Resumo
Marcos Roberto de Marques, 57 anos, ri ao explicar que o chamam de dinossauro. Não pela idade — 50 anos ainda é novo demais —, mas pelo tempo de trabalho como guarda-parques da Reserva Natural Serra das Almas, unidade de conservação da Associação Caatinga localizada em Crateús (CE), onde atua há 24 anos.
As décadas protegendo e preservando o bioma Caatinga o transformaram: "Eu fui começando a amar como eu amo a minha família, como amo meu filho." É por isso que ninguém imaginaria que Marcos Roberto já foi um caçador.
"Eu fazia muito por necessidade e por falta do conhecimento também. Graças a Deus, nunca matei para comercializar", explica. "Mas quando eu cheguei aqui na Serra das Almas, mudou a minha vida, o meu pensamento. Essa questão da gente caçar o animal é muito cruel", reflete.
Em alusão ao Dia do Agente de Defesa Ambiental, comemorada em 6 de fevereiro, O POVO+ compartilha a história de Marcos Roberto e como a natureza e a unidade de conservação o transformou em um homem, um pai e um ser humano melhor. Confira:

O POVO - Seu Marcos, o senhor é um dos funcionários mais antigos da Associação Caatinga aí na Serra das Almas, certo?
Marcos Roberto - Sim, sim. As pessoas costumam me chamar um dinossauro, né? O meu chefe brinca comigo, o Daniel (Fernandes, diretor-executivo da Associação Caatinga) fala assim: "O Marcos vai se tornar um dinossauro aqui" (risos).
OP - O senhor tá aí desde quando?
Marcos - Eu cheguei aqui na Associação Caatinga em 2002. Pra mim, foi um desafio muito grande, porque eu não sabia nada da natureza, eu só sabia destruir. Assim, eu gostava de estar nela. Vivi muito tempo, nessa área rural e tudo. Mas eu fazia uma coisa de errado, que era caçar — e caçador dos bons, viu?
Mas então eu vim do Interior pra morar em Crateús, e eu comecei trabalhando como mototaxista. Era muito difícil. Nessa trajetória, eu conheci o gestor daqui da unidade, e ele me convidou para vir conhecer; não trabalhar, conhecer aqui a Serra das Almas. Não sabia nem o significado do que era a Serra das Almas, entendeu?
Chegando, a gente foi conversando e eu falei assim: "Ué, cadê os bichos aqui? Cadê o gado?", porque eu achava que era uma fazenda. Eu não tinha entendimento nenhum, eu era leigo nessa história de preservar a natureza. E aí durante a visita aqui ele me ofereceu o trabalho de guarda-parque. Eu disse: "E o que o guarda-parque faz?” Ele disse: "O guarda-parque cuida de tudo, de toda a natureza.” Pensei: Eu vou aceitar, não estou fazendo nada mesmo, vou aceitar.” E aí começou a minha transformação.
OP - Mas quando ele chamou o senhor para visitar, ele sabia que o senhor caçava? Foi por isso que ele chamou?
Marcos - Não, não, ele não conhecia a minha vida, só sabia que eu era mototaxista. Mas ele se deu comigo, viu que eu era uma pessoa bem distinta, porque eu estava sempre pronto pra levar para onde ele queria.
Aí eu vim com a minha família e a gente ficou aqui, mas, no começo, eu achava a Serra das Almas muito isolada. Era quase 100% de isolamento, não tinha comunicação, não tinha televisão, não tinha energia. Era só a gente. Era difícil até sair daqui, no transporte, só era com 4x4. Foi um desafio muito grande, em três meses eu queria desistir, mas ele me incentivou.
Ele disse: "Olha, não desiste, fica aqui que a gente vai ter muitas melhorias.” Aí eu perguntei: “Eu posso matar as cobra?" Ele disse: "Não, não, nem pensar". Eu digo: "Pois, rapaz, é aí que não dá mesmo, eu não vou conviver com as cobra aqui não, cara. Eu não tô nem louco. É cobra para tudo que é lado.”
OP - Mas o senhor tinha medo de cobra?
Marcos - Era assustador não porque eu tinha medo, mas porque eu sozinho, eu e outra pessoa aqui nesse lugar, e se eu tivesse sido picado por uma cobra daquelas? E era as pior das pior, né? Só as bicha perigosa mesmo aqui. (risos)
Mas aí ele me incentivou e eu comecei a ver as coisas diferente. Comecei a ver a maneira dos animais olharem pra gente, se comunicar com a gente. E aí eu comecei a criar gosto, a pegar amor por tudo que tinha aqui.
Eu fui só me transformando. E aí as coisas foram chegando. A associação foi começando a dar mais esclarecimento para a gente, com cursos de como se comportar (com e na natureza). Eu fui começando a amar como eu amo a minha família, como amo meu filho.
Eu no papel que tenho aqui hoje, eu tenho uma gratidão muito grande pela Associação Caatinga, por Deus, pela pessoa que me trouxe aqui. Eu não me acho fora daqui. Hoje eu tô aqui, eu praticamente moro aqui. Eu chego em casa no final de semana e já fico pensando na hora de voltar. Fico ansioso para chegar o horário, porque eu não me vejo mais fora daqui.
É um lugar que transforma a gente, que inspira de uma maneira… Isso aqui é um santuário que não tem preço. Isso aqui eu peguei praticamente do começo. Animais que eu não vi lá no começo, hoje eu tenho a facilidade de ver um animal aqui. Hoje um animal que eu sonhava… Eu tinha esse sonho de ver a onça, eu consegui ver a onça aqui na estrada.
OP - Uma onça-parda (Puma concolor)?
Marcos - É, a onça-parda, que é a onça que a gente tem aqui na nossa Caatinga. Ela é o topo da cadeia alimentar; aqui não tem a pintada. E aí tem os outros felinos, como o gato-mourisco (Puma yagouaroundi), o gato-maracajá (Leopardus wiedii), a jaguatirica (Leopardus pardalis)… Eu sou uma pessoa realizada por cuidar da natureza, não só aqui na Serra das Almas.
A transformação aconteceu para minha família também. Eu era uma pessoa diferente, eu era uma pessoa… uma pessoa ignorante, vou dizer, a palavra é essa, é uma pessoa ignorante, que não mede as palavras. E hoje a Associação Caatinga me ensinou essa convivência com tudo, com a natureza, com as pessoas.
Se Deus quiser me levar amanhã, eu já vou feliz, porque eu tenho uma realização que é isso que aqui que eu tô vendo na minha frente. Esse cuidado que eu tenho para a natureza, com essa beleza, esse santuário que a gente tem aqui na Serra das Almas.
OP - Eu lembro que quando eu e a Fernanda (Barros, fotojornalista do O POVO) fomos para a Serra das Almas, passamos três ou quatro dias e a gente não queria ir embora. A gente chegou em Fortaleza pensando: "Meu Deus, o que a gente tá fazendo aqui? Por que a gente não volta?" É incrível como parece um local quase mágico, né?
Marcos - Pronto. É o meu caso aqui, viu? Esse lugar é tão contagioso, dizer assim, mas é um contagioso bom, sabe? De você chegar aqui e não querer ir embora. Eu falo isso de mim, mas eu vejo isso nas pessoas também. As pessoas vêm aqui e vão embora porque têm que ir, porque têm outras vidas, têm trabalho… Mas no meu caso, que eu trabalho aqui, eu não me vejo fora daqui. Eu saio daqui e já fico na ansiedade para voltar.
Eu tava de férias, eu voltei agora, eu tive que voltar antes das férias, não aguentei, entendeu? Falei: "Cara, eu vou voltar”. E o meu gestor disse: "Cara, você não pode voltar, você tá de férias". Eu disse: "Não, mas eu tenho cuidado, eu vou para lá, mas eu não vou me esforçar, eu quero voltar para o meu refúgio lá". Você entendeu?
E aí a chuva começou, e aí transforma. Não só transforma a natureza, como transforma a gente também, que a gente vê o crescimento. A alegria dos animais, a alegria dos pássaros com a chegada da chuva, com a chegada de tudo que é bom, né?
OP - Agora assim, o senhor aprendeu a caçar com a sua família?
Marcos - Foi, meu pai sempre foi um agricultor, e aí a gente como a gente também morou na roça, no Interior, era a cultura da gente. Eu não sei se isso era cultura, mas assim, meu pai não caçava para ele, ele caçava para se alimentar, né? Ele ia pro mato, caçava, chegava, e a gente fazia o almoço, às vezes fazia janta. E isso a gente foi aprendendo com ele.
Aí, eu cheguei nos meus 12 anos, no meus 15 anos, eu já caçava. E eu caçava muito com baladeira. Eu lembro que eu saía e a minha mãe falava assim: "Para onde vocês vão?". “Eu vou caçar rolinha”. Então matava três, quatro rolinhas, quando chegava limpava e fritava no óleo, comia com feijão, sabe?
Era uma maravilha, mas assim, eu fazia muito por necessidade e por falta do conhecimento também. Graças a Deus, nunca matei para comercializar. Depois comecei a caçar muito com espingarda, caçava com cachorro à noite também… E caçava muito por incentivo também, né? Porque, às vezes, a gente não ia caçar sozinho, caçava porque o outro chamava também.
Depois que eu passei a ter esse conhecimento aqui. Quando eu cheguei aqui na Serra das Almas, mudou a minha vida, o meu pensamento. Essa questão da gente caçar o animal é muito cruel. Você abate um animal que não está lá para ser morto, que são vidas que Deus deixou para a alimentação dos próprios animais mesmo. É uma cadeia alimentar.
Nós criamos gado, carneiro, porco para se alimentar. Os animais, não, os animais eles mesmo fazem essa alimentação entre eles. Hoje, você vê um animal se alimentando de outro, você não fica penalizado, você sabe que é normal. Mas eu ver uma pessoa, um caçador abater um animal, caçando aqui dentro, eu não fico nem em mim, sabe? Eu me transformo.
Às vezes, as pessoas têm que me (acalmar), o meu gestor fala assim: "Tem que ir devagar, não pode bater de frente". Eu digo: "Cara, minha vontade é pegar esse cara e socar ele, porque não existe caber com esses cara". A gente é revoltado com essa lei que defende o meio ambiente, porque não existe uma lei que prende. Essa questão de multa, todo mundo tá viciado nisso aí. “Ai, pode multar que isso não dá nada”, eles dizem.
Para a gente que defende a natureza, a gente fica revoltado com essas leis. Mas enfim, a gente faz a parte da gente. E o meu sonho é deixar isso aqui para outras pessoas: lá na frente, eles verem isso aqui como um santuário, como um livro para a pessoa vir aprender.
A partir do momento que você conhece a riqueza que tem a natureza protegida, é que você passa a valorizar essa questão. Só que assim, você tem que conhecer e amar também.
Eu costumo falar que todos nós sabemos que precisa preservar. Mas por que a gente não preserva? Por que a gente não cuida?
A coisa que hoje mais se fala é a história de preservar, preservar a natureza. Todo mundo sabe, mas hoje é meia dúzia de pessoas que cuidam da natureza. E cuidar de um bioma que nem a Caatinga é um desafio muito grande.
Eu só tenho a agradecer a Deus e à Associação Caatinga por tudo que eu aprendi e continuo aprendendo. A natureza todo dia ensina coisas novas pra gente, todo dia.
OP - Qual foi a última coisa nova que o senhor descobriu aí?
Marcos - Não é nem que eu descobri, é que vai acontecer. Por exemplo, nós recebemos o periquito cara-suja (Pyrrhura griseipectus) aqui, para mim isso foi inovador demais. A gente ter um bicho diferente, que já há muitos anos não existe (na Serra das Almas).
Aí, por surpresa, a gente tá trabalhando para receber elas também, eu fico ansioso para o dia que elas chegarem: são as araras, as araras-canindé (Ara ararauna). Para a região aqui, vai ser uma coisa muito nova, e para mim também. Porque, na nossa região aqui, a gente nunca viu a arara-canindé, e é um pássaro muito, muito lindo.
Logo, logo, até o final do mês a gente vai estar recebendo elas aqui. A gente está trabalhando no recinto (de aclimatação). Então, para mim, é novo, né? Não só para mim, Marcos, mas para toda a comunidade.
OP - O senhor acha que essa transformação tem acontecido também com outras pessoas da comunidade?
Marcos - Eu posso falar que a comunidade, hoje, não caça mais aqui dentro da Serra das Almas, porque eles têm um respeito. Não só o respeito, mas a associação leva também esse conhecimento para eles, para os filhos, e aí eles aprenderam a ter esse respeito pela natureza.
As pessoas que caçam aqui dentro não é nem daqui da comunidade, é lá de Crateús, mais de longe… São pessoas que caçam pro comércio (ilegal).
Todo projeto que tem hoje, na Associação Caatinga, é voltado à comunidade. Isso ajuda bastante, essa transformação das pessoas e o trabalho da gente. As pessoas admiram também o trabalho que a gente faz aqui. A partir do momento que essas pessoas conhecem, eles vêem a transformação e (entendem) que isso aqui era possível.
É porque, no começo, eu escutava a história de que isso aqui não iria para lugar nenhum. “Isso aqui não vai para frente.” Hoje, as pessoas chegam aqui e nem conhecem o lugar que conhecia anos atrás. “Meu Deus, como isso aqui tá diferente, como tá bem cuidado.” Então eles levam isso para eles, para os filhos. É um orgulho muito grande que eles têm.
A série de reportagens especiais explica as causas, os efeitos e as soluções das três consequências mais drásticas das mudanças climáticas no Ceará.