
Resumo
Facções criminosas atraem jovens periféricos, muitas vezes chamados de "teleguiados", por meio da ostentação de luxo e dinheiro rápido, que contrasta com o descrédito no sistema educacional e a infraestrutura precária das escolas.
Especialistas caracterizam a situação como um "extermínio da juventude periférica", argumentando que as políticas de segurança têm falhado e que a vida social desses jovens é interrompida precocemente pela violência armada.
Enquanto o governo estadual foca em programas de prevenção (como o PReVio) e mudanças na nomenclatura jurídica de ações policiais, sociólogos defendem um maior controle externo da polícia e investimentos integrados em lazer, cultura e educação.
Jovens cearenses trilham o caminho da violência. De 2009 a 2025, 81,7% das vítimas em intervenções policiais no Ceará tinham até 29 anos, idade limite da juventude, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Dados consideram os crimes nos quais a idade das vítimas é informada.
O percentual é de 61% entre os jovens com até 24 anos. Já crianças e adolescentes de até 18 anos são 21% das
Os dados não diferenciam os mortos por policiais entre jovens que estariam ligados ao crime e meninos sem relação. Ambos podem estar entre os vitimizados; fato é que, independente do "lado", jovens são os que mais morrem em confrontos com a polícia.
Idade dos mortos por intervenções policiais no Ceará
A violência cerca. Das ruas, invade as casas, espaços de lazer, músicas e o vocabulário, seguindo os jovens até as escolas, muitas vezes sem estrutura para lidar com o sufocamento do crime. Professores da rede estadual e municipal ouvidos para esta reportagem se perguntam: “Como vamos convencê-los de que educação é o caminho, se o crime é luxuoso e a escola mal tem teto?”
Seja pelo medo que provoca, seja pela onipresença ou pelas promessas de dinheiro e luxo “rápido”, a conjuntura do crime alcança ou atrai quem ainda está aprendendo a caminhar por contra própria. Infinitas possibilidades de futuro são perdidas e os jovens acabam sugados por um destino de curtas vidas nas trincheiras — vidas marcadas por guerras sem fim.

Uma notícia circulou aquele Halloween — 31 de outubro de 2025. Três dias após a "megaoperação" que resultou 121 mortos no Rio de Janeiro (RJ), sete pessoas morreram em Canindé (CE), a 106,54 km de Fortaleza. Foi o maior número de mortos em operação policial no Ceará, desde 2018.
De acordo com a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), os suspeitos arremessaram granadas nos policiais, que revidaram. Das sete, seis vítimas foram identificadas — todos homens ligados ao Comando Vermelho (CV).
Junto dos nomes, as idades. O mais velho tinha 20 anos e o mais novo, 15. O ano de 2025 foi o mais letal para jovens em confrontos policiais de toda a série histórica cearense.
As vítimas por intervenção policial no Ceará, entre 2013 e 2025, são 1.765, das quais 1.576 tiveram idades identificadas nas tabelas disponibilizadas pela SSPDS. O restante consta como “não informado”. Do total, 1.289 tinham até 29 anos no momento da morte. A vítima mais jovem tinha 12.
Se incluídos os casos sem dados de idade, os jovens totalizam 73% do total. Já somente em relação aos com idade identificada, são 81,7%. A cada cinco cearenses que morreram desde 2013 em intervenções policiais no Ceará e dos quais sabemos quantos anos tinham, quatro eram jovens.
2025 foi o ano mais letal para jovens de até 29 anos em intervenções policiais
Se considerarmos somente crianças e adolescentes (com 18 anos ou menos), são 343 mortos por intervenções policiais em 13 anos. Equivale a uma criança ou adolescente morta a cada 13 dias, desde 2013.
Menores de 18 anos de idade são 19,4% dentre todos os casos computados. Já somente em relação aos com idade identificada, são 21,7%, o que significa que a cada cinco jovens mortos em confrontos com a polícia, um tinha 18 anos ou menos — e a cada quatro jovens (até 29 anos) mortos citados mais acima, pelo menos um deles era criança ou adolescente.
Qual o ano mais letal para crianças e adolescentes em intervenções policiais?
Dados por ano revelam um aumento de vítimas de intervenções policiais com 29 anos ou menos a partir de 2017. Não houve, desde então, um ano com menos de 80 jovens mortos neste tipo de confronto.
Além disso, cinco anos tiveram, cada, 100 ou mais jovens mortos em intervenções. São eles: 2018, 2020, 2022, 2024 e 2025.
Outro dado que chama atenção é sobre 2017, de fortes confrontos entre facções criminosas e troca de secretário da SSPDS. No período, dos 83 jovens que morreram em confrontos policiais, quase metade (49%) tinha 18 anos ou menos.
Percentual de jovens de 18 anos ou menos em comparação com o total de mortos
Os arquivos da SSPDS trazem ainda informações de 59.341 vítimas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLIs), entre 2009 e 2024. Destas, 54.305 têm idade identificada e, dos com idade identificada, 30.495 são jovens com até 29 anos.
Ou seja, sem contar as intervenções, ainda há um cerco de violência que vitimiza. Jovens são 51,3% das vítimas de homicídios dolosos, feminicídios, latrocínios (roubo seguido de morte) e lesões corporais seguidas de morte. Se comparamos somente os crimes com idade identificada, pessoas com até 29 anos são 56,1%.
Leia mais
Segundo a pasta de Segurança do Ceará, “as mortes decorrentes de intervenção policial ocorrem quando o profissional de segurança pública, no atendimento de uma ocorrência, precisa neutralizar uma ameaça iminente, com o objetivo de proteger a própria integridade física e a de terceiros”.
“Esses óbitos não são considerados, a princípio, intencionais, uma vez que, até prova em contrário, estão amparados por excludentes de ilicitude previstos em lei, como o estado de necessidade, a legítima defesa, o estrito cumprimento do dever legal e o exercício regular de direito”.
Conforme a pasta, "todas as mortes decorrentes de intervenção policial resultam na instauração de inquérito policial e são apuradas de forma imparcial por órgãos do Estado".

Não necessariamente os dados se referem a jovens com relação comprovada com o crime. Porém, um cerco de ambientes de violência e ilegalidade levam a uma morte também precoce. “Juventude toda morrendo”, lamentou o sociólogo Artur Pires, ao ter acesso aos dados desta reportagem pela primeira vez.
Profissionais da educação municipais ou estaduais narram o desespero para impedir algo que já parece fora do controle deles. É o caso de professores de Maranguape (CE), terra de humoristas, proclamadores da República e abolicionistas, mas que foi considerada a cidade mais violenta do Brasil, pelo Anuário Brasileiro de Segurança 2025. Registros somaram 74,2 casos de homicídios a cada 100 mil habitantes.
A escola em que um deles atua é situada em região descrita como dominada por duas facções criminosas. Mesmo há 13 anos no meio educacional, o profissional não sabe lidar com casos nos quais alunos de uma localidade não podem brincar, namorar, passear, ter uma vida, uma relação pessoal com ninguém da área ao lado, segundo relatos deles.
Nem sequer jogos entre escolas seriam permitidos, por ultrapassarem território vizinho proibido.
Todos os dias, os professores ouvem histórias do cerco da violência aos adolescentes. Ela drena bairros onde a polícia não circularia à noite e "criminosos empunham metralhadoras nas esquinas"; que não permitem entrada de serviços por aplicativos e que limitam o ir e vir.
Mais que isso, ouvem de alguns alunos que eles sentem mais segurança em quem controla a região do que quem entra ocasionalmente. Preferem, muitas vezes, contatar criminosos do que policiais e, como consequência, muitos se encantam pelo mundo do crime.
"Pensam que é mais fácil entrar no mundo do crime, porque veem os no topo da pirâmide, com a moto, com o carro, com o dinheiro e a ostentação", comenta um dos professores de Maranguape, cuja identidade será resguardada por segurança.
"Às vezes, (os alunos) dizem assim: 'Meu tio, meu irmão, terminou o ensino médio e está trabalhando no mercantil, ganhando salário mínimo, enquanto o outro tá lá ostentando com mulheres, com homens, indo pra praia, viajando'. Muitos alunos querem estar nesse ambiente aparentemente de ostentação", relata.
Outro educador, com três anos de experiência, tem opinião semelhante: "(Os alunos) não têm oportunidade. Não pensam no estudo a longo prazo. A gente sabe que o estudo não dá as coisas de uma hora para outra. Um aluno do ensino médio vai passar três anos, vai fazer o Enem, às vezes, vem a passar na universidade pública, às vezes, não. Surge o descrédito com o sistema. 'Estudei para quê?', se perguntam."
Em contraste com a riqueza do crime, o ambiente escolar se mostra fisicamente decadente. Os professores narram problemas de infraestrutura nos prédios antigos, sem climatização adequada, quadra de esportes ou demais espaços para lazer.
"Me pergunto naturalmente todos os dias, como é que a gente pode acolher um aluno que já vem de uma situação de violência, seja ela urbana ou familiar, num ambiente que não tem uma quadra, não tem um esporte de lazer, não tem um ambiente saudável?", questiona o primeiro profissional citado.
A tentativa dos professores é a de não permitir que a violência adentre a escola ou de não deixar que esse tipo de desejo dos jovens se propague. “Cortam as conversas”, tanto para não chamar atenção ao assunto, quanto por medo.
“O que nós fazemos, enquanto instituição, é falar que ali é um ambiente de paz e de transformação de vida. E eu sempre falo: 'Se a nossa região está com dificuldade de você ter uma vida saudável, vamos estudar e tirar a nossa família daquele ambiente insalubre’. Mas, de uma maneira geral, as políticas públicas não são exitosas”, relata um educador.
O mesmo ocorreria em outras cidades do Estado. Por exemplo, professores de um município do Centro-Sul disseram ouvir de alunos que o “sonho deles era ser batizado”, ou seja, entrarem oficialmente para uma facção criminosa.
Índices denunciariam a presença ou interesse de alguns jovens cearenses no crime organizado. Por exemplo, a maioria dos indiciados por roubos de celulares também têm até 24 anos, conforme dados exclusivos obtidos pelo O POVO+ para reportagem especial.
Estes delitos “menores” seriam uma forma de entrada em facções, segundo o sociólogo Artur Pires, membro do Laboratório de Estudos da Violência (LEV) da UFC.
Há uma tendência desde os anos 1990, explica, de garotos cada vez mais jovens ingressarem em “práticas criminais periféricas", geralmente as que envolvem enfrentamento direto e armado com a polícia. Esse costume teria se mantido ao longo dos anos, intensificado pelas mudanças na conjuntura do crime, como a formação e crescimento de facções por todo o Brasil, incluindo o Ceará.
Grupos originalmente cearenses, como o Guardiões do Estado (GDE), teriam inclusive práticas mais intensas de recrutamento de jovens. Em contraste, o grupo paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) proibiria esse tipo de conduta em meados da década de 2010.
O crime esbarrava e ganhava força em realidades já muito violentas de gangues, além da pobreza e do abandono de regiões periféricas.
As facções alcançaram estados, capitais e municípios do Interior. Não apenas em pesquisas acadêmicas, mas a presença dos jovens no crime é exposta em músicas, pichações, documentários, reportagens, vocabulário, moda. Cada vez mais novos e mais numerosos.
“Ultimamente, as facções têm encantado uma juventude periférica para aderir às suas práticas. O Estado e a sociedade precisam disputar para que esse jovem, esse adolescente seja atraído pelo simbolismo da sociedade. A gente tem falhado como sociedade e Estado", pontua o sociólogo Artur.
Dentro de alguns grupos, como o próprio GDE, pesquisas indicam a existência de hierarquias.
“(Por meio de) depoimento (de um criminoso preso) aos órgãos policiais cearenses, soube-se que a facção apresenta um modelo organizacional bem consolidado, com cinco gradientes hierárquicos: conselho geral, conselheiros locais, gerentes de boca, aviões, e os teleguiados", escreveu Artur Pires em uma pesquisa. A categoria "teleguiados" seria justamente onde se enquadra boa parte da juventude.
Vale reforçar, novamente, que nem todos os mortos em intervenções estavam no crime. Mesmo quando envolvidos, não necessariamente 100% tratam-se de recém-ingressos. Porém, levando em conta as pesquisas e a frequência de vítimas muito jovens, fileiras de mortos por ação da polícia revelariam rostos de teleguiados.
Seriam perigosos, porém deslumbrados e cooptados. Estariam na base da pirâmide, enquanto investigações apontam os “cabeças” seguros em altas torres de áreas nobres em metrópoles — longe das operações, da violência armada diária e dos bairros pobres onde vivem muitas das crianças aliciadas.

O governador Elmano de Freitas (PT) assinou, em 6 de fevereiro de 2025, um decreto que muda a forma de tratamento de policiais em ações. Os agentes de segurança passam a "interventores" e não mais "autores" dos crimes em inquéritos de lesão corporal ou morte. As "vítimas", por outro lado, tornam-se "opositores".
"Sempre defenderei a lei, mas não aceito que policiais que arriscam a vida para proteger o cidadão tenham o mesmo tratamento que bandidos, e nem que bandidos tenham o mesmo tratamento que vítimas, em situações que mostrem intervenção policial legítima no enfrentamento ao crime", escreveu o gestor, nas redes sociais.
Com base em anos de estudos na área criminal cearense, Arthur Pires reforça que as vítimas não são somente “jovens”, mas jovens periféricos.
“É uma política extraoficial de matança de muitas pessoas periféricas. Alguns movimentos sociais chamam de ‘extermínio da juventude’ e as pesquisas e dados indicam que esse termo não é de todo equivocado. Fala-se em um extermínio de uma juventude periférica no Brasil, e o Ceará não escapa a regra", diz Pires.
Na análise dele, os números indicam que as políticas “têm falhado consideravelmente nas últimas décadas para lidar com esses problemas complexos da segurança pública”. Essa problemática teria consequências inclusive sócio-demográficas. "Basta pensar na juventude de até 25 anos que não participa da vida social do Estado, porque essa vida é interrompida precocemente”, exemplifica.
Para que algo mude, Artur sugere novas formas de controle dos aparatos policiais — com mecanismos de controle externo, menos corporativistas, tanto nas ações quanto nos julgamentos. "Sem coleguismo, sem corporativismo", disse.
Também citou treinamentos diferentes com os policiais, com uma formação mais integrada em relação aos direitos humanos. Por fim, defende investimentos em inteligência, “para que as investigações possam encontrar as redes de corrupção e ilegalidade”.
“A mortandade é tão grande no Brasil e a gente não pode fugir da questão da desigualdade social. Isso é clichê de dizer, mas a gente sempre bate nessa tecla. Política de segurança pública tem que ser pensada junto com políticas de lazer, de cultura, de educação, de saúde, de moradia — vinculada às áreas sociais", defende.
Ao O POVO+, a secretária de Juventude do Ceará Adelita Monteiro (Psol) afirmou que a diretriz do governo Elmano é prevenção à violência, ou seja, “fazer com que a juventude não vá por um caminho que vai matá-la e fazer com que ela também não chegue a matar outras pessoas".
A secretária citou, dentre outros, o Programa Integrado de Prevenção e Redução da Violência do Governo do Ceará (PReVio), com foco em ações de segurança social, investimentos de R$ 40 milhões e que atende 1500 jovens; o Projeto Jovens Mães (Projema), voltado a jovens gestantes de modo a evitar que situações de vulnerabilidade levem ao crime; e as Casas da Juventude, voltadas para as periferias de Fortaleza.
“Precisa ser considerado o investimento que tá sendo feito para que todas os jovens tenham acesso ao ensino integral (...), a CNH Popular. Para o governador Elmano, a forma de mudar essa realidade que existe — e é desafiadora, mas que a gente trabalha dia e noite para transformar — é oportunizar a juventude, fazer com tenha outros caminhos a trilhar”, disse.
A conversa com a Secretária traz diversos outros detalhamentos sobre políticas públicas ofertadas pelo Estado. Pode ser conferida, na íntegra, abaixo.
Uma entrevista foi solicitada à Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS), que respondeu com uma nota. A pasta informou que policiais cearenses passam por cursos de formação inicial e continuada, com foco em “atuação humanizada e técnica, voltada à resolução de conflitos e ao respeito aos direitos humanos”.
No enfrentamento à criminalidade, foi destacado o crescimento no número de armas de fogo apreendidas e nas capturas, prisões em flagrante e cumprimento de mandados. Todos os dados apresentados na nota foram apurado pela Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), vinculada à SSPDS.
Na vanguarda, professores de Maranguape pedem melhores condições de estrutura física das escolas — de um teto sobre as cabeças e paredes resistentes, até bancos para os meninos sentarem nos intervalos e opções de lazer. “A gente não pode transformar a escola num depósito de aluno”, defende o professor com 13 anos de carreira.
Os profissionais, acima de tudo, clamam por maior atenção dos pais e do Estado para com as crianças, adolescentes e jovens — que não os deixem perder, que não os deixem morrer e que não os matem.

A reportagem utilizou como base a idade de 29 anos por ser o limite para a juventude, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Todas as informações utilizadas são do portal da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) e estão nas tabelas de Crimes Violentos Letais Intencionais (CVLI). Apesar disso, as mortes por intervenção policial não entram nessa categoria, pelo excludente de ilicitude dos policiais — prerrogativa que afasta a ilegalidade de um ato, mesmo que ele se encaixe em um crime. Seria o caso confronto no qual o agente reage para proteger a vida, sem excessos.
Os números foram baixados e filtrados pelo O POVO+. É possível acessá-los por meio deste link. Os recortes feitos foram: os com idade identificada ou não e, dentro dessas duas categorias, as variações de idade — até 18 anos e até 29 anos. Por fim, filtramos por ano, também dividindo entre menores e jovens adultos.
Foram solicitados dados de 2025 à SSPDS, uma vez que eles não constavam na tabela disponível no site até o dia final de apuração — 17 de janeiro de 2026. A pasta respondeu com uma nota, via e-mail, sem essas informações. Uma semana depois, os dados foram disponibilizados ao público de incluídos nesta reportagem.