse porque as fazendas dele são fora de Fortaleza, no Maranhão e em Goiás. Mas, eu queria! Ele que não quis e tinha razão.
Ele disse: "Minha filha, eu não vou fazer com vocês, mulheres, o que eu fazia, porque, além de ter que pegar um voo para Goiânia, ainda pega umas 3, 4 horas de estrada até chegar à fazenda. Isso não é vida para vocês. Vocês vão ser mães, vão ter o marido de vocês, têm que cuidar da casa. Isso não é o papel de mãe, de mulher.”
Ele não era machista, de forma alguma. Tanto que nos colocou para trabalhar. Ele apenas não queria que a gente tivesse a vida que ele estava tendo, porque como é que a gente ia cuidar, criar os filhos? Isso na cabeça dele. E ele tem razão, e nunca deixou.
Tanto que quem assumiu foi meu irmão, que é mais novo, seis anos mais novo do que eu, e hoje é quem toca as fazendas.
OP - Como você e a Renata entraram no negócio?
Juliana - Eu estava de malas prontas para morar um ano fora. Ia fazer um intercâmbio, aprender inglês. E era meu sonho passar um ano lá, porque ele não deixou a gente fazer o intercâmbio na época do high school (Ensino Médio). Ele dizia que a gente não tinha cabeça para isso, que só ia depois que estivesse mais velho.
Eu acho que ele tinha razão. E a gente sabia que o caso da Roberta era muito importante. E com dois, três meses, ele disse que eu ia ter que assumir, porque não tinha quem assumisse.
A minha irmã (Renata) estava trabalhando na Avine, porque meu pai também tinha uma sociedade na época, que é do meu tio. Então só tinha eu. Aí foi me enrolando, “depois você vai, depois você vai”. E nesse depois você vai, eu nunca fui.
Mas também tirei aquilo como uma responsabilidade tão grande para mim, porque imagina aquela situação? Meu pai tendo que trabalhar para arcar com tudo, porque obviamente ele queria dar o melhor para ela. E ainda tinha as filhas dela que a gente tinha que cuidar.
Eu disse: "Mas como, pai? Eu não sei fazer nada”. E ele disse que eu sabia e que estaria ao meu lado para me ajudar. Eu pensava como ele estaria do meu lado, sendo que ele viajava para as fazendas, sendo agropecuarista em uma empresa de varejo atacado?
Como isso ia dar certo? Mas eu não tive coragem de dizer não para ele naquela situação. E eu tomei aquilo ali para mim, como meu.
E, na verdade, já era meu, ele me emancipou com 16 anos, colocou no meu nome, eu só fiz dar continuidade ao que antes era uma coisa de boca, apesar de ser oficial, como sócia do negócio.
OP - Não era um sonho?
Juliana - Na verdade, eu era tão jovem que eu não sabia ainda qual era o meu sonho. Porém, quando foi colocado na minha mão, eu agarrei e não soltei até hoje. O destino deu a oportunidade, eu agarrei e não soltei.
E sou muito feliz, graças a Deus, com o que eu trabalho, com o que eu faço, com o que eu construo.
OP - E você pensou em não assumir as lojas?
Juliana - Em nenhum minuto. Até porque, imagina, em uma situação daquelas? Eu estava de malas prontas para ir morar na Inglaterra, eu ia antes do Natal, acho que dia 20, e aconteceu a tragédia com a minha irmã no dia 12.
E aí ele olhou e disse: "Minha filha, não tem como você ir”. Eu disse que entendia. Ele pediu para eu ir depois.
OP - Sua mãe acabou sendo também um pilar…
Juliana - Sim, um alicerce. Totalmente. Até porque ele passava 15 dias fora. Ela quem ficava com a gente. Minha mãe cuidava da Roberta, e eu e a Renata, minha irmã, nos revezávamos, mesmo supernovas, para ajudar com as meninas, com as filhas dela.
Mas aí foi dando certo. Com pouco tempo, ele trouxe a Renata para trabalhar. E desde então nós estamos juntas, ele sempre como o nosso grande incentivador, e a pessoa que apoiou na parte financeira no início.
Realmente, a gente deve tudo aos meus pais. O incentivo do meu pai era aquela visão mais estratégica e o da minha mãe é aquele rigor da disciplina, da essência, de mostrar a ética. E ele também. Então, graças a Deus, a junção dos dois nos ajudou a ser quem nós somos hoje.
OP - Por que vocês foram para a perfumaria, especificamente?
Juliana - Na época, uma seção da loja era de perfumes. E, observando, fazendo inventário, percebi que 70% da venda era de perfumes, foi de onde veio a ideia, lançada pelo meu pai, de transformar a loja em uma perfumaria, ser especialista.
OP - Proporcionar experiências aos clientes é exigência das marcas que vocês representam ou uma percepção que vocês sempre tiveram do mercado?
Juliana - Trabalhar com perfume de luxo, como todo o segmento de varejo, vem mudando muito, e com o luxo não é diferente. No começo, a experiência com o cliente não era uma coisa tão vista, tão necessária.
Só que, para você se diferenciar hoje, tem que ter algo a mais. E quem manda, quem decide o que quer, é o cliente. E o que hoje o cliente quer é a experiência.
OP - A entrada em shopping veio 10 anos depois da primeira loja. Por que apostar nesse comércio?
Juliana - Na verdade, o shopping veio antes, a empresa nasceu praticamente já com uma loja de shopping. Primeiro o shopping aberto, depois o Shopping Center Um, depois o North Shopping.
A loja já começou em shopping, era uma importadora que vendia por atacado e também tinha o varejo. Era uma loja em um shopping onde hoje é o Shopping Pátio Dom Luis, que era importadora em geral. E no ano de 2000 foi onde nós viramos especialistas em perfumes.
OP - Como se deu a expansão para outros estados? Pode falar sobre a abertura de novas lojas?
Juliana - Engraçado que na época eu e Renata não tínhamos um planejamento estratégico definido, então era muito no feeling. E eu tive uma oportunidade, em um almoço, de estar com o João Carlos Paes Mendonça e ele ia abrir na época o Shopping Riomar Recife.
Ele soube que nós tínhamos uma perfumaria. Ele sentou ao meu lado, muito visionário, e disse que lá no shopping não tinha uma perfumaria, um shopping enorme, iam entrar com lojas de varejo internacional de luxo e não tinha uma perfumaria.
E chegou e disse: "O que eu faço para você ir para o meu shopping?" Eu fiquei assim: "Meu Deus, como é que eu vou dizer não para ele?" E aí foi onde tudo começou, sem planejamento. Isso foi no dia 15 de agosto.
No dia 29 de outubro, abriu o shopping e, no dia 10 de novembro, nós estávamos também com a perfumaria aberta lá em Recife.
OP - E a transformação da AmericaNews em uma plataforma de beleza?
Juliana - Foi em janeiro de 2020 que teve essa virada de chave. A gente não tem só perfumes e cosméticos, temos serviços. Você chega lá cansada, estressada, senta, a gente faz uma revitalização na sua pele, depois a maquiagem e sai perfumada.
É autoestima também. A gente não vende só perfume, mexemos com a autoestima da pessoa. Então, é realmente uma plataforma de beleza. A experiência a gente já tinha.
Mas, antigamente, uma marca como a Dior tinha dois lançamentos por ano. Hoje, tem 10, a outra tem mais 20, a outra tem cinco. Então não é mais um diferencial, só o lançamento da marca. Tem que ser o que está atrelado a isso também, a experiência.
OP - Como é que vocês fazem pesquisa de mercado e preparam a equipe para trabalhar com esse mercado?
Juliana - O Brasil está entre os países que mais consomem perfumes no mundo. Hoje, temos todas as filiais das marcas aqui no Brasil. E uma vende para a outra. LVMH vende para o grupo L'Oreal, L'Oreal vende para outro grupo, aí fica essa mudança.
E eles que fazem os treinamentos. Nós procuramos também, obviamente, mas vêm muito deles. O que se tem feito no mercado por aí, o que tem dado certo, porque nem tudo que é feito lá fora vai dar certo aqui, porque é muito regionalizado.
No Brasil, cada região é um país, praticamente. Nós que atuamos em outros estados, sabemos que são formatos de trabalhos distintos.
OP - O produto importado tinha um apelo de venda muito grande na época em que vocês começaram, era visto pelo consumidor como um produto de maior qualidade. Vocês ainda veem que ele tem essa percepção?
Juliana - Depende muito de qual produto. Quando o dólar estava convidativo, um para um, até dois para um, as pessoas, mesmo sem um poder aquisitivo muito grande, elas podiam comprar. Então, era um objeto de desejo para essas pessoas.
Hoje, infelizmente, com essa alta do dólar, a gente fica com um nicho muito pequeno. Então, a gente atua não por nossa vontade, mas pela capacidade mesmo do consumidor. O produto importado ainda tem esse desejo, (essa impressão de ser) diferenciado.
Não é que é americano, é europeu, é melhor. Não é que ele seja melhor, porque nós temos muitas coisas boas aqui também, mas a questão é o tempo, a maturidade. Estamos falando de produtos do primeiro mundo, então acho que gera um pouco essa credibilidade a mais.
Agora, quando é da China, eu não sei se a credibilidade é a mesma, mas o nosso produto tem essa credibilidade, não só pelo poder das marcas que a gente representa, mas pela história de cada marca, o storytelling dela.
OP - Vocês trabalham com outras marcas, a exemplo das árabes, com fragrâncias diferentes do que estamos acostumados. Como é a aceitação? O público já conhece?
Juliana - É uma novidade, que eu ainda não sei se veio para ficar. É um pouco moda, modismo. Aqui no Brasil, hoje é um dos queridinhos, até porque uma boa parte deles tem preços mais atrativos, então faz com que mais pessoas tenham acesso a eles.
São fragrâncias muito fortes, muito marcantes. E, principalmente aqui no Nordeste e no Norte, por mais que a gente viva em região quente, as pessoas gostam de produtos quentes, produtos fortes, e na verdade era para ser produtos mais leves.
Mas clássicos são clássicos. É Chanel, é Dior. Desde 1900 e pouco, antes de existir esse formato de perfumaria mesmo. Eles já existiam e permanecem até hoje.
OP - E como é trabalhar com uma marca própria?
Juliana - É uma mudança de perfil de trabalho, que vai desde a época da AmericaNews azul com vermelho, que são as novidades de fato americanas. Até nós começarmos a nos adaptar de acordo com o que nós vendíamos, AmericaNews Perfumes, que foi a segunda etapa, e a terceira etapa, AmericaNews Perfumes e Company.
A última etapa é AmericaNews Beauty, uma plataforma de beleza. Agora a gente não vende só o perfume, a maquiagem, o tratamento. A gente vende sonho, vende autoestima, vende experiência. Então, é uma plataforma de beleza completa.
E é isso que trabalhamos. Para isso, em 2019, nós lançamos a nossa linha de pincéis, de acessórios. O cliente vinha, se maquiava na AmericaNews e queria comprar um pincel, mas não tinha.
Nós vimos uma grande oportunidade e nós lançamos a nossa primeira marca própria, a AN Acessórios.
OP - E como é a produção?
Juliana - Nós fizemos uma pesquisa bem árdua na época, com as fábricas das marcas que nós vendíamos. Então nós buscamos e encontramos onde algumas das marcas de luxo faziam seus pincéis e é no mesmo local que algumas marcas que produzem.
A gente procurou um fornecedor porque nós trabalhamos com luxo. Jamais poderíamos colocar um pincel levando o nosso nome, a nossa história, em um produto que não fosse tão qualificado. Então tivemos bastante cuidado na escolha de quem estava nos representando.
Hoje são 20 acessórios. E na AmericaNews como um todo, representamos 50 a 60 marcas.
OP - Vocês desejam criar também outras marcas?
Juliana - Sim, temos o desejo, mas hoje o nosso planejamento é de expansão e de organização do que temos, ajustar o que erramos da nossa marca própria e também a possibilidade de colocar novos produtos, além de acessórios.
OP - Para você, como é trabalhar com beleza e autoestima, como você mesma disse?
Juliana - A missão da empresa tem tudo a ver: cuidado do cliente em redescobrir a beleza. A minha satisfação, de verdade, é ver o cliente saindo satisfeito da loja. Para mim, é a maior satisfação.
Se ele saiu satisfeito, se eu tenho o produto certo para vender, se eu estou promovendo uma experiência para ele, se eu o estou fidelizando, com isso, o trabalho todo interno de backoffice foi feito.
Porque não adianta você ter pessoas boas para vender e não ter produto. Não adianta você ter produto e não ter pessoas para vender.
Não adianta você ter produto e ter pessoas para vender, mas ser mal servido, ser mal atendido, não gerar a experiência, não fidelizar o cliente. Então, a cadeia produtiva, para funcionar, tem que ser como um todo.
Ele saindo satisfeito, eu estou sabendo que o dever de casa está sendo feito dentro da empresa.
OP - Você tem alguma história que te marcou, emocionou, de algum cliente, que você percebeu que mexeu com a autoestima dele ou dela?
Juliana - Temos e temos vários, graças a Deus. Hoje nós temos um rol de clientes grande. Só de cadastrados, nós temos 140 mil clientes. Falamos com 50 mil clientes na loja, ativos. Temos vários cases. E são nos momentos da experiência que eles se abrem e falam da loja.
Então é um momento muito rico para mim, como proprietária da empresa, porque ali você está vendo, de fato, a satisfação dele. Ali ele fala com os olhos.Agora assim, é bom a gente ouvir coisas boas, mas é muito importante você ouvir as críticas para melhorar.
E nesses últimos encontros eles deram depoimentos sem eu perguntar, porque é muito mais espontâneo. Quando você pergunta, é muito difícil falar mal. Mas quando fala porque quer, você vê que o que ele está falando é o que está sentindo.
A gente aprende muito. Quem manda é o cliente na nossa loja, não somos nós. E é verdade, quem manda é ele. Se ele está satisfeito, a gente está. Se ele não está, a gente tem que procurar fazer ele ficar. Essa é a nossa missão.
OP - Você nunca trabalhou diretamente com o seu pai, mas o que você aprendeu com ele, na vida pessoal e profissional, que você adota na empresa e no dia a dia?
Juliana - Uma coisa que meu pai sempre me ensinou, que eu agradeço e que eu levo para a vida se chama ética. Ética e respeito, respeito para com o outro. Humildade. São coisas que meu pai ensinou e que eu levo e quero levar pro resto da minha vida.
OP - Você tem dois filhos. Deseja que eles sigam os seus passos, que eles deem continuidade à AmericaNews?
Juliana - Não tem como a gente não desejar, já que é uma coisa que você constrói com tanto suor, mas eu acho que eles têm que ser bons no que eles escolherem. Se for para estarem comigo, eu vou amar.
Mas também, se não for, e eles forem muito bons em alguma outra coisa, eu também vou ficar feliz do mesmo jeito. Os meus dois sobrinhos, filhos da Renata, não acredito muito que eles vão seguir esse caminho.
É mais fácil ser a minha filha, por mais que ela diga que não queira, mas eu acho que é bem o perfil dela. Ela é uma menina que já é líder desde nova, ela tem esse perfil de liderança, então eu acredito que ela vá seguir, sim.
OP - Qual o legado que a American News deixa para o mercado cearense?
Juliana - A visão. Não desistir, buscar, sempre investir nas pessoas é importante. Você não faz nada só. Você precisa investir nas pessoas.
Hoje a AmericaNews é percebida como uma rede nacional e não só como uma rede nordestina. E isso nos deixa muito lisonjeados. A gente sabe que isso é fruto de um trabalho árduo, um trabalho de dedicação também.
E de investimento nas pessoas. Eu sempre digo internamente, se eu fosse montar AmericaNews hoje, o primeiro setor que eu daria mais importância, que teria maior relevância, seria o de recursos humanos, porque você não faz nada só.
E quando você está com pessoas boas, no local certo, com pessoas felizes, é muito mais fácil o negócio andar. Como a cultura é disseminada. Eu acho que esse foi o grande diferencial da AmericaNews no mercado.
OP - Pode contar um pouco da sua história?
Rosalvo Carneiro - Meu pai, Damião Carneiro, e minha mãe, Maria de Araújo Carneiro, seguraram a barra da gente, éramos 12 filhos. Tinha um grupo escolar na fazenda e eu fiz o início do primário lá, depois vim para o Colégio Cearense. E no primeiro científico eu fui para o Rio de Janeiro.
Fiz o científico lá e depois fiz engenharia na Escola Nacional de Engenharia. Terminei, passei um ano lá e retornei para trabalhar com agropecuária. A parte pecuária eu já peguei muito adiantado, passou do meu pai, depois para o meu irmão mais velho.
Quando eles faleceram, passaram para mim. Mas eu não podia botar minhas filhas para sair daqui para ir para o Maranhão para ver boi, cavalo. Não dava para elas.
Então começamos, tinha um pouco de perfume, e chegou aonde elas estão, graças a elas. Eu só fiz dar um pouco de sustentação financeira. Elas trabalharam dia e noite para poder seguir em frente. Graças a Deus, deu tudo certo e está dando tudo certo.
Não dependem de mim para nada. Elas são independentes. Isso é o mais importante, eu acho.
OP - O que o senhor sente quando entra numa loja das suas filhas?
Rosalvo - Muito feliz, principalmente sabendo que saiu uma parte de mim para elas, que é importante. A gente fica satisfeito, realizado. Dever cumprido. Agora, muito bem cumprido.
OP - O senhor idealizou para elas um negócio de produtos importados. Por que o senhor pensou nisso?
Rosalvo - Aí você me pegou (risos). Os produtos importados eram mais do ramo do que elas queriam. Foram desenvolvendo, desenvolvendo. Sempre tiveram muito respeito de todo mundo, respeito aos outros também, e foram crescendo.
OP - Como uma pessoa que participou do início da empresa, qual legado a AmericaNews deixa para Fortaleza, para o Ceará?
Rosalvo - Qualquer empresa que venha se estabelecer no Ceará ou em qualquer outra região, não sendo picaretagem, é bom demais. É bom para quem é da empresa quanto para o Estado.
OP - O que o senhor sempre ensinou para as suas filhas, o que sempre precisam ter e devem levar para o resto da vida?
Rosalvo - Você levando as coisas com honestidade, o restante vai acompanhando. Tratando o pessoal bem, os fregueses como uma pessoa de casa, isso é o que é mais importante.

Esta entrevista exclusiva com Juliana Carneiro para O POVO faz parte da sexta temporada do projeto Legados.
Foram cinco entrevistas com grandes empresários para contar a base que sustenta seus princípios, valores e tradições familiares que estão sendo passados para as novas gerações. E, ainda, o legado empresarial para o Ceará.
Uma série de entrevistas especiais com grandes empresários que deixam legados para a sociedade e a economia do Ceará