
Resumo
O artista acumulou marcos inéditos, como ter o primeiro álbum totalmente em espanhol a alcançar o topo da Billboard 200 e vencer a categoria de Álbum do Ano no Grammy 2026 com Debí Tirar Más Fotos, além de protagonizar uma apresentação inteiramente em espanhol no Super Bowl 2026.
Bad Bunny utiliza sua plataforma como ferramenta de resistência, desafiando normas de gênero com sua estética, denunciando a violência contra as mulheres e criticando ativamente políticas migratórias e o colonialismo em Porto Rico, o que o levou a confrontos públicos com figuras como Donald Trump.
Além da música, onde funde ritmos caribenhos como salsa e merengue ao trap, ele é um ícone da moda e filantropo, investindo em bolsas de estudo e projetos sociais em sua terra natal, reafirmando seu compromisso em devolver recursos à comunidade porto-riquenha.
Os olhos dos Estados Unidos, e de boa parte do mundo, estavam voltados para o intervalo do Super Bowl 2026, a final da liga de futebol americano. No evento esportivo mais importante dos norte-americanos, com audiência que ultrapassa milhões de espectadores, lá estava ele, falando inteiramente em espanhol: “todos somos América”. E quando Bad Bunny diz todos, é realmente todos.
A vida de Benito Antonio Martínez Ocasio, mundialmente conhecido por seu nome artístico, Bad Bunny, o Coelho Mau, é a crônica de um jovem que transformou a identidade local de Porto Rico e seus afetos de infância em uma potência global imparável.
Do anonimato como empacotador de supermercado ao estrelato histórico, sua trajetória é destacada pela recusa em diluir suas raízes para agradar ao mercado anglófono — e por transformar a cultura latino-americana em referência global da música pop.
Hoje, com as agendas cheias em meio a turnê mundial — com passagem pelo Brasil em 20 e 21 de fevereiro — o artista atrai o fascínio do mundo com uma performance política que desagradou o presidente dos EUA, Donald Trump.

Filho da professora de inglês Lysaurie Ocasio e do motorista de caminhão Tito Martínez, o menino Benito Antonio Martínez Ocasio nasceu em 10 de março de 1994, em Bayamon, segunda cidade mais populosa de Porto Rico — ilha caribenha e território não incorporado dos Estados Unidos, sem poder de soberania.
Irmão mais velho de Bernie e Bysael, compondo os três filhos do casal Ocasio, Benito cresceu com a família de classe média no bairro Almirante Sur, na comunidade de Vega Baja, cercado por diversos ritmos musicais. Passava os dias de infância ouvindo salsa, merengue e baladas, enquanto ajudava a mãe nas tarefas domésticas.
O silêncio do caminho à escola era preenchido com seu ritmo favorito, o reggaeton. Cantores como Daddy Yankee, Vico C e Tego Calderón eram os principais nomes de suas listas de reprodução.
A música fazia parte da rotina da casa, da rua e da escola, preenchendo os espaços e moldando, pouco a pouco, o imaginário do garoto sonhador. Aos cinco anos, Benito já sabia que, quando crescesse, queria se tornar cantor.
Profundamente influenciado pela fé de sua mãe, sua primeira conexão com a música veio do coral da igreja, onde cantou até os 13 anos. O apelido Bad Bunny surgiu de uma memória de infância: uma foto em que, vestido de coelho para um evento escolar, ele aparecia irritado. A imagem gerou piadas entre amigos e acabou batizando sua persona artística.
Antes da fama, a rotina de Bad Bunny dividia-se entre o curso de Comunicação Audiovisual na Universidade de Porto Rico em Arecibo e o trabalho como empacotador em um supermercado.
Nas horas vagas, ele criava batidas em seu computador e postava suas composições de maneira independente na plataforma SoundCloud. Foi ali que chamou a atenção do produtor porto-riquenho DJ Luian, que o contratou para a gravadora Hear This Music após ouvir o hit Diles, em 2016.
A ascensão foi gradual, mas meteórica. Em 2017, ele já emplacava 15 músicas na parada Hot Latin Songs, dos Estados Unidos, e, no ano seguinte, colaborações com Cardi B, em I Like It, e com Drake, no single Mía, o catapultaram definitivamente para o mercado internacional.
Seu primeiro álbum veio em 2018. X 100PRE nasceu após o cantor se unir ao executivo musical Noah Assad. Ainda assim, somente em 2020, dois anos depois, Bad Bunny entrou para a história com El Último Tour del Mundo, o primeiro álbum totalmente em espanhol a alcançar o topo da Billboard 200.
Em 2022, repetiu o feito com Un Verano Sin Ti, que liderou a parada por 13 semanas consecutivas e mais tarde se tornaria o álbum mais reproduzido da história do streaming no Spotify.

O artista pop mais importante do nosso tempo, segundo a revista The New Yorker, não abriu mão do espanhol para alcançar o sucesso. O reconhecimento mundial veio sem concessões ao idioma ou às suas raízes, diferentemente de artistas que migraram para o inglês para ampliar a base de fãs.
Em 2026, Bad Bunny conquistou o prêmio Álbum do Ano no Grammy Awards 2026 com Debí Tirar Más Fotos. Essa é a categoria mais importante da premiação, e foi a primeira vez que um álbum inteiramente em espanhol ganhou a premiação estadunidense — vale lembrar que o Grammy tem uma premiação exclusiva para projetos latino-americanos.
Recorrentemente associado ao que o universo musical considera um divisor de águas no papel da influência latina no mundo pop e nos topos das paradas, o Grammy chegou para ele repleto de emoção, mas os sinais eram claros.
Em uma década de carreira, o artista acumula 153 nomeações e 86 vitórias em premiações — sendo as mais recentes as mais significativas. Em 2026, levou para casa três Grammys, nas categorias Melhor Álbum de Música Urbana, Álbum do Ano e Melhor Performance de Música Global.
Não à toa, o cantor também aparece em boas posições nas listas de artistas mais bem pagos, com ganhos estimados em US$ 66 milhões (R$ 362,7 milhões) em 2025, segundo a Forbes.

Bad Bunny nunca foi apenas música. Desde o início, seu corpo, sua voz e suas escolhas estéticas se tornaram linguagem — e, com o tempo, discurso. Benito construiu uma carreira que extrapola os limites do entretenimento e se projeta como um fenômeno cultural, político e simbólico.
Ao mesmo tempo em que domina as paradas globais, ele desafia normas de gênero, reposiciona Porto Rico no imaginário mundial e transforma o espanhol em ferramenta de poder, não de concessão.
Seu estilo musical, visual e comportamental funciona como extensão direta da sua personalidade pública: imprevisível, provocadora, afetiva e profundamente enraizada em sua terra. Bad Bunny não se adapta ao mundo; ele obriga o mundo a se mover na sua direção.
Em uma indústria latina historicamente marcada pela hipermasculinidade, Bad Bunny surgiu como um corpo estranho e por isso mesmo transformador. Unhas pintadas, roupas amplas ou justas demais, cores vibrantes, saias, maquiagem e estampas consideradas “femininas” passaram a fazer parte de seu vocabulário visual. Não como performance isolada, mas como afirmação contínua.
Sua estética nunca foi gratuita. Ao vestir o que veste, o cantor desafia expectativas sobre como um homem latino, artista urbano e reggaetoneiro deveria parecer. Ele tensiona o machismo estrutural da cena musical ao mostrar que virilidade não está na rigidez, mas na liberdade. Seu corpo vira manifesto e seu guarda-roupa, política.
Essa postura se reflete diretamente na sua obra. Canções como Yo Perreo Sola reivindicam o direito das mulheres à autonomia do próprio corpo e ao prazer sem vigilância masculina.
Em Andrea, ele escancara a violência cotidiana enfrentada por mulheres, assumindo um lugar raro no gênero: o de escuta e denúncia. Ao mesmo tempo, suas contradições permanecem visíveis.
Parte da crítica acadêmica aponta o choque entre esse discurso e letras que ainda reproduzem misoginia e hipersexualização. Bad Bunny não resolve o conflito, ele o expõe. E talvez seja justamente nessa tensão que reside parte de sua complexidade.

Se o corpo é território, a língua é trincheira. Bad Bunny canta exclusivamente em espanhol, mesmo quando fala para plateias que não compreendem uma palavra do idioma. Em um mundo musical ainda profundamente anglocêntrico, essa escolha não é apenas estética.
Quando tentou falar inglês no set do Popcast, do New York Times, em 2025, acabou se expressando em um híbrido de inglês e espanhol. A cena, longe de constrangedora, tornou-se simbólica.
Porto-riquenhos têm cidadania americana, mas a maioria não domina o inglês. Bad Bunny carrega essa contradição histórica no próprio discurso. Ele não traduz sua identidade para caber; ele a sustenta.
Ao anunciar que cantaria no Super Bowl, avisou ao público não hispanofalante que teria “quatro meses para aprender espanhol”. A frase soou provocativa, mas sintetiza sua postura: não pedir permissão, não suavizar a cultura, não diluir a origem.
Para Porto Rico, preservar o espanhol sempre foi um gesto de resistência frente à tentativa de apagamento cultural. Bad Bunny transforma essa resistência em espetáculo global.
A cada álbum, Benito desenha um mapa afetivo de Porto Rico e do Caribe. Características muito claras em Debí Tirar Más Fotos.
Seus versos transitam do explícito ao romântico, da festa à denúncia social. Falam de desejo, mas também de apagões elétricos, gentrificação, colonialismo e abandono estatal.
Em El Apagón, a música vira protesto contra um sistema energético obsoleto; em Lo que le Pasó a Hawaii, denuncia a expulsão silenciosa dos moradores locais em nome do turismo e da especulação imobiliária.
Bad Bunny se tornou uma das vozes mais audíveis da ilha no cenário internacional — um território que, sem soberania política, depende da cultura para existir no mundo. Sua visibilidade desloca Porto Rico do rodapé das notícias americanas para o centro do debate cultural.
Esse compromisso também se manifesta fora do estúdio. Ele esteve presente nos protestos históricos de 2019, apoiou políticos independentistas, criticou publicamente as políticas migratórias do governo Donald Trump e se recusou a incluir os Estados Unidos em uma turnê por medo de que a Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) usasse seus shows para deter imigrantes.
No Grammy, lançou a mensagem “Fora ICE” em rede nacional. Pagou o preço: críticas da direita americana e ataques que tentam reduzir sua atuação a “ativismo de celebridade”. Ainda assim, não recuou.
O impacto de Bad Bunny está justamente em transformar o local em linguagem universal. Musicalmente, ele se afastou da rigidez sintética do reggaeton para incorporar instrumentos acústicos, ritmos tradicionais e referências caribenhas. Salsa, merengue, mambo, plena, bossa nova — tudo se mistura ao trap e ao reggaeton sem hierarquia.
Suas letras citam ídolos do gênero urbano, como o reggaetonero Daddy Yankee, cantor do hit Gasolina, mas também evocam o orgulho afro-caribenho de Ismael Rivera, compositor e cantor de salsa porto-riquenho. O resultado é uma obra que dialoga com o passado e o presente, com a pista de dança e a sala de aula, com o rádio e a história.
Mesmo sem exigir compreensão literal, Bad Bunny conquistou públicos massivos ao redor do mundo. Turnês recordistas, prêmios inéditos e uma base de fãs que canta em espanhol sem necessariamente falar espanhol comprovam que emoção, identidade e autenticidade atravessam fronteiras e idiomas.

Bad Bunny também é um fenômeno da moda. Parcerias com Adidas, Crocs, campanhas com Gucci, Jacquemus e Calvin Klein e presença constante no Met Gala — do qual foi coanfitrião em 2024 — consolidaram sua imagem como ícone fashion. O chapéu de palha que virou assinatura não é apenas acessório: é a pava, símbolo do trabalhador rural porto-riquenho. Mais uma vez, estilo e política se confundem.
Sem negar o capitalismo — ele lucra com ele —, Benito tensiona seus limites. Move milhões na economia local com residências de shows, injeta dinheiro no turismo, cria fundações, bolsas de estudo, projetos esportivos e culturais. Ajuda jovens, limpa praias, doa brinquedos, oferece educação. Sua filantropia não apaga o sistema, mas devolve algo a quem quase sempre fica de fora dele.
Com o tempo, Benito passou a aparecer mais do que o personagem Bad Bunny. Não à toa, foi assim que ele se apresentou no Super Bowl — que alcançou a maior audiência de sua história. Seus últimos trabalhos soam menos performáticos e mais confessionais. Há afeto, memória, nostalgia e pertencimento.
Bad Bunny não busca unanimidade. Ele incomoda, provoca, contradiz, dança, protesta e emociona. É produto do seu tempo, mas também força que o empurra adiante. Entre o perreo e a política, entre o glamour e a denúncia, ele construiu algo raro: uma carreira que faz sucesso sem abrir mão da identidade.

Bad Bunny tornou-se o assunto mais comentado na internet após sua apresentação no show de intervalo do Super Bowl, o All-American Halftime Show. Considerado o esporte mais amado pelos norte-americanos, o Super Bowl — sem tradução para o português — é a final da National Football League (NFL), a liga de futebol americano dos Estados Unidos.
Famosa por ser um dos eventos de maior audiência da televisão norte-americana, a final, já aguardada com expectativa pelos fãs, ganhou um “plus” quando a liga passou a investir pesado em apresentações musicais no intervalo entre os dois tempos do jogo.
Nos últimos anos, passaram pelo palco do Super Bowl artistas como Shakira, Jennifer Lopez, Bad Bunny, J Balvin, Emme Maribel Muñiz, The Weeknd, Dr. Dre, Snoop Dogg, Eminem, Mary J. Blige, Kendrick Lamar, 50 Cent, Anderson .Paak, Rihanna e Usher.
Os artistas são escolhidos pela NFL, e os custos das apresentações são cobertos pela liga e por patrocinadores.
Série vai explorar personagens - famosos e anônimos - para destacar histórias de vida