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O crime que mexe com a mente, o bolso e a identidade dos brasileiros
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Reportagem Seriada

O crime que mexe com a mente, o bolso e a identidade dos brasileiros

Quase todo mundo conhece alguém que teve o celular roubado. Para além do peso emocional do roubo, esse crime traz consequências financeiras e sociais imediatas para um indivíduo. No meio disso tudo, está uma cadeia bilionária de fraudes e venda do aparelho
Episódio 2

O crime que mexe com a mente, o bolso e a identidade dos brasileiros

Quase todo mundo conhece alguém que teve o celular roubado. Para além do peso emocional do roubo, esse crime traz consequências financeiras e sociais imediatas para um indivíduo. No meio disso tudo, está uma cadeia bilionária de fraudes e venda do aparelho
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Quase todo mundo conhece alguém que teve o celular roubado. Ou, talvez, tenha acontecido com você. Perder o aparelho em um assalto é, para se dizer o mínimo, um dos maiores estresses para um indivíduo. Mais precisamente, pode variar de um enorme inconveniente para a rotina até uma situação traumática em larga escala.

O celular é um dos aparelhos ao qual somos mais dependentes. Tornou-se uma espécie de extensão mecânica do corpo e da mente humanas. Mais que fonte de lazer e trabalho, virou quase obrigatório para a realização de atividades essenciais, como trabalho, mobilidade, lazer e até amor e amizade.

No meio disso tudo, está uma cadeia bilionária de venda de telefones, fraudes e golpes bancários, que mira uma população muitas vezes vulnerável, para quem o aparelho é quase sinônimo da própria vida.

 

 

Celular, nosso ponto único de falha

Ter um celular tirado de si, para além do peso emocional do roubo, traz consequências financeiras e sociais imediatas para um indivíduo. Para esta reportagem, O POVO+ ouviu cinco pessoas que passaram por seis experiências de roubo entre 2022 e 2025.

São quatro homens e uma mulher, no interior e em Fortaleza. As lembranças dos crimes variam e vão desde situações consideradas "desconcertantes" até definidoras de rotina.

 

As pessoas ouvidas pelo O POVO+, vítimas de roubos de celulares

 

Para todos, houve impactos. Isso ocorre porque, mais do que um bem comum, o celular virou “ponto único de falha”, segundo ensina aos alunos o professor Marcus Miranda, coordenador dos cursos de Especialização, Eixo Tecnologia da Universidade de Fortaleza (Unifor).

Marcus Miranda, coordenador dos cursos de Especialização, Eixo Tecnologia da Universidade de Fortaleza. Coordena: Segurança Cibernética, Segurança Cibernética com Foco em DEVOPS e Computação Forense(Foto: Acervo Pessoal/Marcus Miranda)
Foto: Acervo Pessoal/Marcus Miranda Marcus Miranda, coordenador dos cursos de Especialização, Eixo Tecnologia da Universidade de Fortaleza. Coordena: Segurança Cibernética, Segurança Cibernética com Foco em DEVOPS e Computação Forense

Seria um paradoxo pós-moderno. Ao mesmo tempo em que a tecnologia mira uma “conveniência máxima”, na qual tudo (banco, a câmera, o trabalho e a família) cabe dentro de um pequeno aparelho, a vulnerabilidade torna-se gigante em relação a ele. “Quando levam seu aparelho hoje, você não perde só um bem material, você sofre um verdadeiro 'apagão civil'”, resume o professor.

O impacto na rotina, portanto, é descrito por Marcus como “imediato e caótico". Ele citou o exemplo das ações pós-roubo, de bloqueio de contas, por exemplo, como uma espiral de dependência.

“Acontece muito da vítima entrar no computador para bloquear as contas, mas não consegue porque o código de verificação (2FA) chega... adivinha onde? No celular roubado. Você fica trancado para fora da sua própria vida”, descreve.

O mais grave, no entanto, seria as consequências do que o professor chama de “sequestro de identidade” causado pela dependência à tecnologia móvel.

Antes, um roubo causava perda de documentos e dinheiro em uma carteira ou demais pertences que a pessoa estivesse portando no momento. Hoje, o acesso ao celular de alguém significa passe livre para toda a vida da pessoa.

“O ladrão usa o WhatsApp aberto pra pedir dinheiro pra sua família, posta coisa na sua rede social. O estresse psicológico e a vergonha que isso gera na vítima são novidades dessa era digital”, explica Miranda. E completa: “A dor de cabeça pra comprar outro aparelho é zero perto da dor de cabeça pra recuperar a sua identidade no meio online".

 

 

Como o celular mudou a configuração do crime

Não apenas essa conjuntura intensifica as consequências de roubo nas vítimas, como muda a configuração do crime. Ocorre, segundo o professor Marcus Miranda, uma “fusão” dos crimes de rua ao cibercrime.

A cadeia varia, mas os assaltantes são, geralmente, a “ponta da lança”. Eles repassam o aparelho para grupos especializados com softwares próprios e know-how "Termo para conhecimento de normas, métodos e procedimentos em atividades profissionais, esp. as que exigem formação técnica ou científica" para quebrar proteções dos usuários, como senhas e pins.

Configurações simples ajudam a proteger seus dados em caso de perda ou roubo do aparelho (Imagem: FLY:D/Unsplash)(Foto: FLY:D/Unsplash)
Foto: FLY:D/Unsplash Configurações simples ajudam a proteger seus dados em caso de perda ou roubo do aparelho (Imagem: FLY:D/Unsplash)

Isso intensificaria os ataques de duas formas principais. A primeira é a facilidade de acesso a contas. Não é preciso mais invadir um servidor super protegido ou entrar numa agência com arma na mão para assaltar um banco, por exemplo.

“Hoje, o ladrão ataca o elo mais fraco, que é o usuário distraído com o celular na mão. O aparelho validado é a 'chave mestra' que pula todas as barreiras de segurança digital que os bancos criaram."

A segunda forma é o que Marcus Miranda chamou de ataque pós-roubo, via engenharia social. Seriam os conhecidos “golpes”. “Muita gente não sabe, mas o crime continua depois que o celular é levado", pontua.

 

 

Citou como exemplo mensagens com e-mails falsos ou SMSs fingindo se tratar do fabricante do celular ou do Google, com indicações de que o celular foi encontrado. “Mandam tipo: 'Seu celular foi localizado, clique aqui para ver'. A vítima, desesperada para recuperar o aparelho, clica, digita a senha e... pronto. Ela acaba de entregar de bandeja a senha da nuvem para o criminoso desbloquear o aparelho de vez”.

O roubo físico, portanto, é apenas a etapa inicial de um ataque cibernético muito mais sofisticado — e bilionário.

 

 

Dinheiro solto no roubos de celulares

As organizações criminosas faturaram 186 bilhões de reais com as práticas criminosas de furtos de celulares e golpes virtuais, entre julho de 2023 e julho de 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).

Outra pesquisa, do instituto Datafolha, divulgou que fraudes digitais e roubos de celular no Brasil resultaram em um prejuízo de R$ 71,4 bilhões entre 2023 e 2024. O levantamento levou em conta crimes digitais com máquinas de cartão, boletos falsos e golpes com Pix.

 

 

Os índices bilionários expressam bem os riscos de endividamento, perdas patrimoniais e comprometimento da segurança digital causados pelos roubos.

A combinação de alto valor agregado dos aparelhos e acesso direto ao “coração financeiro” das vítimas tornou o roubo de celulares um crime de alto retorno para organizações criminosas, conforme explica Thiago Holanda, conselheiro do Conselho Regional de Economia Ceará (Corecon-CE).

 

Relatos de prejuízo financeiro e de dados após o roubo de celulares

 

A visão dele vai de acordo com a do professor Marcus. O aparelho, segundo o economista, vale pelo hardware, mas vale ainda mais pelos dados, pelas credenciais e pelo potencial de monetização rápida via golpes.

Ele indica que a digitalização acelerada criou "assimetrias", nas quais cidadãos utilizam o celular para tudo, mas nem sempre dominam práticas avançadas de segurança, enquanto criminosos se especializam em quebrar proteções, explorar vulnerabilidades e usar engenharia social. “Esse cenário cria um mercado paralelo movimentando desde revendas ilegais até redes especializadas em fraude bancária”, justifica.

O avanço tecnológico, conforme Thiago, embora tenha facilitado transações e reduzido custos de acesso, ampliou o potencial de danos quando ocorre um crime. Danos esses que incluem o estado emocional da vítima.

 

 

O desamparo em ser desconectado

Cada um reage de um jeito a uma situação traumática. É difícil construir uma conexão de causalidade — de que certo evento leva a um sofrimento psicológico específico.

De modo geral, todos são afetados pela perda do aparelho celular, especialmente em uma situação de roubo. Estudo da Universidade Federal da Bahia (UFBA), de 2023, entrevistou 93 vítimas de roubos de celulares e apontou consequências emocionais e psicológicas “profundas”.

Dentre elas, as pessoas demonstraram estar sempre em alerta e preocupadas, com “desenvolvimento de ansiedade e, em casos particularmente graves, os diagnósticos de transtorno de estresse pós-traumático”. Em alguns relatos, as vítimas chegam a alegar que evitam sair de casa devido ao trauma. Em outro, o medo foi intensificado em virtude da gravidez da mulher assaltada. Sintomas parecidos foram identificados pelos entrevistados pelo O POVO+.

 

Leia relatos de impactos psicológicos ao ter um celular roubado

 

Apesar dessa incerteza em determinar os impactos, a perda do celular tende a afetar de forma mais imediata quem utiliza mais o aparelho — seja para trabalho ou para as relações sociais. Neste aspecto, gerações que cresceram conectadas, crianças e adolescentes, podem ser mais afetadas pelo roubo.

Luisa Freire é psicóloga clínica de adultos e adolescentes, Neuropsicóloga, Mestre e doutoranda em Psicologia (UFC)(Foto: Reprodução/Instagram/@luisafreirepsicologa)
Foto: Reprodução/Instagram/@luisafreirepsicologa Luisa Freire é psicóloga clínica de adultos e adolescentes, Neuropsicóloga, Mestre e doutoranda em Psicologia (UFC)

“Há uma predisposição das pessoas mais jovens acabarem desenvolvendo uso problemático da tecnologia por terem uma dificuldade maior de fazer um contraponto do que era a vida antes dela”, explica a psicóloga clínica de adultos e adolescentes, Luisa Freire, doutoranda com pesquisas sobre riscos digitais e adolescência.

Neste recorte, também ocorre variações. Luísa estima impactos maiores em adolescentes que já apresentem características de uso excessivo e “problemático” da tecnologia, que, muitas vezes, já provocam “senso de pertencimento mais enfraquecido com a comunidade, questões familiares ou questões de vulnerabilidade psicológica prévias".

Tudo isso criaria um contexto no qual o roubo do celular não é um evento facilmente superado por esse jovem. “Não é só o fato em si do roubo acontecer, mas a maneira como que cada pessoa se relaciona com a tecnologia e o quanto que a tecnologia acaba desempenhando funções que outras relações ou que outros espaços eram para estar desempenhando”, resume ela.

Adolescentes estão no grupo de vítimas comuns de assaltos. Uma delas foi Deyvison Silveira, de 15 anos, morador do distrito de Juritianha, na cidade de Acaraú (CE). Na noite de 7 de dezembro, como de costume, ele mexia no celular na companhia de um primo. Foi quando um homem, de moto com uma mulher, parou o veículo na esquina e foi até os meninos. Anunciou o roubo.

"Perdi meu celular que tinha poucos meses de uso e não sei quando vou poder comprar outro", lamenta o adolescente, para quem a vida ficou tediosa. "Fiquei sem ter comunicação com os meus amigos para marcar um jogo de futebol ou sair pra um passeio com os amigos, pesquisar conteúdo para estudar para as provas, jogar alguns joguinhos online. O celular também era uma forma de passar o tempo livre", diz.

O que mais lamenta, no entanto, é a falta de perspectiva. "Há muita insegurança onde eu moro. Não tem polícia e fica difícil. Me deixa um pouco frustrado, pois eu não posso fazer nada".

 

 

Prevenção e ações do estado

Todos temos celulares e andamos com eles por toda parte. Estamos sujeitos a assaltos, porém é possível tomar medidas de contenção de danos. Elas servem para todos os aspectos citados aqui: financeiro, digital e emocional.

A proteção financeira vem em camadas, conforme Thiago Holanda, do Corecon-CE. Segundo ele, a primeira envolve reforçar senhas fortes, biometria e autenticação em duas etapas e, principalmente, evitar deixar aplicativos bancários abertos ou com acesso automático.

Depois, a ação reativa. Em caso de roubo, Thiago recomenda agir rapidamente: bloquear linhas, cartões, contas digitais e utilizar canais de emergência dos bancos para paralisar transações. “A velocidade da reação é decisiva para reduzir o prejuízo”, diz ele.

 

Como se prevenir em caso de roubo de celulares

 

O professor Marcus Miranda vai na mesma toada ao falar de segurança digital, apesar de ponderar que “não existe segurança 100%, mas gestão de risco”. O segredo, para ele, é criar o que chama de “camadas de atrito”. “Se o ladrão pegar o celular, ele tem que encontrar tantas barreiras que desista ou não consiga agir a tempo”, explica.

Thiago Holanda, economista e conselheiro do Corecon-CE(Foto: Acervo Pessoal/Thiago Holanda)
Foto: Acervo Pessoal/Thiago Holanda Thiago Holanda, economista e conselheiro do Corecon-CE

Dentre as estratégias, ele defende desde a posse de dois aparelhos (um mais simples para a rua) até acabar com autenticações por SMS, pastas com senhas para aplicativos de bancos e limites para transações PIX.

Tanto Thiago Holanda, quanto o professor Marcus, apontaram ainda medidas de responsabilidade governamental. O economista defende o fortalecimento de políticas de rastreamento, integração de dados entre estados, punição ao mercado ilegal de aparelhos e campanhas de educação digital.

Citou como exemplo a cidade de São Paulo, com o sistema "Celular Seguro", que permite bloqueios imediatos de aplicativos bancários por meio de um botão de emergência. “Mostra que ações coordenadas reduzem prejuízos e a atratividade econômica do crime”, elogia.

Bancos e fintechs, para ele, devem investir em camadas adicionais de autenticação que não dependam exclusivamente do celular, além de algoritmos de detecção precoce de fraudes. Por fim, defende políticas federais de cooperação com operadoras, exigindo bloqueio pelo IMEI e rastreabilidade, podem enfraquecer redes de receptação e diminuir a reincidência do crime.

Já Marcus Miranda aponta que a solução passa por interoperabilidade e inteligência artificial para detectar anomalias antes do dinheiro sair da conta. Ele também divide a responsabilidade entre o Governo Federal e as instituições privadas.

Os governos federal e estadual devem focar na integração de dados. “A polícia, a Anatel e os bancos precisam falar a mesma língua em tempo real”. Além do programa de São Paulo, ele elogiou o "Meu Celular" como “um exemplo interessantíssimo de uso de inteligência”.

Sobre as instituições privadas, como bancos e operadoras, o professor defende o investimento em “biometria comportamental”. “É a inteligência artificial do banco entender o seu padrão. Se eu sempre faço Pix de R$ 50,00 para almoçar em Fortaleza ao meio-dia, e de repente, às 23h, meu celular tenta fazer um Pix de R$ 5.000,00 numa localização diferente, com a tela sendo tocada de um jeito frenético... o banco tem que travar, mesmo que a senha esteja correta”. 

Primeira entrega celulares resgatados pelo Governo do Estado por meio do app Meu Celular(Foto: FÁBIO LIMA)
Foto: FÁBIO LIMA Primeira entrega celulares resgatados pelo Governo do Estado por meio do app Meu Celular

No campo da psicologia, a prevenção é mais delicada e envolve desenvolver conhecimentos com o aparelho que temos nas mãos, mais do que apenas utilizá-lo. É o dito “letramento digital”. Essa habilidade, além das funcionalidades, promove maior consciência sobre os riscos da tecnologia para o emocional humano.

“A maioria da população, não só adolescentes, mas adultos, usam os aplicativos sem entender quais são as repercussões ou como que a gente pode se proteger de processos como a perda do celular.

"O usuário do celular talvez precise se inteirar e ser mais educado em termos de informação sobre recursos de segurança, mas quem sabe as plataformas também serem mais educadoras e fornecerem informações mais claras”, aponta Luisa Freire, em um ciclo que também envolve as escolas e as políticas de juventude, especialmente em um cenário no qual os jovens são vítimas em dobro: são, muitas vezes, os assaltantes e os assaltados.

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