
“Graças a Deus, eu sobrevivi. Porque teve muita gente que não conseguiu. Ai, meu Deus. Nunca pensei passar por isso”. A declaração, dita pausadamente entre lágrimas pesadas que parecem carregar a dor do corpo e da alma, foi dita por Elisângela Santos Gomes, de 48 anos.
No dia 21 de julho de 2025, ela foi vítima de uma tentativa de feminicídio pelo ex-companheiro, no bairro Lagoa Redonda, em Fortaleza. O homem, Francisco Ricardo Damásio de Oliveira, 61, a atingiu com mais de 20 golpes de facão e decepou uma de suas orelhas. No hospital, passou por uma cirurgia de nove horas e precisou de 283 pontos na cabeça.
Elisangela escapou com vida de uma situação que, para muitas mulheres, termina em morte. Conforme o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), até dezembro de 2025, 472 processos de feminicídio permaneciam em andamento, ainda pendentes de baixa no Judiciário estadual.
O órgão também sentenciou 439 processos desse tipo de crime, considerando os julgamentos realizados apenas entre janeiro e dezembro de 2025, independentemente do ano de ingresso das ações.
Os dados ajudam a dimensionar a gravidade do problema, mas não dão conta de traduzir o impacto real da violência na vida das vítimas. No caso de Elisângela, sobreviver significou iniciar um longo processo de reconstrução física e emocional.
A relação com o agressor, que na época era seu vizinho de condomínio, teve início em 2024, após cerca de seis anos sem se envolver em nenhum relacionamento. Com o tempo, porém, o comportamento do companheiro mudou. Ele passou a tentar controlar sua rotina e seus deslocamentos.
“Chegou um momento em que ele não queria mais deixar eu sair de casa, nem vir para a casa da minha mãe, nem das minhas irmãs. Aí eu já fiquei em alerta que aquilo não era algo normal”, conta.
Com apenas oito meses, o relacionamento, segundo ela, já não fazia sentido. O ponto de ruptura veio quando, em um episódio de embriaguez, ele a agrediu fisicamente na frente da filha com transtorno do espectro autista (TEA), de sete anos. A partir dali, Elisângela decidiu encerrar a relação.
A conversa definitiva aconteceu no dia 18 de julho de 2025. Elisângela foi até a casa dele, aproveitando o horário em que a filha estava na escola. “Eu falei que não dava certo. Ele pediu desculpa, só que eu disse que não adiantava desculpa. Disse que ele podia continuar com a vida dele e eu com a minha”. A reação dele foi agressiva, com gritos que chamaram a atenção dos vizinhos.
Mesmo após o término, ele continuou insistindo, ligando e mandando mensagens. O medo passou a fazer parte da rotina. “Eu não estava conseguindo nem dormir. Eu morava só com a minha filha e ficava com medo. Até já tinha decidido que ia procurar outro local para alugar”. Diante da situação, decidiu ficar temporariamente na casa da mãe.
O crime ocorreu na tarde do dia 21 de julho, Elisângela estava na casa da mãe, acompanhada da filha e do sobrinho, de 11 anos. Tudo parecia normal até que a campainha tocou. Pelo olho mágico, ela reconheceu o ex-companheiro. Com medo, não atendeu.
Pouco depois, ouviu o barulho da queda. Ele havia pulado o muro. Quando ela o viu, ele já retirava uma faca grande da mochila. Sem dizer uma palavra, ele partiu para cima dela.
Elisângela tentou se defender como pôde. Usou uma cadeira para proteger áreas vitais do corpo, como tórax e pescoço. Mesmo assim, foi golpeada repetidamente. Ela então escorregou no próprio sangue, caiu, e passou a ser atacada com ainda mais violência.
“Ele ficou em cima das minhas costas, eu com a cabeça no chão, com o rosto para baixo, e ele golpeando a minha cabeça. Nessa hora, eu acho que eu já estava tão machucada que não sentia mais nada”, relata.
Em meio ao ataque, a mãe, de 72 anos, tentou ajudá-la e acabou sendo empurrada no chão. A idosa fraturou três costelas na queda. O sobrinho gritava por socorro, enquanto a filha, sem conseguir verbalizar, assistia à cena. “Essa vozinha dele não sai da minha mente”, diz Elisângela, ao lembrar do sobrinho implorando para que o agressor parasse de esfaqueá-la.
O garotinho conseguiu escapar do local e pedir ajuda aos vizinhos. Um deles entrou na casa e enfrentou o agressor. Mesmo sob risco, o vizinho conseguiu puxá-lo e dar chutes para que largasse a faca. Só então o ataque cessou.
Elisângela foi levada às pressas pelos próprios familiares ao Instituto Dr. José Frota (IJF). Chegou em estado gravíssimo, com apenas 30% do sangue do corpo. “Eu dizia: ‘Vou morrer, não consigo respirar’. Também dizia para cuidarem das minhas filhas e da minha neta”, relembra, emocionada.
Ela chegou a ser entubada e passou por procedimentos cirúrgicos. Por meio de cirurgia, conseguiu reimplantar a orelha decepada, mas perdeu a sensibilidade. Foi mais de um mês de internação no IJF.
Com cuidado, mostra os dedos, os braços e a região ao redor da cabeça, onde, mesmo cinco meses após a tentativa de assassinato, ainda permanecem pontos e cicatrizes. Um dos braços também apresenta dificuldade de movimentação. Marcas físicas que se impõem como lembranças dolorosas do ataque.
As sequelas emocionais são profundas. “Não passa uma noite em que eu durma normal. Até hoje eu tenho essa sensação. Eu sinto o cheiro de sangue, tu acredita? Um cheiro tão forte que, às vezes, eu acordo. É tanto pesadelo, meu Deus, com aquela imagem daquele monstro”.
A filha também foi profundamente afetada. “Ela nunca precisou de medicação para dormir. Hoje, mesmo tomando remédio, continua com dificuldade.”
Após tentar matar a ex-companheira, o homem foi preso em flagrante por uma equipe da Polícia Militar. Em outubro de 2025, ele se tornou réu por tentativa de feminicídio. No último dia 1º de dezembro, a Justiça decidiu levar Francisco Ricardo Damásio de Oliveira a júri popular pelo crime.
Ele também deve responder por lesão corporal contra a mãe da vítima, ferida durante o ataque. A defesa ingressou com recurso contra a decisão judicial. O réu permanece preso.
Elisângela conta que, após a repercussão de seu caso, relatos acerca do passado de Francisco Ricardo surgiram, incluindo o de uma ex-namorada, que afirmou ter encerrado o relacionamento devido ao comportamento agressivo dele.
“Ela terminou e ele aceitou, mas, no meu caso, ele cometeu essa monstruosidade [...] Eu fiz da forma que era para ser feita: quando houve a agressão, eu terminei. Mas a pessoa não aceita o término e acha que a outra ou fica com ela — como foram até as palavras dele — ou então não fica com mais ninguém. Quando a pessoa tem uma índole ruim, né?”, reflete.
Hoje, Elisângela pede justiça e compartilha a própria história na esperança de que outras mulheres não enfrentem a mesma violência.

Segundo a Secretaria da Segurança e Defesa Social do Ceará (SSPDS), o Estado registrou, apenas em 2025, até o dia 17 de dezembro, 45 crimes de feminicídio. O número é o mais alto desde o início da tipificação desse tipo de crime, em 2018. Desde lá, 279 foram mortas vítimas de feminicídio.
A violência atinge mulheres de diferentes faixas etárias. Entre as vítimas, há jovens, adultas e idosas. Somente entre mulheres com idades entre 20 e 49 anos, foram contabilizados 33 casos ao longo de 2025.
A análise dos dados também aponta para a predominância do uso de objetos perfurocortantes na execução dos crimes, como facas, punhais e machados. Presente em 25 dos 45 casos, o que corresponde a aproximadamente 55% das ocorrências.
A dor de um pai que perdeu a filha para a violência extrema atravessa cada palavra de Luciano José Luciano Gomes, 58 anos. Clarissa Costa Gomes, 31, sua primogênita, foi morta vítima de feminicídio no dia 9 de julho de 2025, no bairro Jardim Cearense, em Fortaleza. O acusado é o gestor ambiental Matheus Anthony Lima Martins Queiroz, de 26 anos.
Luciano fala da filha com emoção. “A Clarissa foi meu primeiro presente. Deus me deu”, diz. “Uma pessoa centrada, carinhosa, que nunca deu trabalho como filha. A gente se divertia muito junto, sabe? No convívio familiar, Clarissa era mediadora de tudo, e todos ouviam o que ela dizia”, relembra o pai.
O caso ganhou repercussão nacional após a ex-BBB e influenciadora digital Juliette Freire, que tinha uma amiga em comum com a vítima, usar as redes sociais para lamentar o crime e alertar pessoas que vivem situações minimamente semelhantes a denunciar seus agressores.
Clarissa e Matheus se conheceram na igreja e mantinham um relacionamento desde outubro de 2023. Segundo amigos, ele foi o primeiro namorado dela. Familiares e pessoas próximas acreditam que, no dia do crime, Clarissa tentou encerrar o relacionamento, decisão que não teria sido aceita pelo então namorado.
Na tarde do crime, vizinhos ouviram gritos de socorro e barulhos de pancadas vindos da residência, mas não conseguiram identificar de onde partiam por causa do som abafado.
Matheus teria usado uma faca da própria casa para matar Clarissa, desferindo 34 golpes. Em seguida, tomou banho, trocou de roupa e deixou o local.
Vizinhos estranharam a saída do suspeito e, ao entrarem na residência com ajuda de um familiar dele, encontraram sangue em vários cômodos. Matheus foi preso horas depois, ao sair do condomínio da mãe.
Luciano conta que, quando chegou e viu o corpo da filha, o impacto foi devastador. “A cabeça dela estava muito ferida, com muito sangramento. Eu tenho certeza absoluta de que ele ficou batendo a cabeça dela no chão”, relembra, com pesar.
Após a morte de Clarissa, vieram os relatos que a família desconhecia. Amigas contaram sobre discussões frequentes, explosões de agressividade durante jogos de futebol, respostas ríspidas sem motivo aparente e a quebra de uma mesa de vidro, que Clarissa tentou justificar para a mãe como um acidente doméstico.
Clarissa não compartilhou esses conflitos com os pais. “Se ela conversasse comigo ou com a própria mãe, a gente não ia aceitar”, afirma Luciano.
O caso segue em tramitação na 2ª Vara do Júri da Comarca de Fortaleza. O processo está em segredo de justiça. A esperança da família é que a morte de Clarissa não seja apenas mais um número nas estatísticas.
"Hoje, a gente sente na pele a mesma dor de tantas famílias que passaram e ainda passam por situações semelhantes, iguais ou até piores", diz o pai. “O que eu espero é que a Justiça seja feita. E que, a partir da Clarissa, do sofrimento que a nossa família está vivendo, isso se torne um marco, um exemplo, para que as coisas realmente mudem daqui pra frente."

A policial militar Larissa Gomes da Silva, 26, foi morta a tiros pelo namorado, o também policial militar Joaquim Filho. O feminicídio ocorreu na tarde de 3 de dezembro de 2025, em Eusébio, na Região Metropolitana de Fortaleza. Larissa deixou três filhos.
Segundo as investigações, Larissa foi morta durante uma discussão dentro do carro do casal. Houve troca de tiros no interior do veículo, e a policial foi atingida no abdômen e no tórax, não resistindo aos ferimentos. Joaquim Filho também foi baleado na perna e foi autuado em flagrante por feminicídio.
A mãe da soldado, Fabíola Paiva, descreve a filha como uma jovem determinada e segura. Segundo ela, porém, o comportamento da filha mudou ao longo do relacionamento. “Ultimamente ela estava abatida, não era mais a Larissa que todos nós conhecíamos. Ele tirou todo o brilho da minha filha.”
A mãe também confirmou que Larissa contou sobre episódios de agressão, incluindo um ocorrido ainda durante o curso de formação policial. “Quando ela me falou da primeira agressão, foi quando ele atirou na garrafa dela no curso de formação. Ele sempre foi agressivo com ela.”
Dias antes do crime, Larissa chegou a enviar um áudio a uma colega de farda relatando agressões sofridas após uma briga de trânsito, incluindo coronhadas na cabeça com uma arma de fogo. A vítima afirmou ter fotografado os ferimentos, mas as imagens foram apagadas pelo agressor e recuperadas posteriormente.
Larissa integrava a Patrulha Maria da Penha, unidade especializada no atendimento a mulheres vítimas de violência. Fabíola afirmou que a filha não conseguia romper com o relacionamento tóxico. “Ela tentou várias vezes, mas não conseguiu dar um fim, porque gostava muito dele.”
A mãe também acredita que o fato de o agressor ser policial influenciou a decisão da filha de não denunciá-lo. “Não sei se era medo dele, mas era medo de ele perder a farda. Por isso ela não denunciava”, relatou.
A tragédia se repete na história da família. Fabíola perdeu outra filha, Bianca, vítima de feminicídio em 3 de março de 2021. “Parece um pesadelo. Larissa quis se formar policial por conta do que aconteceu com a irmã.”
Diante das duas perdas, Fabíola diz esperar mudanças mais duras no enfrentamento à violência contra a mulher. Ela também deixa um alerta a outras mulheres. “Queria que tirassem essa ilusão de que eles vão mudar, porque não mudam.”
Fabíola pede que as filhas sejam lembradas pela vida que tinham antes da violência. “Eram duas meninas alegres, intensas nas relações e muito amorosas. Eu só quero justiça”.
Em 5 de dezembro de 2025, o policial militar Joaquim Gomes de Melo Filho teve a prisão em flagrante convertida em preventiva durante audiência de custódia realizada pelo 7º Núcleo Regional de Custódia e das Garantias, com sede em Maracanaú. O caso está em fase de inquérito policial e tramita em segredo de justiça.


Antônia Maria Cordulino dos Santos é descrita por seu filho, Francisco Nadiel, 30, como uma "pessoa incrível" que dedicou a vida à família, mas cujo destino foi marcado por décadas de violência doméstica. Ela foi morta pelo então companheiro Rui Geise Sousa Queiroz, no dia no dia 12 de janeiro de 2024, no bairro Henrique Jorge, Fortaleza.
A história de Antônia Maria com a violência não começou no último relacionamento. Durante cerca de 20 a 25 anos, ela viveu um casamento abusivo com o pai de Nadiel, marcado por agressões severas que incluíam espancamentos, enforcamentos e até ferimentos com faca.
"Infelizmente, eu cresci vendo as maiores barbaridades da minha vida. Ele já enforcou, ele já bateu muito, ele já puxou o cabelo, ele já deu muito murro, ele já picotou a mão dela com faca", relembra o filho.
Em um dos episódios de agressão mais grave, o homem foi preso em flagrante. Na ocasião, a Delegacia da Mulher concedeu medida protetiva contra o esposo.
Após a separação do marido, por volta de 2010, Antônia tentou reconstruir a vida. “Eu achava que ela tinha o direito de ser feliz, de encontrar alguém e continuar a vida”, afirma.
No entanto, ao iniciar um novo relacionamento em 2012, com Rui Queiroz, as cenas de abuso voltaram a se repetir quase imediatamente. Segundo o filho, tudo aconteceu de forma acelerada.
“Em menos de um ano de relacionamento eles se conheceram e logo passaram a morar juntos. Não houve um período de conhecer melhor, de apenas frequentar. Isso eu não apoiava, isso eu não aceitava. Mas eu permanecia calado, porque eu era um adolescente na época não tinha poder de decisão.”
As primeiras brigas surgiram antes mesmo de um ano de convivência. “Foram muitas situações repentinas e muito reincidentes, como tinha acontecido com o meu pai. A mesma cena se repetia”, relata Nadiel.
Com o passar dos anos, a violência passou a fazer parte da rotina da família. O filho lembra que a casa deixou de ser um espaço de proteção. “Eu me questionava: quando é que ela teria paz? Quando é que a gente ia ser feliz? Quando é que a gente ia passar um domingo tranquilo, um sábado sem a preocupação de imaginar que, no fim da noite, teria briga dentro de casa, alguém gritando, alguém quebrando as coisas?”.
O ciclo de violência se estendeu por mais de uma década. A tensão atingiu o ápice dois dias antes do crime, quando o agressor ameaçou vender o carro para comprar uma arma e matar Antônia.
No dia do assassinato, segundo testemunhas, Antônia estava na calçada de casa com amigas quando foi chamada para ajudar com uma medicação de Rui, que tem o diagnóstico de leucemia. Ao entrar na residência, o homem trancou o portão com um cadeado e matou mulher. “Para mim, foi tudo premeditado. Ele relatou no depoimento que colocou a faca debaixo da toalha da mesa”, afirma Nadiel.
Nadiel recebeu a notícia enquanto trabalhava. Ao chegar ao local, ele relata que encontrou a mãe já sem vida e o agressor sendo socorrido após tentar suicídio.
Apesar da brutalidade, o caso tomou um rumo que a família considera uma "derrota". Em 25 de outubro de 2024, a 5ª Vara do Júri de Fortaleza absolveu Rui após laudo da Perícia Forense apontar transtorno de controle dos impulsos não especificado. A Justiça determinou sua internação de segurança, por tempo indeterminado, em hospital de custódia, até que perícia médica ateste a cessação da periculosidade.
Nadiel critica o processo de avaliação psiquiátrica, alegando que apenas a família do agressor foi ouvida. Hoje, ele convive com depressão, ansiedade e uma saudade avassaladora da mãe herdados de anos de violência. "O que eu desejo para as mulheres é que não se calem, não aceitem qualquer tipo de agressão, nem que seja a mais pequena possível".

A raiz da violência de gênero está profundamente ligada aos processos de socialização masculina. A professora de Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e coordenadora do Laboratório de Análise Experimental do Comportamento (Lacce), Daniely Tatmatsu, destaca que, desde a infância, meninos são estimulados a adotar comportamentos agressivos e a reprimir emoções.
Esse modelo, explica a professora, acompanha os homens ao longo da vida e se manifesta também nas relações afetivas.
"Quando esses homens iniciam suas vidas conjugais, eles não têm repertório alternativo, que não seja agressivo, para lidar com as dinâmicas do relacionamento. A relação amorosa é apenas mais um contexto em que essa agressividade se manifesta", aponta.
"A Lei Maria da Penha estabelece cinco tipos de violência: psicológica, moral, patrimonial, física e sexual. No entanto, uma relação baseada na violência é tão diversificada e naturalizada, que muitas vezes há dificuldade de identificá-la. [...] O controle das relações de amizade da mulher, o afastamento da família, a limitação dos bens materiais, controle do celular, das roupas, dos lugares por onde circula — são sinais importantes", destaca.
Essa dificuldade de reconhecer a violência de gênero também impacta diretamente a forma como os crimes são investigados no Brasil. Para a professora de Direito Penal da Universidade Regional do Cariri (Urca) e doutoranda em Direito pela Universidade de Brasília (UnB), Geórgia Oliveira Araújo, ainda há resistência em identificar determinadas mortes como feminicídio, mesmo quando há evidentes componentes de gênero.
“As mortes em contextos de facções criminosas, por exemplo. Nessas situações é comum uma violência extremamente exacerbada, a humilhação antes da prática do crime ou a utilização do corpo da mulher como forma de marcar território ou de atingir a facção rival. Todas essas formas demonstram menosprezo ou discriminação à condição de mulher, que autoriza o reconhecimento daquela morte como feminicídio", aponta.
Apesar disso, essas mortes ainda não são majoritariamente reconhecidas como feminicídio, já que o conceito segue socialmente associado apenas a crimes cometidos por maridos, companheiros ou ex-companheiros.

Para enfrentar de forma mais eficaz a violência contra mulheres, Geórgia Araújo defende a atuação baseada em três eixos centrais: prevenção, produção de dados e articulação intersetorial. Segundo ela, “o problema não está na ausência de leis, mas na forma como o Estado e a sociedade têm priorizado respostas punitivas em detrimento de políticas públicas preventivas”.
A medida protetiva de urgência, por exemplo, é uma decisão judicial imediata que visa proteger a vítima de violência doméstica, impondo restrições ao agressor para prevenir novas agressões. De acordo com o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), somente entre janeiro e dezembro de 2025, foram solicitadas 22.871 novas medidas protetivas.
Geórgia Araújo chama atenção para os desafios especialmente fora dos grandes centros urbanos. Para que medidas protetivas de urgência funcionem de forma eficaz, é necessário um aparato técnico e material, como patrulhas Maria da Penha e serviços de acompanhamento às vítimas.
“Um dos maiores gargalos da aplicação da lei são as cidades do Interior, que muitas vezes não têm equipamentos especializados, e essas mulheres ficam à mercê daquela situação de violência”, alerta.
A pesquisadora também destaca a carência de informações qualificadas produzidas pelo próprio Estado. No Ceará, por exemplo, faltam dados que ajudem a compreender o perfil das vítimas e os contextos que antecedem os crimes.
Ela também defende investimentos em iniciativas como grupos reflexivos para homens autores de violência, espaços terapêuticos e educativos, previstos pela Lei Maria da Penha.
Em Fortaleza, desde 2021 a Universidade Federal do Ceará promove o projeto Renova. A atuação ocorre em diálogo com o Tribunal de Justiça (TJCE) e o Ministério Público do Ceará (MPCE), no âmbito da Vara de Penas Alternativas.
O Renova realiza 16 encontros a cada turma formada. Segundo os pesquisadores, a cada 10% de participação dos homens nas atividades, a probabilidade de voltarem a cometer crimes de violência doméstica cai cerca de 28%.
"Ele não vai se tornar um homem totalmente desconstruído. Isso é um processo de longo prazo. O que acontece é uma sensibilização. O nosso objetivo, tanto no curto quanto no longo prazo, é a não reincidência criminal", comenta Pedro Miguel Lavôr, pesquisador facilitador do projeto.
Além dos grupos reflexivos, o MPCE também coordena outras iniciativas voltadas para a prevenção da violência contra a mulher:
Para aderir alguma dessas iniciativas, entre em contato com o Núcleo Estadual de Gênero Pró-Mulher do Ministério Público
Endereço: Rua Teles de Sousa, s/n, Couto Fernandes (Casa da Mulher Brasileira) – Fortaleza/CE
CEP: 60.442-060
Telefones: (85) 3108-2941 / (85) 98685-6336
E-mail: nucleoestadualpromulher@mpce.mp.br

A polícia pode ser acionada por meio dos números 190 e 181, ou ainda via (85) 3101-0181, que é o número de WhatsApp, pelo qual podem ser feitas denúncias via mensagem, áudio, vídeo e fotografia.
Queixas também podem ser encaminhadas por meio do site disquedenuncia181.sspds.ce.gov.br.
Delegacia de Defesa da Mulher: (85) 3108.2950 – Plantão 24h, sete dias por semana
Centro Estadual de Referência e Apoio à Mulher: (85) 3108.2966 - segunda a quinta, 8h às 17h
Defensoria Pública: (85) 3108.2986 / segunda a sexta, 8h às 17h
Ministério Público: (85) 3108. 2940 / 3108.2941, segunda a sexta , 8h às 16h
Juizado: (85) 3108.2971 – segunda a sexta, 8h às 17h

Por trás da pauta
por Lara Vieira*
Essa reportagem foi pautada ainda no início de dezembro de 2025. À época, poucos dias haviam se passado desde que Tainara Souza Santos, de 31 anos, foi atropelada e arrastada pelo ex-ficante, o cearense Douglas Alves da Silva, de 26, em São Paulo. Ela teve as duas pernas amputadas e faleceu semanas depois.
Em um curto intervalo de tempo, outros episódios vieram à tona, mulheres desfiguradas, atropeladas, estupradas. Não se tratava, necessariamente, de um aumento repentino desses crimes, mas passaram a ser mais falados, mais expostos.
No encontro com Elisângela, conheci uma mulher de fala doce e sorriso gentil, daqueles que acolhem. Mas carrega marcas profundas da violência. Ela não consegue movimentar um dos braços, está impossibilitada de trabalhar em razão da própria condição de saúde e também por cuidar sozinha da filha, ainda criança, diagnosticada com autismo. Convive diariamente com dores que a fazem reviver, dia e noite, as horas de terror impostas por um homem.
Suas lágrimas talvez sejam diferentes, em forma e circunstância, das lágrimas dos familiares que perderam mulheres queridas, também retratados nesta reportagem. Ainda assim, o sentimento que os une é o mesmo: a busca por justiça.
Ao fim de cada entrevista, fosse ela presencial ou remota, eu me aproximava da bancada onde estavam minhas colegas de redação. Comentávamos sobre o que eu acabara de ouvir, trocávamos impressões, e eu pedia conselhos sobre como narrar aquelas histórias. Invariavelmente, terminávamos mergulhadas em um estado de melancolia ou indignação, tentando compreender por que essas violências continuam a se repetir.
Por que tratar mulheres como propriedade, como não-pessoas? Por que não aceitar o fim de um relacionamento e seguir adiante? O que leva homens a nutrirem tamanha raiva a ponto de sujarem as próprias mãos de sangue, de forma brutal?
No centro dessas questões está o machismo e o patriarcado, sistemas que sustentam a ideia de que mulheres são inferiores, passíveis de posse, controle e punição. A violência de gênero não é um problema restrito às vítimas; é uma questão social que precisa ser enfrentada por todos e, sobretudo, pelos homens.
A Lei Maria da Penha, sancionada em 2006, está prestes a completar 20 anos. Houve avanços importantes desde então, é inegável. Mas a reflexão, que inclusive foi levantada pelas fontes ouvidas, é: seguiremos concentrando esforços apenas em medidas punitivas ou vamos finalmente investir, com a mesma seriedade, em políticas de prevenção e transformação cultural?
*Lara Vieira é repórter de Cidades do O POVO. É bacharel em Jornalismo pela Universidade Federal do Ceará (UFC)