
Resumo
O autor destaca que a reserva abriga cerca de quarenta espécies ameaçadas, incluindo aves raras como o gavião-pega-macaco e o pintassilgo-do-nordeste, que dependem da integridade desse habitat para sobreviver.
No entanto, alerta para o avanço alarmante da caça predatória e do tráfico de animais, evidenciado pelo desaparecimento de grupos monitorados de jandaias-verdadeira.
Thieres Pinto também alerta para a necessidade de ação governamental na fiscalização e consolidação de políticas públicas que protejam efetivamente esse patrimônio ecológico vital.
Voltei ao entorno do Parque Estadual das Carnaúbas para uma nova visita — e “nova”, aqui, é quase força de expressão. Eu caminho por essa paisagem há cerca de 20 anos.
Foi acompanhando o parque por dentro e por fora, em campo, que ajudei a revelar e documentar parte importante da biodiversidade local: aves, mamíferos, répteis e anfíbios que, juntos, dão a medida do valor ecológico desse território.
Desta vez, estive em uma área ainda inserida na Área de Preservação Ambiental (APA) da Ibiapaba, no entorno imediato do parque, justamente onde há anos se tenta ampliar seus limites.
E não se trata de um capricho cartográfico: essa porção já foi estudada tecnicamente e já foi considerada em proposta de nova delimitação por sua importância biológica e cênica — e também porque, historicamente, esteve sob pressão direta de ameaças graves, como a tentativa de implantação de empreendimentos eólicos e a abertura/expansão de pedreiras.
É um pedaço de paisagem que funciona como continuidade ecológica do parque, com papel estratégico para conectividade, manutenção de habitats e proteção de espécies sensíveis.
Em apenas três dias no local, registramos 170 espécies de aves. Entre elas, há espécies ameaçadas em nível estadual — e não estou falando de registros isolados, raros ou “sobras” de um passado melhor.

Estou falando de populações ainda saudáveis, com sinais de viabilidade: ocorrência regular, comportamento natural, uso de diferentes micro habitats, presença de bandos e de áreas de alimentação e descanso. A biodiversidade ali não é um inventário nostálgico; ela é viva, pulsante e funcional.
E é aqui que a dimensão política e técnica desse território fica ainda mais clara: o que eu encontro no Parque Estadual das Carnaúbas e no seu entorno não é apenas riqueza biológica; é uma concentração expressiva de espécies que já foram reconhecidas oficialmente nas listas estaduais de fauna ameaçada de extinção.
Essas listas não são simbólicas: são um instrumento de política pública, um diagnóstico técnico que indica, com critérios claros, quais espécies estão sob maior risco e precisam de prioridade, investimento e proteção.
O parque, por sua vez, é outra política pública — complementar e, muitas vezes, a única capaz de transformar o que está no papel em proteção concreta no território. As listas estaduais dizem, em essência: “Essas espécies não podem desaparecer”. A Unidade de Conservação responde: “Aqui está o mecanismo real para que elas persistam”.
É o parque — e o seu entorno funcional, especialmente áreas tecnicamente reconhecidas para ampliação — que garante o que nenhuma portaria assegura sozinha: habitat íntegro, conectividade, reprodução, alimento, abrigo e dinâmica populacional.

Um exemplo simbólico e tecnicamente importante é o gavião-pega-macaco, espécie com grande exigência ecológica, que depende da qualidade da vegetação e da fauna para sobreviver. A presença dele — e como ele utiliza a área — é um indicador forte de integridade ambiental.
Somando minhas séries de registros ao longo dos anos, eu já documentei ali 14 espécies de aves ameaçadas ao nível estadual, além de várias espécies ameaçadas entre mamíferos e também alguns répteis e anfíbios.
No conjunto, estamos falando de aproximadamente 40 espécies ameaçadas ao nível estadual associadas a esse território. E isso é decisivo: não são apenas ocorrências eventuais — são populações viáveis, que indicam que o parque e seu entorno ainda sustentam um refúgio real e funcional para espécies que o próprio Estado já declarou como prioridade máxima.
Mas eu voltei preocupado.

Desta vez, além da beleza e da riqueza biológica, eu senti no campo um aumento claro de tensão socioambiental e de pressões que não eram a realidade dominante da região. Percebi conflitos recentes na comunidade.
Vi sinais de intensificação da caça. Ouvi relatos consistentes e encontrei indícios de atuação de grupos profissionais voltados à captura e ao tráfico de aves — e isso, para quem conhece a dinâmica desses ambientes, é um alarme vermelho.
Há registros e relatos envolvendo espécies criticamente ameaçadas ao nível estadual, como o pintassilgo-do-nordeste e a jandaia-verdadeira. Encontrei alçapões usados para captura de aves. E, talvez o que mais tenha pesado emocionalmente: não encontrei o grupo de jandaias-verdadeiras que acompanho há alguns anos.
Eu conheço a rotina dessas aves, seus deslocamentos, o padrão de presença ao longo das estações. A ausência, somada aos sinais e aos relatos, não parece casual. A hipótese mais provável — e dolorosa — é que tenham sido capturadas por traficantes.

Quando a gente fala em conservação, não dá para ficar só na estética do “que lugar bonito”. Aqui há dados, séries de campo, indicadores de integridade ecológica e, ao mesmo tempo, sinais objetivos de degradação e perda.
E é exatamente por isso que a relação entre as listas estaduais de espécies ameaçadas e o Parque Estadual das Carnaúbas precisa ser entendida como um sistema que se completa: quando caça e tráfico avançam, não é apenas “um problema ambiental” — é um ataque direto à efetividade das duas políticas públicas ao mesmo tempo.
A lista aponta a urgência; o parque deveria garantir a proteção. Se o território onde essas espécies persistem fica vulnerável, o Estado perde o próprio chão onde sua política de conservação se sustenta.

E é por isso que retorno com perguntas que não são retóricas — são urgentes: Como está, de fato, o andamento da redelimitação do Parque Estadual das Carnaúbas? Por que esse processo está parado há anos, apesar dos estudos, das propostas e das ameaças já reconhecidas?
E, principalmente: onde está a gestão presente do parque e do seu entorno imediato — com fiscalização, articulação comunitária e resposta rápida a crimes ambientais, especialmente caça e tráfico de fauna?
Escrevo isso com emoção porque tenho história com esse território. Mas escrevo, sobretudo, com responsabilidade técnica, porque os sinais estão aí.
Uma área prioritária para ampliação, com alta relevância ecológica, sustentando populações viáveis de espécies ameaçadas — e, ao mesmo tempo, exposta a pressões que, se não forem enfrentadas agora, vão transformar um patrimônio vivo em mais uma estatística de perda anunciada.

Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente do Ceará (Sema) afirmou que o "estudo de delimitação do Parque Estadual das Carnaúbas foi concluído e encontra-se em tramitação interna para os devidos encaminhamentos", sendo "um processo complexo, que necessita de análises interinstitucionais ao longo de suas etapas".
Sobre a fiscalização no parque e a articulação comunitária, a pasta diz que "tem trabalhado no fortalecimento da gestão socioparticipativa, por meio da sensibilização comunitária e da implementação do Conselho Gestor do Parque Estadual das Carnaúbas (Portaria nº 101/2025)".
"O Manual de Boas Práticas de Manejo das Carnaúbas e o Plano de Uso Público do Parque Estadual das Carnaúbas estão sendo elaborados e a construção do documento conta com a participação comunitária, por meio de oficinas", continua.
"A gestão do Parque Estadual das Carnaúbas realiza monitoramentos periódicos na UC estadual e, ao identificar crimes ambientais, encaminha as informações necessárias ao órgão fiscalizador competente - a Superintendência Estadual do Meio Ambiente (Semace), para a tomada de providências cabíveis", conclui.
Leia a nota completa da secretaria:
No que se refere à articulação comunitária, a SEMA tem trabalhado no fortalecimento da gestão socioparticipativa, por meio da sensibilização comunitária e da implementação do Conselho Gestor do Parque Estadual das Carnaúbas (Portaria nº 101/2025).
O Manual de Boas Práticas de Manejo das Carnaúbas e o Plano de Uso Público do Parque Estadual das Carnaúbas estão sendo elaborados e a construção do documento conta com a participação comunitária, por meio de oficinas. Tanto o Manual como o Plano são entregas relevantes para todas as partes interessadas, no uso sustentável dos recursos naturais no território da Unidade de Conservação (UC), em especial por parte das comunidades tradicionais que vivem na área, assim como para o desenvolvimento econômico sustentável da região, como um todo.
A gestão do Parque Estadual das Carnaúbas realiza monitoramentos periódicos na UC estadual e, ao identificar crimes ambientais encaminha as informações necessárias ao órgão fiscalizador competente - SEMACE, para a tomada de providências cabíveis.
Dentre as ações constantes no Planejamento Estratégico da SEMA e Plano Plurianual do Estado do Ceará está previsto o desenvolvimento de ações com a finalidade de fortalecer a proteção e a valorização da fauna silvestre no Ceará, no âmbito das Unidades de Conservação estaduais.
As ações acontecerão por meio da implementação de projetos e programas para a promoção da preservação das espécies, com parcerias interinstitucionais, incentivo à pesquisa e atualização de instrumentos normativos e de conservação, a exemplo da, capacitação continuada dos gestores de Unidades de Conservação estaduais, sobre proteção à fauna e da articulação logística para o resgate de fauna em UCs estaduais, em parceria com outros entes federados que detém a competência conjunta de gestão de fauna silvestre.
Sobre a redelimitação dos limites
A Sema, por meio da Assessoria Jurídica, esclarece que a eventual redelimitação dos limites do Parque Estadual das Carnaúbas não constitui ato administrativo simples, tampouco decisão de natureza imediata, tratando-se de procedimento complexo, submetido a regime jurídico específico aplicável às Unidades de Conservação de Proteção Integral.
Nos termos da Lei Federal nº 9.985/2000 (Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC), do Decreto Federal nº 4.340/2002 e da legislação estadual pertinente, qualquer alteração nos limites de Unidade de Conservação exige a observância de etapas técnicas, jurídicas e participativas, incluindo estudos ambientais consistentes, análise de impactos socioambientais e fundiários, bem como a adequada segurança jurídica quanto aos efeitos do ato normativo eventualmente a ser proposto.
O processo administrativo relacionado ao Parque Estadual das Carnaúbas vem sendo objeto de análise no âmbito da Administração Pública, tendo percorrido, ao longo do tempo, distintas fases de avaliação técnica e jurídica, inclusive com a necessidade de reexame e consolidação de informações, em razão da complexidade da matéria e das particularidades ambientais, sociais e fundiárias envolvidas.
Nesse contexto, a tramitação do tema observa o dever de cautela que rege a atuação administrativa em matéria ambiental, especialmente quando se trata de Unidade de Conservação instituída por ato normativo vigente, cuja eventual alteração deve ser juridicamente sólida e tecnicamente fundamentada, a fim de evitar fragilização da proteção ambiental ou questionamentos futuros.
A SEMA reafirma que atua de forma técnica, responsável e juridicamente orientada, em permanente alinhamento com os órgãos de assessoramento jurídico do Estado, com o objetivo de assegurar que qualquer encaminhamento observe estritamente o princípio da legalidade, a segurança jurídica e o interesse público ambiental.
Fontes: Coordenadoria da Biodiversidade (Cobio/Sema) e Assessoria Jurídica (Asjur/Sema).

Sou biólogo, 43 anos, pesquisador e consultor ambiental, com atuação voltada ao estudo e à conservação da biodiversidade no Nordeste — especialmente em ecossistemas de Caatinga e suas zonas de transição. Ao longo da minha trajetória, realizei inventários e monitoramentos de fauna e flora, com ênfase em espécies endêmicas e ameaçadas, produzindo registros de campo, análises técnicas e subsídios para decisões em gestão territorial, licenciamento e fortalecimento de áreas protegidas.
Minha pesquisa na região do noroeste do Ceará começou em 2004, a partir das buscas pelo guariba-da-caatinga, que marcou o início de uma relação contínua com a paisagem e com os desafios de conservação locais.
Participei da indicação da área para se tornar unidade de conservação, contribuí nos estudos técnicos de criação do Parque Estadual das Carnaúbas (2005) e, anos depois, atuei também nos processos de redelimitação do parque (2018 e 2022), somando informações de campo e análises construídas ao longo de inúmeras campanhas.
Nos últimos 22 anos, fiz dezenas de visitas às áreas do parque e do seu entorno — realizando pesquisas, acompanhando outros pesquisadores em expedições e levantamentos, e também visitando recreativamente, o que me deu uma leitura muito fina das mudanças no território ao longo do tempo.
Minha relação com o Parque Estadual das Carnaúbas é, portanto, de longa duração e de compromisso: eu acompanho esse território há mais de duas décadas, conheço sua biodiversidade e suas transformações, e tenho contribuído diretamente para que seu valor ecológico seja reconhecido, documentado e protegido.
Série de reportagens explora as ameaças sofridas pelo Parque das Carnaúbas, unidade de conservação na Serra da Ibiapaba lar de dezenas de espécies ameaçadas de extinção